(Lost in Translation, de Sofia Coppola)
(Almost Famous, de Cameron Crowe)
(Elephant, de Gus Van Sant)
(Irreversible, de Gaspar Noé)
(The Life Aquatic with Steve Zissou, de Wes Anderson)
(Hable con Ella, de Pedro Almodóvar)
(Last Tango in Paris, de Bernardo Bertolucci)
(Before Sunset, de Richard Linklater)
(Billy Elliot, de Stephen Daldrin)
(Once Upon a Time in the West, de Sergio Leone)
Mais em The Movie Title Stills Collection
Há umas semanas, num dia de greve.
"Sabe, eu sou um amante de cinema. Até já fui a Hollywood"
Uma viagem de sonho, desde os tempos em que ia ao Condes, ao cinema, e as cadeiras estavam todas cheias.
"Fui ao passeio da Fama e tudo, onde estão as mãos e os pés dos actores. O meu pé é igual ao do Indiana Jones..."
Mas voltou desiludido.
"Uma desilusão dos diabos".
Demasiada confusão, muita gente, muitos indianos e chineses, muitas lojas de tatoos. Eu fui a Beverly Hills também, fiz a tour pelas casas dos actores. São casas impensáveis, enormes."
Um 'amante de cinema' desiludido.
"Não me senti lá bem. Senti-me europeu. Mas é um país de oportunidades para quem tiver a sorte de ser bom numa arte. Ou mecânico, estofador, alfaiate. Tem sorte. Há trabalho que se farta."
Não basta calçar o mesmo que o Harrison Ford.
Quando partia para a escola primária, diariamente, mochila aos ombros, um pé direito que teimava entortar para dentro, partia com a certeza de uma viagem.
Descia a minha rua, seguia o atalho que me afastava do enorme plátano (que eu imaginava ser o da "Beatriz e o Plátano", da Ilse Losa, com as raízes a forçar o solo ao seu redor) mas que me levava ao encontro das portas e portões das ruas marginais da minha aldeia. Aos muros altos (e que hoje provavelmente seriam baixos), às plantações perdidas no pasmo de uma brisa mais do que ténue, ao poço lá ao fundo, à distância de uma corrida que temia cumprir (porque prudentemente nos alertaram para a assombração que por lá se refugiava). E por fim, entre outro muro alto (esse sim, ainda continua a ser alto) e uma corrente de casas aprumadas, vislumbrava as telhas da escola, as traseiras, com o recreio demasiado grande, abandonado aos passos apressados de um bando de miúdos que respeitavam as fronteiras da escola como uma regra universal. Sentava-me à secretária e abria a mochila. Tinham passado dez minutos. Não me meti em nenhum problema (não me lembro sequer de o ter feito alguma vez) mas sentia-me o Indiana Jones.
Hoje, quando saio para o trabalho, desço a rua, colado ao gradeamento de ferro que me acompanha durante uns bons metros, viro à esquerda, entro na estação de metro, entro numa carruagem aleatória, ouço música, leio, instalo-me nos cinco minutos que o trajecto entre estações ocupa, baralho-me e volto a dar os passos que me levam até uma cadeira, mesmo em frente ao meu computador. Sento-me e ligo o computador. Passaram dez ou quinze minutos. Sinto-me o avô do Indiana Jones.