Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Longitudinal

Longitudinal

Mortos-vivos, tortura e guerras frias

Parecia pequena, como um cacto dentro de um vaso. Parecia um senhor, como se parecem os senhores que usam casacos de cabedal. Parecia quieta, como os quietos. Estava num táxi como quem está num sofá. Falava de mortos-vivos como quem fala de familiares. Repetia que os zombies eram lixados e insistentes, como zombies. Descobria-os todos os dias num ecrã de computador. Dizia que eu tinha de ir lá vê-los, ao "Day Z". Falava desse jogo, que se passava num cenário pós-apocalíptico, como se no exterior do táxi tudo estivesse bem. Jogava com portugueses, franceses, americanos, russos, chineses... Dizia que os americanos são convencidos. Manhosos.

 

Juntou-se aos russos. Contou-me que um dia algemou um americano. Nesse dia chegaram os russos e perguntaram-lhe de onde é que tinha saído aquele prisioneiro. Disse-lhes que era um americano. Eles disseram "Ai é?" E depois do "Ai é?" disseram que o iam torturar. "Ai não vão nada", respondeu. "Vamos pô-lo na cadeia", disse-lhes. "E depois logo se vê".

 

Fazer-se velho

"Oh, que bela é a sua idade! - continuou Anna. - Lembro-me, conheço esse nevoeiro celestial, como o dos montes da Suiça. O nevoeiro que envolve tudo nos dias benditos em que a infância está prestes a acabar, e o caminho que nos leva deste círculo feliz e alegre torna-se cada vez mais estreito, e mete medo entrar nessa arcada, embora seja luminosa e bela... Quem não passou por isso?"

(Anna Karénina, Lev Tolstói)

 

As vidas de formigas

"É a lei da vida, e não estão assim tão mal, os filhos nunca conseguem compreender as ambições dos pais, olham para trás e vêem-nos ali, imóveis e eternos, no lugar que é o deles, nem mais, nem menos, sem suspeitarem que trinta anos antes os pais chegaram ao buraco, com a esperança de que fosse apenas uma passagem, um interlúdio de sacrifício numa narrativa épica de ascenção, e tinham demorado uma vida inteira para perceber que aquela era a última estação e os filhos nunca perceberam que tinham subido fincando os pés nos lombos sofridos dos pais. E estes, com o orgulho de disponibilizarem os lombos doridos aos filhos, exibindo-os nos cafés, com as mulheres e os maridos que não eram do bairro, os netos saudáveis e letrados, a crescer em amplos infantários e casas com aquecimento central, a ignorar os avós e a pobreza toda de um bairro que haveria de ser sempre um bairro, onde as pessoas se conheciam e cumprimentavam como se fossem da família, "cumprimenta ali aquela senhora que é amiga da avó". Os filhos, saudáveis, letrados e bons dentes; os pais uma vida inteira encavernados mas que agora podiam exibir os filhos, saudáveis e letrados, prova de que tinham chegado à superfície, tinham estudado com os filhos dos doutores e agora tinham bons carros, bons dentes e tinham-lhes dado bons netos, que orgulho, a vida de formiga para chegar a ver aqueles netos."

 

(As Pequenas Coisas, Bruno Vieira Amaral)

Talvez

"E isto, dizia-me Virgílio, esta vontade de dançar sem dançar, de ir vivendo sem viver, de passar pelo mundo sem deixar rasto, só um fio de memória puxado por quem não tiver mais que fazer, isto talvez seja uma filosofia prática tão boa como as melhores. No gesto leve e difícil de passear por entre as mesas do café com uma bandeja cheia de copos e chávenas equilibradas na palma da mão talvez Ernesto tivesse alcançado mais sabedoria o que a que nos foi reservada, talvez tivesse estado mais perto da perfeição do que nós alguma vez estaremos. (...) O bailado de Ernesto, o seu lábio descaído, as suas rotinas, o chocalhar dos trocos na bolsa, a casa onde não tinha ninguém à espera, a sua tristeza imponderável, os pensamentos íntimos, a sua felicidade secreta, a morte rápida sem demasiado sofrimento, a perfeição."

 

(As Pequenas Coisas, Bruno Vieira Amaral)

 

Manuel Barros (1930 - 2016)

Morreu Bowie. Morreu Prince. Morreu Cohen. Morreram milhões de pessoas de quem não sei o nome, nem idade, nem estado civil, nem hábitos alimentares. Desapareceram sem sequer terem direito a um greatest hits ou a um boletim clínico diário. Depois disso tudo, resta a 2016 morrer também, enterrando consigo a dignidade que ainda conserva. Morreu também Manuel Barros. Manuel Barros Ribeiro, natural de Mafamude, Vila Nova de Gaia, onde nasceu a 20 de Maio de 1930. Morreu com 86 anos, a 18 de Julho deste ano. O velório e o funeral foram na Igreja de Santo Ovídio, em Gaia. O velório a 18 de Julho e o funeral no dia seguinte, a partir das 14h30. O corpo seguiu para o cemitério de Stª Marinha, também em Gaia. As informações estão detalhadas numa página do InfoFunerais - um site que não conhecia e que tem como página principal um mural de rostos acabados de morrer que é um desolador confronto com a realidade. A tal realidade feita de pessoas de quem não sabemos o nome, nem idade, nem estado civil, nem eventuais dívidas ao fisco. Mas é também o site onde conseguimos encontrar alguma da rara informação sobre a morte de Manuel Barros, a voz que sustentou o Conjunto António Mafra durante décadas.

 

Recuo alguns meses. Lembro-me de ter lido uma publicação na página de Facebook do Sérgio Godinho, ainda em Julho. A concisão era extraordinária. "Como celebrar a alegria quando um dos seus rostos desaparece?" Em destaque, o júbilo glorioso de O Carteiro, provavelmente uma das mais conhecidas canções do Conjunto António Mafra. "À memória do Manuel Barros (...) com quem Sérgio Godinho teve a oportunidade de partilhar o palco." Uma pesquisa rápida. Acreditei que se assinalava o aniversário da sua morte. Julgava que tinha morrido há alguns anos. Nada. Uma nova pesquisa, não tão rápida. Num post publicado na página de Facebook da RTP, lê-se: "Venho por este meio informar a RTP que faleceu no dia 18/07/16, e o funeral foi realizado no dia 19/07/16, o vocalista e músico Manuel Barros do Conjunto António Mafra. Podendo vocês confirmar a noticia no site ou Facebook do conjunto, rádios locais. Meus agradecimentos, Rui Ribeiro ( sobrinho de M. Barros )" Nenhuma resposta da RTP. Nenhum gosto, nenhum coração vermelho, nenhuma triste cara amarela. Apenas um comentário, assinado por alguém chamado José Oliveira ("PAZ À SUA ALMA, EU CONHECI O MANUEL , VIVO EM ALDOAR").

 

Regresso às pesquisas e o desânimo persiste. A Rádio Matosinhos Online publicou uma notícia, através da qual ficamos a saber que morreu de doença prolongada. Aproveitam a frase publicada na página oficial de Facebook do Conjunto António Mafra. "Uma grande perda para a música popular portuguesa, que nos deliciou durante décadas com a sua inimitável voz e o seu jeito característicos de quem ama a música." Para além disto, mais nada. Morreu Manuel de Barros. Aquela voz acabou-se. Desapareceu um dos rostos da alegria, como disseram, e não há uma notícia que nos reconcilie com esta perda.

 

conjuntoantoniomafra.jpeg

 

O relato oficial: o Conjunto António Mafra formou-se em 1958, numa noite de São João, num espaço que o grupo apelidou de Cantinho da Rambóia e que ficava perto da Torre dos Clérigos, no Porto. O primeiro nome da banda era Caixinha de Surpresas mas não durou muito. Não tendo o nome de Manuel Barros à cabeça (a honra ficou entregue ao fundador e principal compositor e letrista, que morreu em 1977), foi sempre dele a voz do conjunto. Aquela voz. O início de carreira foi produtivo. Editaram muitos EP. Actuaram copiosamente. Algures no final dos anos 1970, e com a morte de António Mafra, o fulgor perdeu-se momentaneamente até uma participação no programa 1,2,3 ter praticamente reanimado o grupo. Manuel Campanhã entrou para o conjunto e a guitarra portuguesa foi substituída pela viola braguesa e pelo cavaquinho. Nos anos 1990, uma compilação editada em CD e cassete pela Movieplay agrupou um conjunto de temas que se encontravam avulsos em edições anteriores, difíceis de encontrar. As Vozes da Rádio lançaram até um álbum de tributo já nos anos 2000, com participações de Rui Reininho, Manuela Azevedo, Rui Veloso, entre outros. (Não recomendo).

 

O relato oficioso: o Conjunto António Mafra começou numa cassete de capa avermelhada e com uma fotografia do grupo numa pose a meio caminho de uma gargalhada colectiva. Uma cassete da colecção O Melhor dos Melhores, que nos anos 1990 tinham presença garantida em todas as estações de serviço do país. Essa cassete viajou connosco, dentro do carro da família, durante anos. Por causa dela, connosco vinham o carteiro, a Dona Ester, o chauffer e a criada, o Dom José de Vicente ("que é de São Pedro da Cova"), a Miquelina, a Rosalina, a Felisbela, a Ivone. A música do Conjunto é feita de personagens à solta em quotidianos rocambolescos. Era miúdo quando via o meu pai a tirar a cassete da caixa e a introduzi-la no rádio do carro. Preparava-me para a guitarra portuguesa, para o bombo e o reco-reco, para os ferrinhos... A música popular portuguesa (com todas as letras e todas as interpretações) avançava furiosamente pelo carro, com uma alegria contagiante. A voz de Manuel Barros também. Aquela voz que assumia sem vergonhas a sua sem-vergonhice, uma despudorada brejeirice com sotaque portuense. As modulações na voz que atiravam os subentendidos para as urtigas. Aquele homem com mais de 50 anos que se transfigurava num miúdo, a cantar sobre namorar à segunda-feira com a Rosalina, à terça com a Miquelina, à quarta com a Manuela, à quinta com a Felisbela, à sexta com a Ivone, e ao sábado com a Olga. "E ao domingo? Ao domingo estou de folga." Eram ocasiões de festa sem fim à vista, tanto quanto uma viagem de carro pode ser. Por causa dele, do trinar descarado daquela voz, a minha infância é também uma capa de uma cassete avermelhada e um conjunto de canções que durante a maior parte do tempo estão escondidas num lugar esconso do meu cérebro mas que ao mais pequeno som acordam ribombantes.

 

Cerca de uma semana depois de o Manuel Barros ter morrido aconteceu a Missa do 7º Dia. Foi às 19h30 do dia 24 de Julho, na Igreja de Santo Ovídio, em Gaia. Desde essa altura já passaram mais de cinco meses. Volto a fazer uma pesquisa e continuam a não aparecer notícias sobre esta morte. Possivelmente, e para a maioria, ele é um desses rostos que aparecem no mural da InfoFunerais, uma daquelas pessoas de quem não sabemos o nome, nem a data de nascimento, nem o número de vezes que decidiram alguma coisa de verdadeiramente relevante na sua vida. Para mim não. A minha infância é um sarcófago do tamanho de uma cassete compacta editada pela Movieplay.

 

A Suiça dentro de uma rulote

3e5ddd978eac8d0250646d7db4f51941.image.698x500.jpg

 

 

Atrás de mim, uma paisagem suiça. Ou pelo menos aquilo que eu tinha como imagem mental da Suiça, moldada toscamente a partir do vi à minha frente um par de anos antes e daquilo que os familiares emigrados nos contavam quando apareciam, carregados com tabletes de chocolate, abraços e horas de viagem de carro às costas. A Suiça era um prado com uma montanha ao fundo. Uma vaca aqui e ali. Sem sinais de carros. Na Suiça as pessoas andavam, supunha. Lá ao fundo, uma montanha de cume branco, com neve de sorvete, e a passar rente à montanha aparecia um teleférico, que fugia à normalidade como uma indiscrição do Homem. Mas aquilo era a Suiça e talvez as vacas também andassem de teleférico. Eu não queria saber. Sabia que alguns primos viviam lá mas fazia sentido que não aparecessem neste retrato - nesta imagem da Suiça não cabiam suiços nem suiços emprestados. E atrás de mim, volto ao início, estava um prado amplo, ao fundo do qual irrompia a tal montanha de cume muito branco, duas vacas pasmadas com aquele relvado interminável e estrategicamente colocadas no canto inferior esquerdo do cenário. Aquilo era a Suiça. Mesmo que o tempo tivesse confiado aquela lona um tom amarelado, revelando uma alma outonal que eu reconhecia mais da minha própria rua. A Suiça era assim e eu estava a posar para uma fotografia como se fosse um menino suiço de seis anos. Lá fora, no exterior da rulote que parava à porta da escola, a Suiça era uma fileira de árvores altas, gigantes, um muro bem rente à nossa escola, uma casa arruinada mastigada pelas ervas e o Centro Paroquial, muito quieto, muito vazio, à espreita num canto. Fora da roulote era um miúdo português de seis anos.

 

Lembrei-me destes dias, que se repetiam, como as estações - com a tal rulote, que talvez fosse apenas uma carrinha, a chegar à nossa escola primária na data anunciada - porque recebi esta semana as primeiras fotografias de escola da minha filha. Está sentada num cenário colorido, rodeada daquelas peças e estruturas de espuma com que as creches e os jardins se recheiam para garantir que as crianças, nos seus desiquilíbrios de quem ainda mal aprendeu para que servem mesmo os pés, não se magoem. Aos pés, umas bolas coloridas. Não está a sorrir. 

 

Tenho a certeza de que se pegasse agora numa dessas fotografias tiradas à frente de uma paisagem falsa de uma Suiça de lona, eu estaria a sorrir. Era a isso que estava obrigado a partir do momento em que a professora avisava os meus pais de que num qualquer dia do próximo mês o fotógrafo ambulante ia passar pela escola. Era um dos eventos que talhava o nosso ano. Num nível equivalente recordo apenas a visita de uma trupe reduzida (marido baixinho e quase careca, mulher alta e de farta cabeleira loura, casal de caniches com um pêlo mais do que branco) que nos apresentava, também anualmente, um espectáculo de magia e variedades. O dia excepcional chegava. Começávamos por ser fotografados um a um. Sorriso aberto, exagerado, com a desfaçatez dos que sabem ter um sorriso com um ou vários dentes em falta. A Suiça sempre lá atrás. Depois juntávamo-nos uns aos outros para uma fotografia de grupo - sem suspeitar que, anos mais tarde, essa imagem ressuscitaria algures numa página de Facebook para nos recordar os nomes daqueles outros miúdos ao nosso lado. Uma estalada em forma de cápsula do tempo. Aprumados, asseados, compostos. Todos sorríamos o melhor que podíamos. 

 

A minha filha, no retrato em que congela os seus nove meses, não está a chorar. Mas também não está a sorrir. A boca está a inventar uma expressão que raramente lhe vimos. Parece surpreendida. Está aprumada e composta. Mas natural. O 'dia da fotografia' ainda não faz parte do livro de conceitos dela. E mesmo quando fizer, talvez seja apenas mais um dia. Muito provavelmente não vai recordá-lo desta forma. Com minutos de vida já conhecia a lente da câmara de um smartphone. Não vai conhecer a Suiça através de uma lona, porque já ninguém parece apreciar os benefícios medicinais de um cenário de fotógrafo. Dentro da rulote, quando me pediam para sorrir, inspirava e quase que conseguia sentir o cheiro daquele prado suiço.