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Longitudinal

Longitudinal

Factos de dupla face

"Tracey era firme na sua lealdade à memória do pai ausente, muito mais susceptível de o defender do que eu de falar com simpatia do meu, inexcedivelmente carinhoso. Sempre que a mãe falava mal dele, Tracey tratava de me levar para o quarto, ou para outro sítio privado, e rapidamente integrar o que a mãe tinha dito na sua própria história oficial, segundo a qual o pai não a tinha abandonado, não, nada disso, só que andava muito ocupado porque fazia parte do corpo de dançarinos de apoio de Michael Jackson. Poucas pessoas conseguiam acompanhar Michael Jackson a dançar - aliás, quase ninguém conseguia, talvez só houvesse vinte no mundo inteiro que estavam à altura. O pai de Tracey era uma dessas pessoas.Nem tinha precisado de chegar ao fim da sua audição - era tão bom que eles tinham percebido logo. Era por isso que quase nunca estava em casa: andava numa interminável digressão mundial. A próxima vez que estaria na cidade era provavelmente no Natal, quando Michael ia actuar em Wembley. Num dia limpo viamos este estádio da varanda de Tracey. Agora é-me difícil dizer que grau de credibilidade atribuía a esta história - havia certamente uma parte de mim que sabia que Michael Jackson, finalmente livre da família, dançava agora sozinho - mas, tal como Tracey, nunca aventei o assunto napresença da mãe dela. Como facto, aquilo era, na minha ideia, ao mesmíssimo tempo absolutamente verdadeiro e absolutamente falso, e talvez só as crianças sejam capazes de absorver factos de dupla face como estes."

 

(Swing Time, Zadie Smith)

Vidas reais

“- O Blunkett tem de ser sensato e de tomar medidas para que este país continue a ser um refúgio. As pessoas que sobreviveram a guerras horríveis têm absolutamente de ser autorizadas a vir para cá! – Virou-se para Obinze. – Não concordas?

 

- Concordo – disse ele, e sentiu a alienação a percorrê-lo como um arrepio.

 

Alexa e os outros convidados, e talvez até Georgina, compreendiam a necessidade de fugir à guerra, ao tipo de pobreza que esmagava as almas humanas, mas não compreenderiam a necessidade de escapar à letargia opressiva de falta de escolha. Não compreenderiam porque é que pessoas como ele, que haviam crescido bem alimentadas e com todas as suas necessidades satisfeitas, mas atoladas em insatisfação, condicionadas desde a nascença a olhar na direcção de outro lugar e eternamente convencidas de que as vidas reais aconteciam nesse outro lugar, estavam agora resolvidas a fazer coisas perigosas, coisas ilegais, para poderem partir, sem que nenhuma delas estivesse a passar fome, a sofrer violações ou a fugir de aldeias incendiadas, mas meramente famintas de escolha de de certeza.”

 

(Americanah, Chimamanda Ngozi Adichie)

Dos manuais às universidades, onde está o racismo na escola?

Neste quarto trabalho da série Racismo à Portuguesa, analisa-se a forma como ao longo das várias etapas do sistema de ensino os alunos negros são avaliados e escrutinados. Mas também a representação do colonialismo, da escravatura e dos cidadãos negros nos manuais escolares. Esta série é a segunda parte da série Racismo em Português, sobre o colonialismo português em África e centra-se, por isso, no racismo contra os negros. Justiça, habitação, emprego, educação, activismo e as marcas do colonialismo em Portugal são as áreas abordadas.

 

(Reportagem de Joana Gorjão Henriques, Frederico Batista e Sibila Lind)

"Vemos as cores, não vemos as competências"

Terceiro trabalho da série Racismo à Portuguesa, do jornal Público, com uma perspectiva sobre o mercado de trabalho em Portugal. Esta série é a segunda parte da série Racismo em Português, sobre o colonialismo português em África e centra-se, por isso, no racismo contra os negros. Justiça, habitação, emprego, educação, activismo e as marcas do colonialismo em Portugal são as áreas abordadas.

 

(Vídeo de Sibila Lind, Joana Gorjão Henriques e Frederico Batista)

"Somos negros. Portugal ainda não dá valor como gente"

 

 

Segundo trabalho da série Racismo à Portuguesa, do jornal Público, onde se analisa o acesso à habitação, desde a procura de casa à construção informal de bairros. Esta série é a segunda parte da série Racismo em Português, sobre o colonialismo português em África e centra-se, por isso, no racismo contra os negros. Justiça, habitação, emprego, educação, activismo e as marcas do colonialismo em Portugal são as áreas abordadas.

 

(Reportagem de Joana Gorjão Henriques e Frederico Batista)

"A lei pinta o suspeito de negro"

 

Primeiro trabalho da série Racismo à Portuguesa, do jornal Público, onde se o panorama do sistema judicial português, desde a actuação policial até às prisões, onde se verifica uma sobre-representação dos cidadãos negros. Esta série é a segunda parte da série Racismo em Português, sobre o colonialismo português em África e centra-se, por isso, no racismo contra os negros. Justiça, habitação, emprego, educação, activismo e as marcas do colonialismo em Portugal são as áreas abordadas.

Os bolsos e as possibilidades falhadas

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Em minha casa, quando não sei onde pára um objecto qualquer, há uma expressão costumeira atirada na minha direcção: "procura nos bolsos". Neste caso, nos bolsos dos meus casacos e das minhas calças. É uma piada mas daquelas que se cobrem desavergonhadamente de verdade. Já encontrámos chaves perdidas há vários dias, documentos dados como desaparecidos durante semanas - aquilo que conseguirem imaginar. Não poucas vezes tem o seu quê de surpreendente. E não falo de voltar a encontrar uma nota de cinco euros que recebi como troco num café. Falo de achar possibilidades.

 

Nas últimas semanas voltei a usar um casaco que já não saía do cabide há alguns meses. Enfiei as mãos nos bolsos, começando a esvaziá-los, e encontrei potenciais peças de um potencial museu. O museu dos planos que não cumprimos.

 

Num dos bolsos encontrei um folheto com a programação de uma série de transmissões de peças de Shakespeare num cinema de Lisboa. Em directo, a partir de Londres. Nessa altura, há muitos meses, o bardo inglês faria quatrocentos anos - se se tivesse mantido mais vivo do que aquilo que está. Este ano já faria quatrocentos e um e ninguém festeja esse tipo de aniversários. Reparei que tinha sublinhado duas sessões, em dias e horários que, naquele momento, pareciam possíveis de cumprir. Os planos falharam. Nem me lembro exactamente que outros planos se intrometeram na sua concretização. Reconheço apenas neste folheto o rosto amarrotado de uma possibilidade.

 

*

 

Segunda-feira, onze da noite. Um homem aproxima-se do microfone no palco do bar Templários, em Lisboa. Veste uma t-shirt escura onde se lê "out of place" mas a atitude desmente esse statement. Está obviamente no seu elemento mesmo que a última vez que tenha actuado diante de uma plateia tenha sido há quarenta e dois anos. Tinha dezoito anos.

 

Nessa época tocava, cantava, compunha. Entretanto casou, teve uma filha, teve outra, teve empregos, teve netos, teve abalos sísmicos dos bons e dos maus. O pai da Sara chegou aos sessenta há pouco mais de três semanas. Continua a tocar, a cantar e a compôr. Orgulha-se da sua música, exibe esse orgulho como um acto de resistência. Mesmo no interior da própria família, é difícil encontrar validação quando a vida já deu tantas voltas que acabou por reduzir uma fatia importante da nossa identidade a um mero acessório. Mas o Rui, o pai da Sara, persiste. Mesmo que tenha de ouvir a sua música com auscultadores, para evitar que o resto da família lhe peça para baixar o volume.

 

Quantos planos por cumprir se podem encaixar num período de tempo tão longo? É impossível não conjecturar hipóteses, possibilidades. Como seria se o concerto seguinte não tivesse demorado tanto tempo a acontecer? Se o Rui tivesse tido tempo e oportunidades suficientes para se aborrecer de dar concertos. Há vidas mais curtas do que as décadas que se demoraram entre estes dois momentos de exposição pública. Quantas dessas vidas se manifestam diante de nós enquanto escutamos, música a música, alguém a rebelar-se contra as expectativas?

 

Talvez seja isto aquilo que se sente quando nos cumprimos, quando damos a volta às possibilidades falhadas.

 

 *

 

De cara colada ao vidro, Lisboa ia passando pela ponta do nariz de dois miúdos espanhóis, com quem partilhei o setecentos e vinte e oito. "Olha, um castelo mágico", apontou para o alto. Não era um castelo, era o Panteão a recolher-se atrás dos telhados. "Olha, as matrículas dos carros são códigos secretos." Eram matrículas completamente normais, mesmo de acordo o padrão espanhol. "Olha, o rio está a fazer ondas." Estava, mas era apenas a esteira de um navio. "Olha, estão dois monstros escondidos atrás daquele prédio." E se estivessem mesmo?

 

(lá em cima, uma still do Era uma vez na América, do Sergio Leone) 

"Era o mar, era a terra e era a baleia"

A memória é uma coisa que vem em debandada mesmo que, por vezes, demore a revelar-se. É também uma coisa que apanhamos quase sempre no último troço de uma cadeia longínqua. A minha memória é também a dos meus pais, dos meus avós, dos meus tios, dos meus bisavós que não conheci. Cheguei ao Pico depois de ouvir o Francisco Henriques, que me falou dos baleeiros que ele e o Luís Bicudo andavam a escutar há mais de um ano em todas as ilhas dos Açores. Esses baleeiros - os últimos e os derradeiros desde há décadas - continuavam a aparecer. Como as memórias, curiosamente.

 

O Luís, por exemplo, anda a fixar a memória dos avós, e por arrasto a da sua ilha e a do seu arquipélago, há alguns anos. Com uma curta-metragem, com uma longa-metragem, e depois com um projecto a quatro mãos, correndo as nove ilhas dos Açores em busca dos testemunhos de quem andou na caça ao cachalote. É um percurso de endurance. Não poderia ser de outra forma, suponho. Este último projecto, aquele que fez com o Francisco, chama-se Arquivo de Memórias da Baleação. É um tesouro.

 

Em 1867, Mark Twain esteve nos Açores durante uma viagem a bordo do paquete Quaker City. Passou ao largo da ilha das Flores. Esteve pouco tempo no Faial, durante o qual admirou a milagrosa limpeza da ilha e as suas estradas maravilhosas. O mesmo não podemos dizer da sua percepção dos faialenses. "A comunidade é principalmente portuguesa - ou seja, pobre, apática, modorrenta e preguiçosa", escreveu nos seus relatos (publicados em Portugal pela Tinta da China, com o título A Viagem dos Inocentes).

 

Por esta altura já havia açorianos na baleação norte-americana há décadas e mesmo nos Açores já se caçavam cachalotes ao largo das ilhas, sobretudo naquelas mais a Oeste. Lembro-me portanto das palavras de João Carlos Lopes, que no início dos anos 1980 foi ao Faial ao encontro dos baleeiros ainda no activo: "Imagine um pequeno bote, com sete homens lá dentro, um homem de pé com uma lança na mão a fazer a aproximação a um bicho do tamanho de um autocarro." Não consigo ajustar isto nem à apatia, nem à modorra, nem à preguiça que Twain disse ter encontrado. Recordo-me ainda das conversas com os baleeiros e da forma como falavam da sua vida, a de agora mas sobretudo a daquele tempo. Com arrebatamento, como quando a memória se começa a desembaraçar.

 

"Era o mar, era a terra e era a baleia"

Especial multimédia "Era o mar, era a terra e era a baleia"

Reportagem Nos Açores, à procura de homens que são máquinas do tempo