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Longitudinal

Longitudinal

Estado Actual #41

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Tenho um dispositivo da Via Verde por activar no carro. Sempre me pareceu uma coisa de adulto (tanto quanto ter um filho, mas entretanto também passei a ser pai). Está ainda por activar e por colar no vidro. É o último acto de resistência dos meus vinte anos. Esse e o herpes que me apareceu no lábio esta semana. Esta crosta continua a parecer-me coisa de adolescente, de quem andou a beijar quem não devia. E nem vou alongar-me sobre a t-shirt do Donald. Por enquanto o aparelho da Via Verde vai continuar no porta-luvas. Mantenho o pronto-pagamento e os trinta não me encontram.

 

"Não leio jornais, não vejo televisão, não vale mesmo a pena"

Monólogo de um taxista aborrecido na véspera do dia 10 de Junho


"Eu não leio jornais, não vejo televisão, não vale mesmo a pena. Mas já falta pouco para toda a gente ficar a saber. (suspiro) Pensava que por aqui íamos mais depressa mas enganei-me. Eu não chamo a isto Festas de Lisboa. Chamo energia negativa. Qual festas qual quê? Isto de bicicleta é que era bom. Fazíamos exercício e não estávamos a poluir. As pessoas têm um bocado de dificuldade em acreditar nisso de que estou a falar. E acham que sou maluco. Ou teórico da conspiração! Vamos lá ver se me consigo explicar. Temos os Homocapensis. Estão escondidos no Vaticano, debaixo do chão. E quando andam pela rua andam de chapéu para ninguém suspeitar. Porque eles têm os crânios com um formato estranho. Aliás, as mitras que eles usam no Vaticano é mesmo para ninguém desconfiar. Religião e economia, é tudo controlado por eles. Uma jurista que trabalhava no Banco Mundial também falou deles... Depois há os Reptilianos e os Traidores da Nossa Raça, que são os da Maçonaria. A família real britânica é Reptiliana. E eles mataram a Princesa Diana. Porquê? Sei lá... Ela referia-se a eles como lagartos. A Princesa Diana sabia muita coisa... E eu ando aqui mas não ando a dormir. Nem nos médicos confio. Também são controlados pelos Homocapensis. (suspiro) Estou farto deste emprego. Eu agora ia bem era para jardineiro. Mas os Reptilianos também andam por lá, a podar árvores. Ia-me chatear."

 

Uma experiência mais humana

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"A cerimónia de três horas foi de uma ansiedade interminável. A meio, esgueirei-me até ao lobby, onde apanhei o Richard Burton a fumar um cigarro. Ele olhou para mim e disse alguma coisa sobre ter dúvidas de alguma vez vir a ganhar uma "dessas malditas coisas". Eu anui com a cabeça. Que mais poderia fazer? Eu estava ao lado de uma lenda. Ele tinha razão. Não ganhou. Ganhou o Richard Dreyfuss. A imagem do Dreyfuss a bater palmas e a sacudir os punhos era difícil de superar, mas o encontro particular e cara a cara com o Richard Burton teve um poder mais duradouro. Talvez perder seja uma experiência mais humana."

 

(Diane Keaton sobre a cerimónia dos Oscars de 1977, na qual venceu o prémio de Melhor Actriz por Annie Hall, num excerto do seu livro de memórias Then Again.)

Escrever em voz alta

Durante nove meses, oito pessoas traçaram um objectivo: escrever uma peça de teatro. A maior parte nunca o tinha feito (ou pelo menos desta forma). A cada semana expuseram os seus textos, inquietações e as dores de parto de um processo criativo. O Teatro Nacional D. Maria II criou um Laboratório de escrita para teatro, com o olhar apontado para o surgimento de novos dramaturgos e de novos textos. As palavras e personagens criadas nos últimos meses vão ganhar corpo no Festival de Leituras Encenadas, até 26 de Junho. no D. Maria II, em Lisboa. Será uma prova de fogo para os oito autores, que se conheceram no quinto piso do Teatro Nacional, onde criaram uma ligação familiar. Até que a sala se tornou pequena, num dia em que receberam os encenadores e actores que, a partir de agora, vão pegar nos seus textos. É por aí que começamos. Pelo fim.

 

Que já só penso no Verão do próximo ano

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Que hoje esteve calor, que já é Verão, que não devias andar com a cabeça a descoberto, que afinal ainda não está tempo de ir à praia, que o que me apetecia agora era mesmo um mergulho, que a água do mar está muito fria, que as ondas estão muito fortes, que hoje não há ondas e isto mais parece uma piscina de crianças, que a praia está a abarrotar, que está muito vento, que tenho areia em todos os refegos do corpo, que afinal o tempo já está mesmo de praia, que se aqueles miúdos me voltam a acertar com a bola nem sabem o que lhes acontece, que o trânsito para a praia estava infernal, que hoje a praia estava impossível, que não consigo acreditar que ainda há quem traga tachos e panelas para a praia, que tenho fome e só trouxe uma sandes de queijo e um iogurte, que dava o meu reino por um gelado no final de um dia na praia, que acho que já estou a ficar bronzeado, que os dias estão mesmo mais longos, que as saídas à noite estão cada vez mais longas, que tenho o livro cheio de grãos de areia, que os dias começam a parecer mais curtos outra vez, que ontem já tive de carregar a geleira e o chapéu de sol portanto hoje é a tua vez, que me sabe bem regressar a casa com a pele encascada do sal e da areia e ter de baixar a pala no carro para não ficar encandeado, que devo ter perdido os óculos de sol algures, que os dias estão mesmo a ficar mais curtos, que ontem não estava quase ninguém na praia, que hoje já fazia falta um tapa-vento, que afinal os óculos de sol estavam no porta-bagagens, que ninguém merece andar estes quilómetros todos e estar bandeira vermelha, que hoje nem vou espalhar protector solar, que não vou andar quilómetros e quilómetros de carro para chegar lá e o tempo estar péssimo, que os dias estão mais curtos, que hoje já esteve mais frio, que já só penso no Verão do próximo ano.

 

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Taxista #9

Ir para a Suiça trabalhar e receber mil e duzentos euros, o mesmo que eu ganho aqui no táxi? Ainda bem que fiquei por cá. Há dias tive aqui no táxi uma senhora que está na Suiça e disse que aquilo está mal, tão mal quanto aqui. Agora pense, se tenho que comer, dormir, vestir, calçar, gastar mais algum quando estou de folga, quer dizer, para meter cá em Portugal uns trezentos ou quatrocentos limpos mais vale não sair daqui, por que isto agora já não é como antigamente. Ia ganhar mil e duzentos euros, eu aqui ganho mil e duzentos euros com o táxi.

 

Na altura estava desempregado, depois de largar o restaurante onde estive trinta anos. Ficava em Camarate, onde morreu o Sá Carneiro, e já nessa altura estava a trabalhar nesse restaurante. No início estava só a minha mulher, eu trabalhava por fora na construção civil, até ela me dizer "ah, preciso de alguém que me vá às compras, que saiba fazer as compras...", e eu fui para ao pé dela, depois de despedirmos um empregado que estava lá a roubar-nos. Durante trinta anos não tivemos férias, isto é verdade, não é treta. "Vamos tirar oito dias de férias, ou quinze, e vamos a algum lado..." Nada, impossível, é preciso pagar os impostos, o guarda-livros, a luz, o gás, aquela porcaria toda, os empregados, os subsídios de férias, os subsídios de Natal. Tinha um fim-de-semana na Páscoa, mais o dia de Natal, o de Ano Novo... De vez em quando um dia a mais... Mas também era assim, uma pessoa não descansa, uma pessoa vai sair, vamos até, imagine, Fátima... uma pessoa está farta de trabalhar depois mete-se no carro e vai conduzir 300 quilómetros, conduzir é trabalhar, é cansativo, e depois eu pensava "isto é que é o meu dia de folga?", pegar no carro de manhã, chegar a casa à noite, dormir e depois ir trabalhar logo de manhã?" Mais vale não fechar, não é verdade? Estou de folga? Pois... Vai para aqui vai para acolá! Não vale a pena, então mais vale ficar em casa. Dormimos, levantamo-nos, vamos comer fora, voltamos, dormimos...

 

O nosso café até era bonito. Mas já conhecíamos as pessoas todas, e depois elas abusavam. A gente fala, fala, fala mas o mal também é esse. Como têm conhecimentos, é já aquela... tipo um dia como o de hoje, Braga contra Benfica. Embebedavam-se, e porquê? Já havia aquela confiança, os miúdos iam lá pedir chupa-chupas, pastilhas e os pais que pagassem, depois passavam os anos, começavam a fumar, iam lá comprar tabaco em vez de doces. Eu tive lá gajos que me ficaram a dever seicentos, setecentos euros, tenho lá em casa uma agenda com as dívidas todas. Há dias pus-me a somar aquilo tudo, ainda foram quatro mil e quinhentos euros ao ar. Nunca os vou receber, impossível... Algumas pessoas ainda as vejo e nem lhes falo na dívida, ia-me chatear e nem vale a pena, como dizia a minha mãe: começava-se a chover no molhado.

 

Eu por acaso tive um rapaz que nunca pensei que ele fizesse isso, era aquele gajo que nunca pensei que me fizesse isso... Foi a minha casa trazer-me o dinheiro e era o gajo mais alcoólico que eu tinha naquela casa. Ele nao era bêbedo, ele andava sempre bêbedo, era segurança e tudo, e foi despedido por causa disso. Ficou-me a dever cento e vinte cinco euros, um dia vou ao café da frente e lá está o gajo, "morreu o meu pai, vamos para a terra, para a Sertã, vamos viver para casa da minha avó, sei que te estou a dever cento e vinte cinco euros". E eu disse "paga só cento e vinte e com o resto pagas uma cerveja aqui ao pessoal", cum caraças, o gajo mais maluco e mais bêbedo e foi o único que me veio pagar. Isto a vida é do caraças.

 

 

"O que é que os selvagens podiam entender sobre um relâmpago?"

"Tínhamos medo da bomba, do cogumelo atómico, mas a vida deu uma volta diferente... A tragédia de Hiroxima é assustadora, mas conseguimos entendê-la. Aqui... Sabemos como arde uma casa incendiada com um fósforo ou um projétil, mas isto aqui não se parece com nada. Chegavam rumores de que era um fogo extraterreno, não era um fogo sequer mas uma luz. Uma cintilação. Uma resplandescência. Não era bem azul, mas um azul-celeste. E não era fumo. Dantes os cientistas estavam instalados no lugar dos deuses, agora são anjos caídos. Demónios! A natureza humana era e continua a ser um mistério para eles. Sou russo, da região de Briansk. Sabe, lá pode ver um velho sentado À porta,a  casa está torta, prestes a cair, mas ele filosofa, reorganiza o mundo. Encontra-se sempre um Aristóteles em qualquer sala de fumo duma fábrica. Junto a um quiosque de cerveja. E nós, ao pé do reator..."

 

(Víktor Latún, fotógrafo - Vozes de Chernobyl, Svetlana Alexievich)

 

"Nós... Estou a falar de todos nós... Nós não esquecemos Chernobyl, não o tínhamos entendido. O que é que os selvagens podiam entender sobre um relâmpago?"

 

(Valentin Borissévitch, antigo chefe do laboratório do Instituto de Energia Nuclear da Academia das Ciências da Bielorrússia - Vozes de Chernobyl, Svetlana Alexievich)

 

 

 

Em Chernobyl, a tomar nota do futuro

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"- Já não podemos, como os heróis de Tchékhov, acreditar: daqui a cem anos o homem será belo! A vida será bela!! Perdemos este futuro. Passados cem anos, houve o gulag estalinista, Auschwitz... Chernobyl... E o 11 de Setembro em Nova Iorque... Não dá para perceber como é que tudo isto se dispôs e coube na vida de uma geração, na sua dimensão. Por exemplo, na vida do meu pai, que tem agora oitenta e três anos? O homem sobreviveu?

 

- O que lembramos mais de Chernobyl é a vida depois de tudo: as coisas sem o homem, as paisagens sem o homem. O caminho para o nada, cabos para o nada. Chega-se a duvida, o que será: o passado ou o futuro?

 

- Às vezes parecia-me estar a tomar nota do futuro..."

 

(Vozes de Chernobyl, Svetlana Alexievich)

 

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(Fotografias: Guillaume Herbaut