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Longitudinal

Longitudinal

Indiana Jones

 

Quando partia para a escola primária, diariamente, mochila aos ombros, um pé direito que teimava entortar para dentro, partia com a certeza de uma viagem.

 

Descia a minha rua, seguia o atalho que me afastava do enorme plátano (que eu imaginava ser o da "Beatriz e o Plátano", da Ilse Losa, com as raízes a forçar o solo ao seu redor) mas que me levava ao encontro das portas e portões das ruas marginais da minha aldeia. Aos muros altos (e que hoje provavelmente seriam baixos), às plantações perdidas no pasmo de uma brisa mais do que ténue, ao poço lá ao fundo, à distância de uma corrida que temia cumprir (porque prudentemente nos alertaram para a assombração que por lá se refugiava). E por fim, entre outro muro alto (esse sim, ainda continua a ser alto) e uma corrente de casas aprumadas, vislumbrava as telhas da escola, as traseiras, com o recreio demasiado grande, abandonado aos passos apressados de um bando de miúdos que respeitavam as fronteiras da escola como uma regra universal. Sentava-me à secretária e abria a mochila. Tinham passado dez minutos. Não me meti em nenhum problema (não me lembro sequer de o ter feito alguma vez) mas sentia-me o Indiana Jones.

 

Hoje, quando saio para o trabalho, desço a rua, colado ao gradeamento de ferro que me acompanha durante uns bons metros, viro à esquerda, entro na estação de metro, entro numa carruagem aleatória, ouço música, leio, instalo-me nos cinco minutos que o trajecto entre estações ocupa, baralho-me e volto a dar os passos que me levam até uma cadeira, mesmo em frente ao meu computador. Sento-me e ligo o computador. Passaram dez ou quinze minutos. Sinto-me o avô do Indiana Jones.