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Longitudinal

Longitudinal

Estado Actual #33

 

 

 

Perdemos o vento a silvar entre tapa-ventos, guarda-sóis estandardizados, selvas de pano colorido enterrados pela areia… E a praia tornou-se um cemitério no qual nos enterramos voluntariamente. De modo lento, conscientes da distância que a maioria procura cumprir, começam a arrastar-se à minha volta. Vejo dezenas de famílias a chegar. Chegam tão tristes e vagarosas, aborrecidas desde o primeiro minuto. Aburguesando-se aos poucos num piquenique frugal de iogurtes diet, sanduíches leves e bocejos. Nem uma talhada de melão, nem um só damasco, nem "pão-de-ló molhado em malvasia".

 

Abandonámos os elementos naturais. O mar é apenas paisagem que se subjuga, com a excepção de algumas vagas cuja obstinação não esconde, ainda assim, o seu propósito cenográfico. Rebolamos nas ondas com a mesma vontade com que nos dirigimos todos os dias, à mesma hora, em direcção ao emprego. E mergulhamos, depois de uma entrada medrosa, sem o fulgor que a água fria de outros tempos nos exigiu durante anos. O tédio apoderou-se do estio, e em cada par de seios procuramos, sem nunca desfrutar, "o ramalhete rubro das papoulas". O Verão acabou. Não apenas por agora e durante três estações.

 

O Verão acabou.