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Longitudinal

Longitudinal

Taxista #4

 

O Edgar não acredita em coincidências, ele sabe que elas existem. Cruza-se com elas todos os dias no táxi. 

 

Um dia transportou um homem no banco de trás e falaram de tudo. Acabaram na absoluta admiração que tem por Carlos do Carmo (fala dele como se fosse o fã número um), "o mais culto dos músicos portugueses". No final da viagem percebeu que o homem no banco de trás era o filho do fadista.

 

Esteve no Ultramar quatro anos e ao lado dele esteve sempre Serafim Santos. Nunca mais se viram desde aí mas as histórias partilhadas com o companheiro de tropa foram tantas vezes repetidas que acabaram por contaminar o resto da família. Há uns anos a filha do Edgar abriu uma mercearia em Castelo Branco (será Covilhã?). Um cliente entrou, certo dia, pelas portas da loja e com o desenrolar de histórias, ela percebeu que tinha acabado de encontrar o colega do pai. No dia seguinte, o Edgar liga-lhe. Resmunga com o amigo reencontrado, como provavelmente fazia no passado. Serafim acaba a chorar do outro lado do telefone.

(Não sei se o Edgar se emocionou também mas acredito que sim. Quando era novo reclamava com a mãe por chorar pela mais pequena coisa - "no dia do meu casamento chorou como se fosse o meu funeral" - mas agora reconhece que nos últimos anos perdeu o controlo sobre si mesmo quando, sem aviso, os olhos cedem à comoção).

 

Há uns anos, à saída de uma casa de fados, apanhou duas turistas brasileiras. No auto-rádio, o Edgar estava a ouvir o concerto com Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Toquinho e Miucha, gravado no Canecão em 1977. Uma delas perguntou-lhe se sabia o que estava a tocar na rádio. "Claro que sim". Tinha sido o próprio Edgar a escolher aquele álbum. Ela começou a chorar, algures entre a "Tarde em Itapuã" ou a "Chega de Saudade". Em 1977 tinha estado no Canecão com o marido, falecido uns anos antes daquela viagem de taxi.

 

"O mundo é do tamanho de uma ervilha". É por isso que, 40 anos depois de ter andado na 2ª classe, o Edgar descobriu, entre as páginas de uma revista, que a sua jovem professora acabou por se tornar a mãe do treinador mais célebre do mundo, José Mourinho.