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Longitudinal

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Não confio num Outono...

Não confio num Outono que aparece às nove da manhã de um dia útil. Ainda por cima com uma precisão em desuso; ninguém agenda o seu regresso, quase um ano depois de ter partido, para as nove e vinte da manhã. Sobretudo, ninguém decide anunciar o reinício do arrefecimento geral numa gloriosa manhã de sol - a não ser que reconheçamos no gesto a assinatura de um sádico. Não confio em Outonos, posso generalizar. Como não acredito em paliativos. Nem em simulacros. Só nos resta rejeitar uma estação que sobrevive em exclusiva dependência da sua sucessora. E nem a melancólica encenação do ritual das folhas caducas a resgata dessa vagueza. Porque nunca conheci Outono feliz. Não me recordo de alguém ter combinado estes dois conceitos, mais do que palavras, numa frase. A não ser eu, há uma linha, precisamente para negar a sua união. Mas não me permito generalizações. Uma certeza: não o vivi. Nunca soube encontrar consolo nessa branda passagem de testemunho que a meia-estação ilude.

 

À janela da cozinha tenho um galo meteorológico. Todas as manhãs confirmo a minha suspeita. Desde que o Outono começou, a superfície aveludada do galo nunca deixou de ser azul. (O azul significa que estará sol, o cor-de-rosa chuva; a exactidão só não é assustadora porque se trata de um galo de plástico que prediz o estado do tempo e estamos na dimensão das coisas irreais mas definitivamente possíveis.) Antes de saciar a fome, mastigo em silêncio mais um falhanço do Outono. Que venha a chuva e a estação verdadeira. As folhas já caíram há muito.