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Longitudinal

Longitudinal

Os dias não são fáceis, não costumam ser

O fumo, ao longe, em formato de coluna salomónica. Uma fábrica a crescer sobre si mesma à distância. Um, dois, três carros. Não vale sequer a pena contá-los porque se misturam e passam a ser, alternadamente, um só e milhares. O comboio vai sinalizando a sua passagem com onomatopeias que se parecem com brisas. E a janela do comboio deixa de ser uma réplica de um ecrã em andamento. O cenário altera-se mas é o fumo ao longe que lhe captura o olhar. A resiliência de uma coluna de fumo que, por mais que ele avance, repisando o rasto férreo dos carris, não se afasta nem se deixa perturbar. A fábrica torna-se mais pequena mas cresce aos seus olhos.

 

O dia não vai ser fácil. Não costuma ser. Um clique (ou um "clic") junta-se ao som das brisas passageiras. Dois cliques. Um silêncio maior do que o anterior. Um "clic". O revisor aproxima-se sem nunca olhar pela janela. Devolve ao cenário exteior uma indiferença glacial. A fábrica que cresce sobre si mesma é apenas uma fábrica. A coluna de fumo é indistinta.

 

O rapaz, que se chama Rui, remexe a mochila, bolsa por bolsa. Distraiu-se com o fumo, com a fábrica. O bilhete está na bolsa mais escondida e só o encontra quando o revisor já está a poucos cêntimetros de si. Clique, clic. O comboio pára, ninguém sai. Nunca ninguém sai nesta estação, mesmo com os belos azulejos que a cobrem. O comboio avança mais uma vez, aos soluços. O dia não vai ser fácil, os dias não o costumam ser, principalmente um dia destes. Da categoria dos inéditos. O dia em que o país mais ocidental da Europa se vai partir em dois.