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Longitudinal

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"Era o mar, era a terra e era a baleia"

A memória é uma coisa que vem em debandada mesmo que, por vezes, demore a revelar-se. É também uma coisa que apanhamos quase sempre no último troço de uma cadeia longínqua. A minha memória é também a dos meus pais, dos meus avós, dos meus tios, dos meus bisavós que não conheci. Cheguei ao Pico depois de ouvir o Francisco Henriques, que me falou dos baleeiros que ele e o Luís Bicudo andavam a escutar há mais de um ano em todas as ilhas dos Açores. Esses baleeiros - os últimos e os derradeiros desde há décadas - continuavam a aparecer. Como as memórias, curiosamente.

 

O Luís, por exemplo, anda a fixar a memória dos avós, e por arrasto a da sua ilha e a do seu arquipélago, há alguns anos. Com uma curta-metragem, com uma longa-metragem, e depois com um projecto a quatro mãos, correndo as nove ilhas dos Açores em busca dos testemunhos de quem andou na caça ao cachalote. É um percurso de endurance. Não poderia ser de outra forma, suponho. Este último projecto, aquele que fez com o Francisco, chama-se Arquivo de Memórias da Baleação. É um tesouro.

 

Em 1867, Mark Twain esteve nos Açores durante uma viagem a bordo do paquete Quaker City. Passou ao largo da ilha das Flores. Esteve pouco tempo no Faial, durante o qual admirou a milagrosa limpeza da ilha e as suas estradas maravilhosas. O mesmo não podemos dizer da sua percepção dos faialenses. "A comunidade é principalmente portuguesa - ou seja, pobre, apática, modorrenta e preguiçosa", escreveu nos seus relatos (publicados em Portugal pela Tinta da China, com o título A Viagem dos Inocentes).

 

Por esta altura já havia açorianos na baleação norte-americana há décadas e mesmo nos Açores já se caçavam cachalotes ao largo das ilhas, sobretudo naquelas mais a Oeste. Lembro-me portanto das palavras de João Carlos Lopes, que no início dos anos 1980 foi ao Faial ao encontro dos baleeiros ainda no activo: "Imagine um pequeno bote, com sete homens lá dentro, um homem de pé com uma lança na mão a fazer a aproximação a um bicho do tamanho de um autocarro." Não consigo ajustar isto nem à apatia, nem à modorra, nem à preguiça que Twain disse ter encontrado. Recordo-me ainda das conversas com os baleeiros e da forma como falavam da sua vida, a de agora mas sobretudo a daquele tempo. Com arrebatamento, como quando a memória se começa a desembaraçar.

 

"Era o mar, era a terra e era a baleia"

Especial multimédia "Era o mar, era a terra e era a baleia"

Reportagem Nos Açores, à procura de homens que são máquinas do tempo 

 

 

Filmar tudo

 

 

Regressamos sempre aos primeiros planos, balançando no eterno hesitar das ondas: a silhueta de um rochedo, uma ilha a formar-se à nossa frente. E regressamos às informações mil vezes reproduzidas: um isolamento de 6 por 4 quilómetros, uma vila com apenas 440 habitantes. O desejo assumido no início afigura-se razoável. "Filmar tudo. Estar em todo o lado ao mesmo tempo." Felizmente a sofreguidão não é um traço do olhar de Gonçalo Tocha.

 

No seu registo imersivo, "É na Terra não é na Lua" é tocado pela efemeridade das primeiras vezes (como as que o antigo Cabo do Mar, Óscar Nunes, anotou nos seus cadernos - primeiro avião na ilha, primeiro dia com electricidade). Estamos em território de descobertas renovado pela consciência singular do maravilhamento.

 

Trata-se de "filmar tudo" - os aviões, as caras, a matança do porco, o cais, o mar, a vigia da baleia, o "Traineira" travestido de discoteca - mas, sendo impossível, arriscamos entrar no passado através do mais poderoso dos instrumentos: a memória. Trata-se também de não conseguir "filmar tudo" mas, pelo menos, recontá-lo: o observador de aves que vomitou perante a ave rara, os documentos que nunca iremos ver porque Óscar os destruiu. Explosões, mas em surdina.

 

Abandonada a ilha, numa sala de cinema, regressamos à silhueta do rochedo e acreditamos que o Corvo se manterá ali no meio do Atlântico. Mas regressamos também ao lado efémero destas três horas de viagem e duvidamos se algum dia terá existido. Nem na Terra, quanto mais na Lua.