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Longitudinal

Longitudinal

Um mergulho

 

O iPhone tem uma maneira particular de organizar a minha vida, ou pelo menos a parte da minha vida que se traduz nas fotografias que vou tirando aqui e ali. Ele decide sozinho o que foi "o melhor das últimas duas semanas" e "o melhor do último ano". Há uns meses decidiu escolher como "o melhor da última semana" uma fotografia do meu joelho inchado e disforme depois de uma cirurgia. Não tinha sido o melhor
daquela semana. Mas há uns dias reparei no álbum "o melhor do último ano". A fotografia de capa era uma imagem do último Verão: eu, a Sara e a Salomé no final de um dia de praia. Eu e a Sara estamos a sorrir de forma exagerada, a Salomé está a fazer o mesmo mas sem querer. Tinha seis meses. Há umas semanas fez um ano.

 

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Os últimos doze meses têm sido - à falta de uma expressão melhor - meses de aprendizagem. Aprendizagem de músicas infantis, por exemplo, e uma delas acabou por soar há uns dias como uma síntese perfeita desta coisa estranha que é ser responsável e testemunha privilegiada das primeiras vezes de outra pessoa. À custa de a ouvir tantas vezes, acabei por passar demasiado tempo a pensar naquela lengalenga do elefante que estava a saltar numa teia de aranha e que como via que não caía foi chamar outro elefante. É simples: um elefante salta numa teia de aranha e acaba por chamar outro amigo elefante para saltarem ambos na mesma teia. Como aparentemente a teia os suporta sem qualquer problema, eles chamam outro elefante, e outro, e outro. Vamos aprendendo a contar e a não acreditar em impossíveis. Ficamos também recordados de que há sempre uma dose de imponderabilidade em tudo, incluindo na tarefa de ser pai, mãe, avó, avô, tio ou tia, cuidador... Escapa-nos sempre alguma coisa. Como é que dez elefantes conseguem saltar numa teia de aranha? Como é que eu me impeço de verificar de dez em dez minutos a respiração dela nos primeiros meses? A partir de que número de elefantes a teia de aranha começa a ceder? Será um dente a nascer? Ela disse pai ou disse pão? Se ela dormiu três noites sem acordar uma única vez isso quer dizer que ela vai dormir bem todas as noites a partir de agora? Será que os elefantes são imaginários? E a teia de aranha? E esta bebé, sera imaginária também?

 

Há também nesta música outra coisa: alguma inconsciência. Eles sabem que estão numa situação periclitante mas mesmo assim esticam a corda, neste caso a teia. E fazem-no alegremente. Quer se decida ser pai ou se seja pai por acaso, parece-me que há sempre um momento de apneia, como naqueles instantes precisamente antes de mergulhar. Sustém-se a respiração e arrisca-se. É só um mergulho. É só um mergulho, repito várias vezes.

 

Outro dia, a ler o Anna Karénina, deparei-me com um excerto que me fez lembrar este mergulho. Praticamente no último quarto do livro, Liovin é pai. Passou uma noite agonizante, sem saber como lidar com as dores de parto da mulher. O filho acaba por nascer, uma "criatura vermelha, estranha, com a cabeça a baloiçar e a esconder-se atrás das bordas do panal em que estava embrulhada" mas saudável e robusta. Ele olha-o pela primeira vez. O bebé, que se chamará Mitia, espirra. Tolstói escreveu: "Os seus sentimentos pela pequena criatura não eram os que tinha esperado. Não havia neles qualquer alegria, qualquer felicidade; pelo contrário, só medo, um medo novo, torturante. Era a consciência de mais uma área de vulnerabilidade. E esta consciência, nos primeiros tempos, era tão dolorosa, o medo por aquela criatura indefesa, o medo de ela sofrer era tão forte que a alegria sem sentido e até o orgulho quando a criança espirrou passaram despercebidos"

 

É só um mergulho.

 

A Suiça dentro de uma rulote

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Atrás de mim, uma paisagem suiça. Ou pelo menos aquilo que eu tinha como imagem mental da Suiça, moldada toscamente a partir do vi à minha frente um par de anos antes e daquilo que os familiares emigrados nos contavam quando apareciam, carregados com tabletes de chocolate, abraços e horas de viagem de carro às costas. A Suiça era um prado com uma montanha ao fundo. Uma vaca aqui e ali. Sem sinais de carros. Na Suiça as pessoas andavam, supunha. Lá ao fundo, uma montanha de cume branco, com neve de sorvete, e a passar rente à montanha aparecia um teleférico, que fugia à normalidade como uma indiscrição do Homem. Mas aquilo era a Suiça e talvez as vacas também andassem de teleférico. Eu não queria saber. Sabia que alguns primos viviam lá mas fazia sentido que não aparecessem neste retrato - nesta imagem da Suiça não cabiam suiços nem suiços emprestados. E atrás de mim, volto ao início, estava um prado amplo, ao fundo do qual irrompia a tal montanha de cume muito branco, duas vacas pasmadas com aquele relvado interminável e estrategicamente colocadas no canto inferior esquerdo do cenário. Aquilo era a Suiça. Mesmo que o tempo tivesse confiado aquela lona um tom amarelado, revelando uma alma outonal que eu reconhecia mais da minha própria rua. A Suiça era assim e eu estava a posar para uma fotografia como se fosse um menino suiço de seis anos. Lá fora, no exterior da rulote que parava à porta da escola, a Suiça era uma fileira de árvores altas, gigantes, um muro bem rente à nossa escola, uma casa arruinada mastigada pelas ervas e o Centro Paroquial, muito quieto, muito vazio, à espreita num canto. Fora da roulote era um miúdo português de seis anos.

 

Lembrei-me destes dias, que se repetiam, como as estações - com a tal rulote, que talvez fosse apenas uma carrinha, a chegar à nossa escola primária na data anunciada - porque recebi esta semana as primeiras fotografias de escola da minha filha. Está sentada num cenário colorido, rodeada daquelas peças e estruturas de espuma com que as creches e os jardins se recheiam para garantir que as crianças, nos seus desiquilíbrios de quem ainda mal aprendeu para que servem mesmo os pés, não se magoem. Aos pés, umas bolas coloridas. Não está a sorrir. 

 

Tenho a certeza de que se pegasse agora numa dessas fotografias tiradas à frente de uma paisagem falsa de uma Suiça de lona, eu estaria a sorrir. Era a isso que estava obrigado a partir do momento em que a professora avisava os meus pais de que num qualquer dia do próximo mês o fotógrafo ambulante ia passar pela escola. Era um dos eventos que talhava o nosso ano. Num nível equivalente recordo apenas a visita de uma trupe reduzida (marido baixinho e quase careca, mulher alta e de farta cabeleira loura, casal de caniches com um pêlo mais do que branco) que nos apresentava, também anualmente, um espectáculo de magia e variedades. O dia excepcional chegava. Começávamos por ser fotografados um a um. Sorriso aberto, exagerado, com a desfaçatez dos que sabem ter um sorriso com um ou vários dentes em falta. A Suiça sempre lá atrás. Depois juntávamo-nos uns aos outros para uma fotografia de grupo - sem suspeitar que, anos mais tarde, essa imagem ressuscitaria algures numa página de Facebook para nos recordar os nomes daqueles outros miúdos ao nosso lado. Uma estalada em forma de cápsula do tempo. Aprumados, asseados, compostos. Todos sorríamos o melhor que podíamos. 

 

A minha filha, no retrato em que congela os seus nove meses, não está a chorar. Mas também não está a sorrir. A boca está a inventar uma expressão que raramente lhe vimos. Parece surpreendida. Está aprumada e composta. Mas natural. O 'dia da fotografia' ainda não faz parte do livro de conceitos dela. E mesmo quando fizer, talvez seja apenas mais um dia. Muito provavelmente não vai recordá-lo desta forma. Com minutos de vida já conhecia a lente da câmara de um smartphone. Não vai conhecer a Suiça através de uma lona, porque já ninguém parece apreciar os benefícios medicinais de um cenário de fotógrafo. Dentro da rulote, quando me pediam para sorrir, inspirava e quase que conseguia sentir o cheiro daquele prado suiço.