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Longitudinal

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"Não leio jornais, não vejo televisão, não vale mesmo a pena"

Monólogo de um taxista aborrecido na véspera do dia 10 de Junho


"Eu não leio jornais, não vejo televisão, não vale mesmo a pena. Mas já falta pouco para toda a gente ficar a saber. (suspiro) Pensava que por aqui íamos mais depressa mas enganei-me. Eu não chamo a isto Festas de Lisboa. Chamo energia negativa. Qual festas qual quê? Isto de bicicleta é que era bom. Fazíamos exercício e não estávamos a poluir. As pessoas têm um bocado de dificuldade em acreditar nisso de que estou a falar. E acham que sou maluco. Ou teórico da conspiração! Vamos lá ver se me consigo explicar. Temos os Homocapensis. Estão escondidos no Vaticano, debaixo do chão. E quando andam pela rua andam de chapéu para ninguém suspeitar. Porque eles têm os crânios com um formato estranho. Aliás, as mitras que eles usam no Vaticano é mesmo para ninguém desconfiar. Religião e economia, é tudo controlado por eles. Uma jurista que trabalhava no Banco Mundial também falou deles... Depois há os Reptilianos e os Traidores da Nossa Raça, que são os da Maçonaria. A família real britânica é Reptiliana. E eles mataram a Princesa Diana. Porquê? Sei lá... Ela referia-se a eles como lagartos. A Princesa Diana sabia muita coisa... E eu ando aqui mas não ando a dormir. Nem nos médicos confio. Também são controlados pelos Homocapensis. (suspiro) Estou farto deste emprego. Eu agora ia bem era para jardineiro. Mas os Reptilianos também andam por lá, a podar árvores. Ia-me chatear."

 

Taxista #8

Avenida de Ceuta abaixo. "Já trabalhei no Porto de Lisboa, aí para esses lados de Alcântara". A Avenida de Ceuta continua. "Foi numa altura em que aquilo era mesmo perigoso. Não é como agora." A Avenida de Ceuta é incrivelmente longa. "Uma vez fui lá abaixo - isto já não foi em Alcântara, foi na zona onde agora é a Expo - ver os navios a pôr madeira. Nem queria acreditar como é que aqueles gajos estavam a tratar daquilo." Sabiam que a Federação Portuguesa de Sumo fica na Avenida de Ceuta? "Quando voltei à cafetaria estava lá o Barata, o responsável. 'Oh Barata, o que estão a fazer ali é um crime'". Há uns anos passava por aqui com os meus pais e só falávamos do Casal Ventoso. "Foi logo uma discussão pegada. Irritei-me. Fui-me embora". Mas as janelas ainda estão cheias de gradeamentos. "No dia a seguir disseram-me que tinha rebentado uma das cintas que estavam a usar para carregar as madeiras. Um colega meu ficou todo lixado." Mas já ninguém fala do Casal Ventoso. "Mas também nem sempre fui responsável. Fiz avarias do caraças..." As grades na janela ainda falam de alguma coisa? "Era perigo de morte todos os dias... O taxi também é perigoso." A Avenida de Ceuta acaba sem dar por isso. "Onde está o Homem... Como é que é mesmo? Onde está o Homem está o perigo, como dizem. Há muitos colegas meus que ficaram deficientes."

Taxista #7

 

Ainda ontem passei um cheque de cem euros à minha filha.

Ela já vive com o namorado. Ou melhor, já passa a maior parte das noites em casa do namorado - ele tem uma casa própria.

Já não tenho férias há cinco anos. Estou habituado a acordar todos os dias às seis e meia da manhã e vir para aqui. Estive emigrado em cinco países mas depois casei com a minha mulher e deixei-me ficar por aqui. Há trinta anos que ando de tanga.

Já eduquei e pus a educar uma filha. Já eduquei e pus a educar o meu filho - está a acabar o curso. Mas isto é uma merda... A vida é fodida.

Estava a dizer que ainda ontem passei um cheque de cem euros à minha filha. (Ela começou a trabalhar por conta própria mas às vezes ainda é complicado. Só a renda do sítio onde trabalha é de 300 euros) E mesmo assim são raros os dias em que não lhe passo uns doze euros e meio para a carteira.

Taxista #6

 

 

- Para a Avenida Afonso III, por favor.

- Então és meu vizinho... Eu moro na Rua David Lopes!

- Pois, não sei se é nessa zona.

 

 

- Tu não és muito falador, pois não?

 

 

Taxista #5

 

(As minhas viagens de táxi podem durar dez minutos ou meia hora, em alguns casos até menos tempo, mas são sempre viagens sem tempo. O silêncio sublinha, em algumas ocasiões, essa paralisação temporal. É estranho que duas pessoas, mesmo sendo desconhecidas, permaneçam caladas tanto tempo quando estão sozinhas e encerrados num espaço relativamente pequeno. Por vezes: o ruído do próprio carro; e dos outros carros lá fora, caminhando sempre em direcções opostas mesmo quando nos seguem ou os seguimos; uma música na rádio; outra música, pouco depois; a mensagem de um colega taxista. Mas acima de tudo o silêncio entre duas pessoas que não se conhecem mas que partilham entre si uma morada passageira dentro de um veículo de quatro rodas. A cidade passa, encaixada entre ruas, ruas e ruas, e nós passamos por ela. Tudo isto a propósito da minha última viagem de táxi - uma viagem completamente diferente, sem silêncios.)

 


"Nasci em Lisboa, cresci em Lisboa, mas não sei nada sobre ruas, nem bares, nem essas merdas."

 

O carro ainda não arrancou e já chegámos ao ponto máximo de sinceridade para um taxista. A conversa começou assim, sem qualquer indecisão, perto da Praça Luís de Camões. A viagem levou-nos até São Bento e Avenida de Roma e trouxe-nos de volta à casa de partida. Antes de chegar a São Bento, passámos pelas Caldas da Rainha, que o acolheu durante os anos de tropa, e pela Lagoa de Óbidos, onde comprou um lote que vendeu pouco depois para investir num Timeshare na Madeira (sim, também cruzámos o Atlântico). Quase a chegar à Avenida de Roma já tinha entrado em casa dele.

 

"Eu gosto de sossego mas a minha mulher é toda citadina. Vai arranjar o cabelo não sei onde. Pintar não sei o quê. Discutir com o padeiro. Com o merceeiro. Falam muito em envelhecer e ir viver para o campo, com uma horta, e essas merdas. Mas há uma altura na vida em que um gajo tem é de estar perto de um hospital. Todos os dias acordo de manhã e dói-me aqui, dói-me ali, dói-me o caraças..."

 

No regresso, a nostalgia apodera-se do táxi enquanto passamos pela casa de família, no Ladoeiro, perto de Idanha-a-Nova, difícil de manter mas impossível de largar. São as origens, sempre. E depois da nostalgia, o pessimismo.

 

"As coisas estão mal. Nós não sabemos como é que isto vai ser. Mas vocês estão fodidos... Ouve-se muita coisa sobre os jovens agricultores... Se fosse jovem acha que me punha a cavar? Ficas rico? Ficas rico, o caralho! Ficas é com as costas feitas em merda!"

 

Fim de conversa. Ponto final na viagem.

No meu novo bairro

 

O meu novo bairro não gosta de pombos mas os pombos gostam do meu novo bairro.

A Junta de Freguesia anuncia: "venha recolher a sua fita espanta-pombos". E eu vejo essas fitas prateadas a pender das janelas - imposição de um orgulho anti-columbófilo - e ao lado há quem use CDs. E exactamente ao lado, há uma senhora que abre a janela de rompante e lança uma enxurrada de migalhas de pão duro para cativar um bando de pombos - a furar a disciplina do meu novo bairro, que não é novo.

 

Taxista #3

 

António Zanguineto Rodrigues.

Taxista e vocalista em potência.

 

Numa viagem do Largo D. Estefânia até à Praça Luís de Camões murmurou os seguintes êxitos da música nacional e internacional:

 

- Lado Lunar, Rui Veloso [integralmente]

- Hot Stuff, Donna Summer [apenas o refrão]

- Uptown Girl, Billy Joel [integralmente]

- Dei-te quase tudo, Paulo Gonzo [interrompido pelo final da viagem]