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Longitudinal

Longitudinal

Mortos-vivos, tortura e guerras frias

Parecia pequena, como um cacto dentro de um vaso. Parecia um senhor, como se parecem os senhores que usam casacos de cabedal. Parecia quieta, como os quietos. Estava num táxi como quem está num sofá. Falava de mortos-vivos como quem fala de familiares. Repetia que os zombies eram lixados e insistentes, como zombies. Descobria-os todos os dias num ecrã de computador. Dizia que eu tinha de ir lá vê-los, ao "Day Z". Falava desse jogo, que se passava num cenário pós-apocalíptico, como se no exterior do táxi tudo estivesse bem. Jogava com portugueses, franceses, americanos, russos, chineses... Dizia que os americanos são convencidos. Manhosos.

 

Juntou-se aos russos. Contou-me que um dia algemou um americano. Nesse dia chegaram os russos e perguntaram-lhe de onde é que tinha saído aquele prisioneiro. Disse-lhes que era um americano. Eles disseram "Ai é?" E depois do "Ai é?" disseram que o iam torturar. "Ai não vão nada", respondeu. "Vamos pô-lo na cadeia", disse-lhes. "E depois logo se vê".

 

"Não leio jornais, não vejo televisão, não vale mesmo a pena"

Monólogo de um taxista aborrecido na véspera do dia 10 de Junho


"Eu não leio jornais, não vejo televisão, não vale mesmo a pena. Mas já falta pouco para toda a gente ficar a saber. (suspiro) Pensava que por aqui íamos mais depressa mas enganei-me. Eu não chamo a isto Festas de Lisboa. Chamo energia negativa. Qual festas qual quê? Isto de bicicleta é que era bom. Fazíamos exercício e não estávamos a poluir. As pessoas têm um bocado de dificuldade em acreditar nisso de que estou a falar. E acham que sou maluco. Ou teórico da conspiração! Vamos lá ver se me consigo explicar. Temos os Homocapensis. Estão escondidos no Vaticano, debaixo do chão. E quando andam pela rua andam de chapéu para ninguém suspeitar. Porque eles têm os crânios com um formato estranho. Aliás, as mitras que eles usam no Vaticano é mesmo para ninguém desconfiar. Religião e economia, é tudo controlado por eles. Uma jurista que trabalhava no Banco Mundial também falou deles... Depois há os Reptilianos e os Traidores da Nossa Raça, que são os da Maçonaria. A família real britânica é Reptiliana. E eles mataram a Princesa Diana. Porquê? Sei lá... Ela referia-se a eles como lagartos. A Princesa Diana sabia muita coisa... E eu ando aqui mas não ando a dormir. Nem nos médicos confio. Também são controlados pelos Homocapensis. (suspiro) Estou farto deste emprego. Eu agora ia bem era para jardineiro. Mas os Reptilianos também andam por lá, a podar árvores. Ia-me chatear."

 

Taxista #9

Ir para a Suiça trabalhar e receber mil e duzentos euros, o mesmo que eu ganho aqui no táxi? Ainda bem que fiquei por cá. Há dias tive aqui no táxi uma senhora que está na Suiça e disse que aquilo está mal, tão mal quanto aqui. Agora pense, se tenho que comer, dormir, vestir, calçar, gastar mais algum quando estou de folga, quer dizer, para meter cá em Portugal uns trezentos ou quatrocentos limpos mais vale não sair daqui, por que isto agora já não é como antigamente. Ia ganhar mil e duzentos euros, eu aqui ganho mil e duzentos euros com o táxi.

 

Na altura estava desempregado, depois de largar o restaurante onde estive trinta anos. Ficava em Camarate, onde morreu o Sá Carneiro, e já nessa altura estava a trabalhar nesse restaurante. No início estava só a minha mulher, eu trabalhava por fora na construção civil, até ela me dizer "ah, preciso de alguém que me vá às compras, que saiba fazer as compras...", e eu fui para ao pé dela, depois de despedirmos um empregado que estava lá a roubar-nos. Durante trinta anos não tivemos férias, isto é verdade, não é treta. "Vamos tirar oito dias de férias, ou quinze, e vamos a algum lado..." Nada, impossível, é preciso pagar os impostos, o guarda-livros, a luz, o gás, aquela porcaria toda, os empregados, os subsídios de férias, os subsídios de Natal. Tinha um fim-de-semana na Páscoa, mais o dia de Natal, o de Ano Novo... De vez em quando um dia a mais... Mas também era assim, uma pessoa não descansa, uma pessoa vai sair, vamos até, imagine, Fátima... uma pessoa está farta de trabalhar depois mete-se no carro e vai conduzir 300 quilómetros, conduzir é trabalhar, é cansativo, e depois eu pensava "isto é que é o meu dia de folga?", pegar no carro de manhã, chegar a casa à noite, dormir e depois ir trabalhar logo de manhã?" Mais vale não fechar, não é verdade? Estou de folga? Pois... Vai para aqui vai para acolá! Não vale a pena, então mais vale ficar em casa. Dormimos, levantamo-nos, vamos comer fora, voltamos, dormimos...

 

O nosso café até era bonito. Mas já conhecíamos as pessoas todas, e depois elas abusavam. A gente fala, fala, fala mas o mal também é esse. Como têm conhecimentos, é já aquela... tipo um dia como o de hoje, Braga contra Benfica. Embebedavam-se, e porquê? Já havia aquela confiança, os miúdos iam lá pedir chupa-chupas, pastilhas e os pais que pagassem, depois passavam os anos, começavam a fumar, iam lá comprar tabaco em vez de doces. Eu tive lá gajos que me ficaram a dever seicentos, setecentos euros, tenho lá em casa uma agenda com as dívidas todas. Há dias pus-me a somar aquilo tudo, ainda foram quatro mil e quinhentos euros ao ar. Nunca os vou receber, impossível... Algumas pessoas ainda as vejo e nem lhes falo na dívida, ia-me chatear e nem vale a pena, como dizia a minha mãe: começava-se a chover no molhado.

 

Eu por acaso tive um rapaz que nunca pensei que ele fizesse isso, era aquele gajo que nunca pensei que me fizesse isso... Foi a minha casa trazer-me o dinheiro e era o gajo mais alcoólico que eu tinha naquela casa. Ele nao era bêbedo, ele andava sempre bêbedo, era segurança e tudo, e foi despedido por causa disso. Ficou-me a dever cento e vinte cinco euros, um dia vou ao café da frente e lá está o gajo, "morreu o meu pai, vamos para a terra, para a Sertã, vamos viver para casa da minha avó, sei que te estou a dever cento e vinte cinco euros". E eu disse "paga só cento e vinte e com o resto pagas uma cerveja aqui ao pessoal", cum caraças, o gajo mais maluco e mais bêbedo e foi o único que me veio pagar. Isto a vida é do caraças.

 

 

Taxista #8

Avenida de Ceuta abaixo. "Já trabalhei no Porto de Lisboa, aí para esses lados de Alcântara". A Avenida de Ceuta continua. "Foi numa altura em que aquilo era mesmo perigoso. Não é como agora." A Avenida de Ceuta é incrivelmente longa. "Uma vez fui lá abaixo - isto já não foi em Alcântara, foi na zona onde agora é a Expo - ver os navios a pôr madeira. Nem queria acreditar como é que aqueles gajos estavam a tratar daquilo." Sabiam que a Federação Portuguesa de Sumo fica na Avenida de Ceuta? "Quando voltei à cafetaria estava lá o Barata, o responsável. 'Oh Barata, o que estão a fazer ali é um crime'". Há uns anos passava por aqui com os meus pais e só falávamos do Casal Ventoso. "Foi logo uma discussão pegada. Irritei-me. Fui-me embora". Mas as janelas ainda estão cheias de gradeamentos. "No dia a seguir disseram-me que tinha rebentado uma das cintas que estavam a usar para carregar as madeiras. Um colega meu ficou todo lixado." Mas já ninguém fala do Casal Ventoso. "Mas também nem sempre fui responsável. Fiz avarias do caraças..." As grades na janela ainda falam de alguma coisa? "Era perigo de morte todos os dias... O taxi também é perigoso." A Avenida de Ceuta acaba sem dar por isso. "Onde está o Homem... Como é que é mesmo? Onde está o Homem está o perigo, como dizem. Há muitos colegas meus que ficaram deficientes."

Taxista #7

 

Ainda ontem passei um cheque de cem euros à minha filha.

Ela já vive com o namorado. Ou melhor, já passa a maior parte das noites em casa do namorado - ele tem uma casa própria.

Já não tenho férias há cinco anos. Estou habituado a acordar todos os dias às seis e meia da manhã e vir para aqui. Estive emigrado em cinco países mas depois casei com a minha mulher e deixei-me ficar por aqui. Há trinta anos que ando de tanga.

Já eduquei e pus a educar uma filha. Já eduquei e pus a educar o meu filho - está a acabar o curso. Mas isto é uma merda... A vida é fodida.

Estava a dizer que ainda ontem passei um cheque de cem euros à minha filha. (Ela começou a trabalhar por conta própria mas às vezes ainda é complicado. Só a renda do sítio onde trabalha é de 300 euros) E mesmo assim são raros os dias em que não lhe passo uns doze euros e meio para a carteira.

Taxista #6

 

 

- Para a Avenida Afonso III, por favor.

- Então és meu vizinho... Eu moro na Rua David Lopes!

- Pois, não sei se é nessa zona.

 

 

- Tu não és muito falador, pois não?

 

 

Taxista #5

 

(As minhas viagens de táxi podem durar dez minutos ou meia hora, em alguns casos até menos tempo, mas são sempre viagens sem tempo. O silêncio sublinha, em algumas ocasiões, essa paralisação temporal. É estranho que duas pessoas, mesmo sendo desconhecidas, permaneçam caladas tanto tempo quando estão sozinhas e encerrados num espaço relativamente pequeno. Por vezes: o ruído do próprio carro; e dos outros carros lá fora, caminhando sempre em direcções opostas mesmo quando nos seguem ou os seguimos; uma música na rádio; outra música, pouco depois; a mensagem de um colega taxista. Mas acima de tudo o silêncio entre duas pessoas que não se conhecem mas que partilham entre si uma morada passageira dentro de um veículo de quatro rodas. A cidade passa, encaixada entre ruas, ruas e ruas, e nós passamos por ela. Tudo isto a propósito da minha última viagem de táxi - uma viagem completamente diferente, sem silêncios.)

 


"Nasci em Lisboa, cresci em Lisboa, mas não sei nada sobre ruas, nem bares, nem essas merdas."

 

O carro ainda não arrancou e já chegámos ao ponto máximo de sinceridade para um taxista. A conversa começou assim, sem qualquer indecisão, perto da Praça Luís de Camões. A viagem levou-nos até São Bento e Avenida de Roma e trouxe-nos de volta à casa de partida. Antes de chegar a São Bento, passámos pelas Caldas da Rainha, que o acolheu durante os anos de tropa, e pela Lagoa de Óbidos, onde comprou um lote que vendeu pouco depois para investir num Timeshare na Madeira (sim, também cruzámos o Atlântico). Quase a chegar à Avenida de Roma já tinha entrado em casa dele.

 

"Eu gosto de sossego mas a minha mulher é toda citadina. Vai arranjar o cabelo não sei onde. Pintar não sei o quê. Discutir com o padeiro. Com o merceeiro. Falam muito em envelhecer e ir viver para o campo, com uma horta, e essas merdas. Mas há uma altura na vida em que um gajo tem é de estar perto de um hospital. Todos os dias acordo de manhã e dói-me aqui, dói-me ali, dói-me o caraças..."

 

No regresso, a nostalgia apodera-se do táxi enquanto passamos pela casa de família, no Ladoeiro, perto de Idanha-a-Nova, difícil de manter mas impossível de largar. São as origens, sempre. E depois da nostalgia, o pessimismo.

 

"As coisas estão mal. Nós não sabemos como é que isto vai ser. Mas vocês estão fodidos... Ouve-se muita coisa sobre os jovens agricultores... Se fosse jovem acha que me punha a cavar? Ficas rico? Ficas rico, o caralho! Ficas é com as costas feitas em merda!"

 

Fim de conversa. Ponto final na viagem.

Taxista #4

 

O Edgar não acredita em coincidências, ele sabe que elas existem. Cruza-se com elas todos os dias no táxi. 

 

Um dia transportou um homem no banco de trás e falaram de tudo. Acabaram na absoluta admiração que tem por Carlos do Carmo (fala dele como se fosse o fã número um), "o mais culto dos músicos portugueses". No final da viagem percebeu que o homem no banco de trás era o filho do fadista.

 

Esteve no Ultramar quatro anos e ao lado dele esteve sempre Serafim Santos. Nunca mais se viram desde aí mas as histórias partilhadas com o companheiro de tropa foram tantas vezes repetidas que acabaram por contaminar o resto da família. Há uns anos a filha do Edgar abriu uma mercearia em Castelo Branco (será Covilhã?). Um cliente entrou, certo dia, pelas portas da loja e com o desenrolar de histórias, ela percebeu que tinha acabado de encontrar o colega do pai. No dia seguinte, o Edgar liga-lhe. Resmunga com o amigo reencontrado, como provavelmente fazia no passado. Serafim acaba a chorar do outro lado do telefone.

(Não sei se o Edgar se emocionou também mas acredito que sim. Quando era novo reclamava com a mãe por chorar pela mais pequena coisa - "no dia do meu casamento chorou como se fosse o meu funeral" - mas agora reconhece que nos últimos anos perdeu o controlo sobre si mesmo quando, sem aviso, os olhos cedem à comoção).

 

Há uns anos, à saída de uma casa de fados, apanhou duas turistas brasileiras. No auto-rádio, o Edgar estava a ouvir o concerto com Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Toquinho e Miucha, gravado no Canecão em 1977. Uma delas perguntou-lhe se sabia o que estava a tocar na rádio. "Claro que sim". Tinha sido o próprio Edgar a escolher aquele álbum. Ela começou a chorar, algures entre a "Tarde em Itapuã" ou a "Chega de Saudade". Em 1977 tinha estado no Canecão com o marido, falecido uns anos antes daquela viagem de taxi.

 

"O mundo é do tamanho de uma ervilha". É por isso que, 40 anos depois de ter andado na 2ª classe, o Edgar descobriu, entre as páginas de uma revista, que a sua jovem professora acabou por se tornar a mãe do treinador mais célebre do mundo, José Mourinho.

 

Taxista #3

 

António Zanguineto Rodrigues.

Taxista e vocalista em potência.

 

Numa viagem do Largo D. Estefânia até à Praça Luís de Camões murmurou os seguintes êxitos da música nacional e internacional:

 

- Lado Lunar, Rui Veloso [integralmente]

- Hot Stuff, Donna Summer [apenas o refrão]

- Uptown Girl, Billy Joel [integralmente]

- Dei-te quase tudo, Paulo Gonzo [interrompido pelo final da viagem]

 

 

 

Taxista #2

 

Há umas semanas, num dia de greve.

 

"Sabe, eu sou um amante de cinema. Até já fui a Hollywood"

Uma viagem de sonho, desde os tempos em que ia ao Condes, ao cinema, e as cadeiras estavam todas cheias.

"Fui ao passeio da Fama e tudo, onde estão as mãos e os pés dos actores. O meu pé é igual ao do Indiana Jones..."

Mas voltou desiludido.

"Uma desilusão dos diabos".

Demasiada confusão, muita gente, muitos indianos e chineses, muitas lojas de tatoos. Eu fui a Beverly Hills também, fiz a tour pelas casas dos actores. São casas impensáveis, enormes."

Um 'amante de cinema' desiludido.

"Não me senti lá bem. Senti-me europeu. Mas é um país de oportunidades para quem tiver a sorte de ser bom numa arte. Ou mecânico, estofador, alfaiate. Tem sorte. Há trabalho que se farta."

Não basta calçar o mesmo que o Harrison Ford.