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Longitudinal

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Taxista #9

Ir para a Suiça trabalhar e receber mil e duzentos euros, o mesmo que eu ganho aqui no táxi? Ainda bem que fiquei por cá. Há dias tive aqui no táxi uma senhora que está na Suiça e disse que aquilo está mal, tão mal quanto aqui. Agora pense, se tenho que comer, dormir, vestir, calçar, gastar mais algum quando estou de folga, quer dizer, para meter cá em Portugal uns trezentos ou quatrocentos limpos mais vale não sair daqui, por que isto agora já não é como antigamente. Ia ganhar mil e duzentos euros, eu aqui ganho mil e duzentos euros com o táxi.

 

Na altura estava desempregado, depois de largar o restaurante onde estive trinta anos. Ficava em Camarate, onde morreu o Sá Carneiro, e já nessa altura estava a trabalhar nesse restaurante. No início estava só a minha mulher, eu trabalhava por fora na construção civil, até ela me dizer "ah, preciso de alguém que me vá às compras, que saiba fazer as compras...", e eu fui para ao pé dela, depois de despedirmos um empregado que estava lá a roubar-nos. Durante trinta anos não tivemos férias, isto é verdade, não é treta. "Vamos tirar oito dias de férias, ou quinze, e vamos a algum lado..." Nada, impossível, é preciso pagar os impostos, o guarda-livros, a luz, o gás, aquela porcaria toda, os empregados, os subsídios de férias, os subsídios de Natal. Tinha um fim-de-semana na Páscoa, mais o dia de Natal, o de Ano Novo... De vez em quando um dia a mais... Mas também era assim, uma pessoa não descansa, uma pessoa vai sair, vamos até, imagine, Fátima... uma pessoa está farta de trabalhar depois mete-se no carro e vai conduzir 300 quilómetros, conduzir é trabalhar, é cansativo, e depois eu pensava "isto é que é o meu dia de folga?", pegar no carro de manhã, chegar a casa à noite, dormir e depois ir trabalhar logo de manhã?" Mais vale não fechar, não é verdade? Estou de folga? Pois... Vai para aqui vai para acolá! Não vale a pena, então mais vale ficar em casa. Dormimos, levantamo-nos, vamos comer fora, voltamos, dormimos...

 

O nosso café até era bonito. Mas já conhecíamos as pessoas todas, e depois elas abusavam. A gente fala, fala, fala mas o mal também é esse. Como têm conhecimentos, é já aquela... tipo um dia como o de hoje, Braga contra Benfica. Embebedavam-se, e porquê? Já havia aquela confiança, os miúdos iam lá pedir chupa-chupas, pastilhas e os pais que pagassem, depois passavam os anos, começavam a fumar, iam lá comprar tabaco em vez de doces. Eu tive lá gajos que me ficaram a dever seicentos, setecentos euros, tenho lá em casa uma agenda com as dívidas todas. Há dias pus-me a somar aquilo tudo, ainda foram quatro mil e quinhentos euros ao ar. Nunca os vou receber, impossível... Algumas pessoas ainda as vejo e nem lhes falo na dívida, ia-me chatear e nem vale a pena, como dizia a minha mãe: começava-se a chover no molhado.

 

Eu por acaso tive um rapaz que nunca pensei que ele fizesse isso, era aquele gajo que nunca pensei que me fizesse isso... Foi a minha casa trazer-me o dinheiro e era o gajo mais alcoólico que eu tinha naquela casa. Ele nao era bêbedo, ele andava sempre bêbedo, era segurança e tudo, e foi despedido por causa disso. Ficou-me a dever cento e vinte cinco euros, um dia vou ao café da frente e lá está o gajo, "morreu o meu pai, vamos para a terra, para a Sertã, vamos viver para casa da minha avó, sei que te estou a dever cento e vinte cinco euros". E eu disse "paga só cento e vinte e com o resto pagas uma cerveja aqui ao pessoal", cum caraças, o gajo mais maluco e mais bêbedo e foi o único que me veio pagar. Isto a vida é do caraças.