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Longitudinal

Vamos lá ver se consigo explicar isto bem

Outubro 11, 2021

Claude_Monet_-_The_Houses_of_Parliament,_Sunset.jp

(The Houses of Parliament, Sunset, Claude Monet) 

Vamos lá ver se consigo explicar isto bem. Das traseiras da minha casa vejo prédios. De vez em quando, umas pessoas à janela, mas sobretudo prédios. Se abrir a janela da cozinha de par em par, vejo à minha esquerda a empena de um prédio que avança uns bons cinco metros para além do meu. É uma parede robusta, que reconhece a sua idade, na qual gostaria de ver desenhada alguma coisa. Se olhar em frente vejo duas filas de telhados, com telhas mais ou menos alaranjadas, mais ou menos enegrecidas, de acordo com a altura em que foram colocadas. Mais a frente, vejo três prédios mais altos, que cortam o horizonte. São eles próprios a linha do horizonte. Um é cor de rosa, o maior. Os outros dois já devem ter sido amarelos há muitos anos. Há outros prédios em frente depois desse mar triangular de telhados. Mas aquilo que me prende o olhar é o topo de um prédio mais alto, a uns bons 300 metros de distância. Dele apenas vejo uma especie de chaminé. Umas telhas pequenas, porque distantes. E ventiladores, daqueles simulacros de bola de espelhos que tornam telhados numa pista de dança vazia enquanto há Sol. No Verão, pelas 20h30, todos os prédios ao redor da minha casa descobrem-se pequenos de mais para se esticarem rumo à luz apaziguadora do final da tarde. Mas o topo desse outro prédio permanece ainda dourado durante uns minutos. Fico a olhá-lo, minuto a minuto, detido nesse eclipse vagaroso até os ventiladores perderem o seu cintilar. Faz-se noite no meu bairro.

 

Para que lado se estica a corda agora?

Agosto 31, 2021

Screenshot_20201011_134522.jpg

Quando nascemos, os nossos avós já são velhos. A sua longevidade é como um seguro de vida, um mistério reconfortante para quem ainda está a aprender a distinguir o dia de ontem do dia que está para chegar. À medida que crescemos, percebemos que afinal não eram assim tão velhos quanto julgávamos. Vão desafiando o tempo, esticando pequenos fios de cabelo até ficarem completamente brancos. Ficam cada vez mais velhos para que descubramos que eles já foram cada vez mais novos. Esticam a corda e equilibram-se sobre ela, dilatando um horizonte que julgávamos finito. Quem diria que os avós seriam os mais geniais funambulistas...
 
A minha avó materna viveu mais de nove décadas. Nasceu em 1929, renasceu umas quantas vezes ao longo da vida. Sobretudo quando foi obrigada a isso: viúva com duas filhas pequenas, a começar no primeiro trabalho da sua vida aos trinta e poucos anos. Trabalhou até aos 76 anos e depois disso teve de renascer para não se pasmar com a vida. Puxou a corda durante anos, puxou-a bem longe. Começou cedo, quando era miúda. No caminho de casa para a escola, e no regresso, combinava com a empregada que a deixasse andar uns metros à frente dela, para escapar por instantes ao apertado controlo parental. Duas vezes por dia, sentia-se mais livre. Os avós esticam a corda desde cedo, mesmo antes de saberem que um dia vão ser avós.
 
Vivi com ela durante sete anos. Nos primeiros tempos, pude testemunhar o frenesim das manhãs. Acordava frequentemente com a voz dela a gritar impropérios contra um tacho que teimava em esconder-se no armário. Encaixava uma rotina abundante nas poucas horas que tinha antes de seguir para o trabalho mesmo que tivesse de devorar o almoço em três garfadas para o conseguir. Quando eu me levantava, já ela estava a dilatar o tempo. Por isso, havia sempre uns minutos para parar na marquise, de rostos banhados pelo sol matinal. De vez em quando, dançávamos com a telefonia aos berros. "Lembras-te quem te ensinou a dancar?", perguntava-me. Foi ela. Há quase dez anos, no jantar do dia do 83.º aniversário, disse-nos que aquele tinha sido um dos dias mais felizes da vida dela. Era uma sexta-feira, o final de uma semana repleta de eventos na Academia Sénior da Junta de Freguesia, que culminou num baile com música popular. "Até senti uma alegria dentro de mim", confessou. Conseguem sentir quão longe pode a corda esticar?
 
Quando nasci, conheci duas avós. Nem o meu avô materno, nem o paterno conseguiram esticar a corda o tempo suficiente para que os conhecesse. A minha avó paterna morreu aos setenta e seis anos, quando eu tinha dez. A minha avó materna morreu ontem aos noventa e dois anos, pouco dias antes de eu chegar aos 35. Não tenho avôs nem avós. Para que lado se estica a corda agora? A ordem natural das coisas deixa-nos desiquilibrados.

 

Longa e breve exposição

Agosto 24, 2021

 

Foto de longa exposição

 

vinhas do mar

espuma tíbias séculos

ou o teu corpo acostado ao pino do Verão

na praia da Amoreira, por exemplo

 

água rochedo snapshot

vinhas muito do mar

 

acelero o pensamento até uma noite

de Junho influenciando o passado - altíssimo

bairro a uma segunda-feira

 

                    para depois

dormirmos numa pensão em Coimbra

cigarros à janela

vista para a Cabra

 

partamos para Sul como num slogan

o Sol a marca do biquíni um indício de mar

roubarei de novo o carro aos pais 

para ouvir outra vez o estrépito ameno do 

teu gozo

 

 

Foto de breve exposição

 

repartimos a regueifa de Pardilhó com as formigas de Odeceixe

 

(Estojo, Miguel-Manso, 2020)

Monsanto, seis e meia da manhã

Julho 28, 2021

IMG_20210725_063859.jpg

Aguardava o nascer do Sol. No entanto os pássaros chilreavam há muito e da cidade já se ouviam os seus ruídos habituais, aqueles que nos garantem que ela já acordou - ou melhor, que nunca chegou a adormecer. O comboio a forçar os carris na sua jornada, os motores dos carros aqui e ali. Um silvo metálico cuja origem ficou por identificar. Um avião que cortou a paisagem, precisamente no local para onde os olhos, expectantes, apontavam na esperança de ver uma nesga do nascer do Sol.

Ele aguardava o nascer do Sol. No entanto, os pássaros continuavam a embalá-lo numa espécie de canto que pressagiava qualquer coisa de inicial. Se por aqui galos houvesse, eles ja teriam cantado. É uma afirmação, nao é uma interrogação. No entanto as plantas, as árvores - as pedras também - pareciam dormir ainda. Talvez fossem como a cidade, que nunca dorme. Ou melhor, que dorme quando adormecemos, e partilha connosco noites de insónia, tal como os melhores animais de estimação o fazem.

Naquela manhã de Julho... Já seria manhã? Ou ainda era madrugada? Agora são mesmo interrogações. Naquela manhã nebulosa de Julho, ele aguardava o nascer do Sol. No entanto, a luz já era total. Talvez o Sol tivesse nascido nas suas costas, enquanto tudo o resto acordava.

 

(escrito no Miradouro do Moinho das Três Cruzes, na floresta de Monsanto, durante o encontro Caminhar e Escrever - Ao Nascer do Sol, organizado pela Escrever Escrever)

 

Ganhar consciência é sair do ovo para a cadeira?

Julho 18, 2021

- O que são aquelas tendas?

Atravessávamos todos os dias aquele viaduto sobre os carris que permitem o leva e traz à estação de Santa Apolónia. Continuamos a atravessá-lo todos os dias, mas isto aconteceu há uns anos, quando a Salomé trocou de cadeira no carro e passou a estar menos enterrada no seu lugar. Os olhos dela passaram a inventariar outras coisas para além do céu azul, das nuvens, do céu azul com nuvens, do céu cinzento de nuvens, dos pingos de chuva a baterem no vidro, dos postes de iluminação em fila uns atrás dos outros.

- O que são aquelas tendas, pai?

Atravessámos tantas vezes aquele viaduto. Não havia como escapar-lhe no caminho de casa para a creche e da creche para casa. Aquelas tendas sempre estiveram lá, camufladas entre pilares grossos, uma terra de ninguém sobrelotada, a sombra da sombra da sombra da cidade em marcha. Expliquei-lhe que havia quem dormisse ali, por não ter casa. Aguardei mais perguntas, mas elas surgiram apenas alguns dias mais tarde. Em vez disso, enquanto avançávamos naquele dia, a Salomé fixou o olhar nas tendas verdes a partir do seu recém-estreado miradouro no banco de trás do carro. Na altura pensei: ganhar consciência é sair do ovo para a cadeira.

*

Quando era miúdo e vinha a Lisboa visitar a minha avó aos fins-de-semana, passava sempre por um café de bairro (que obviamente já não existe, porque isto aconteceu num tempo em que qualquer loja de bairro não precisava de ter a palavra bairro escrita à frente do nome para que o identificássemos como tal). Mesmo à porta desse café, alguém tinha colado uma moeda no chão de calçada portuguesa, bem posicionada para que os residentes habituais da esplanada pudessem assistir em primeira mão à emboscada. As pessoas caminhavam distraídas pela Rua D. Estefânia, aquelas que iam de olhos no chão, e estacavam mesmo ali à frente. Baixavam-se como quem não quer a coisa e tentavam apanhar a moeda, às vezes demorando a entender que ela nunca iria sair dali. Muitas vezes, nem reparavam nos risos dos clientes habituais do café, sentados na esplanada como se estivessem na primeira fila de um espectáculo. Quando reparavam, já era demasiado tarde. Tinham sido apanhados e aí o público perdia a vergonha e ria sem pruridos. Também eu fui apanhado. Também acreditei que andar de olhos pregados no chão me iria valer uma moeda de duzentos escudos. Também eu levei calduços na escola por caminhar de cabeça baixa, olhos perdidos no chão - ou talvez fosse de cabeça baixa precisamente por saber que iria apanhá-los e talvez se não os visse a sensação de dor fosse menos evidente. Na altura pensei: olhar para baixo é uma cilada.

*

Há uns meses, a Salomé pediu-nos para ir andar de trotineta "naquele sítio com círculos, rectângulos e quadrados". Tentámos responder ao pedido, lançámos várias hipóteses sem sucesso. Falávamos de parques, mas ela respondia-nos com um sítio de chão rosa e com o dedo desenhava no ar as formas geométricas que lá havia. Após algumas tentativas, desistimos e seguimos para o Campo das Cebolas, porque era amplo e já não íamos lá há algum tempo. Quando chegámos, olhei para o chão. Foi isto que vimos:

2021-03-01-120317395.jpg

Ali estava o chão rosado, com círculos, rectângulos e até semi-círculos de vários tamanhos, que ficou gravado na memória da Salomé embora não na minha. Provavelmente porque comecei a resistir a prender o meu olhar no chão, por estar preso aquele juízo que dá por certo que quem olha para baixo são os tolos, os desalentados, o Charlie Brown. Na altura pensei: olhar para baixo pode ser bom, no fim de contas, para ver onde ponho os pés, por exemplo.

 

Promessa de que o mundo nos espera se formos

Maio 26, 2021

rothko.jpg

No. 6 (Yellow, White, Blue over Yellow on Gray)

 

"Da janela do quarto onde cresci, e onde portanto comecei a ouvir Caetano, eu via o Tejo da altura de um oitavo andar, com os navios passando ao fundo, veleiros, cargueiros, porque ali o rio vai largo, e em muitos dias não se vê outra margem, parece o mar. Então, essa é a minha primeira imagem-ideia de partida, o sonho daqueles barcos no fio do horizonte, promessa de que o mundo nos espera se formos, esse mundo, que nunca acaba de se revelar, tal como o horizonte nunca acabará se por ele avançarmos, sempre rumo aos antípodas. Pela simples razão de que a Terra é redonda, tal como a estupidez é plana."

(Cinco Voltas na Bahia e um Beijo para Caetano Veloso, Alexandra Lucas Coelho, 2019)

 

Quando formos livres

Março 01, 2021

"Ela sempre recusara a ideia de que os filhos pudessem ser um entrave ao seu êxito, à sua liberdade. Como uma âncora que nos puxa para o fundo, que arrasta o rosto afogado pela lama. A princípio, essa tomada de consciência fê-la mergulhar numa profunda tristeza. Achava isso injusto, terrivelmente frustrante. Percebeu que nunca mais poderia viver sem ter a sensação de estar incompleta, de fazer mal as coisas, de sacrificar uma parte da sua vida em prol de outrem. Tinha feito um drama, recusando-se a renunciar ao sonho da maternidade ideal. Teimando em pensar que tudo era possível, que alcançaria os seus objectivos, que não ficaria nem amarga, nem esgotada. Que não faria nem de mártir, nem de Mãe Coragem.

Todos os dias, ou quase, Myriam recebe notificações da sua amiga Emma, que publica nas redes sociais retratos em tom sépia dos seus dois filhos louros. Crianças perfeitas que brincam num parque infantil e que Emma matriculou numa escola que desenvolverá os dons que ela já adivinha neles, em tão tenra idade. Deu-lhes nomes impronunciáveis, provenientes da mitologia nórdica e cujo significao adora explicar. Nessas fotografias, também Emma é uma figura linda. Quanto ao marido, nunca aparece, eternamente confinado ao papel de fotografar uma família ideal à qual só pertence como espectador. E, no entanto, ele esforça-se por encaixar no molde: usa barba, camisolas de lã natural, vai trabalhar de calças justas e desconfortáveis.

Myriam jamais se atreveria a confiar a Emma o pensamento fugaz que a atravessa, a ideia, que não é cruel, mas vergonhosa, que a perpassa ao observar Louise com os seus filhos. Só seremos felizes, diz ela para si própria, quando não precisarmos uns dos outros. Quando pudermos viver uma vida nossa, uma vida que nos pertença, que não diga respeito aos outros. Quando formos livres."

 

(Canção Doce, Leïla Slimani, 2016)

 

Cada passo que não deram ainda

Fevereiro 23, 2021

Os pés

 

Que feios são os pés de toda a gente,

excepto os das minhas filhas. Que lindos

são os pés das meninas. As bochechas

redondas e cor-de-rosa dos anjos

invejam-lhes os calcanhares, e os dedos,

vistos a partir da planta, minúsculos,

têm a suavidade das ervilhas.

Ainda estão por estrear. E comove-me

pensar em cada passo que não deram ainda.

 

(Conta-mo outra vez, Amalia Bautista, 2020)

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