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Longitudinal

Monsanto, seis e meia da manhã

Julho 28, 2021

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Aguardava o nascer do Sol. No entanto os pássaros chilreavam há muito e da cidade já se ouviam os seus ruídos habituais, aqueles que nos garantem que ela já acordou - ou melhor, que nunca chegou a adormecer. O comboio a forçar os carris na sua jornada, os motores dos carros aqui e ali. Um silvo metálico cuja origem ficou por identificar. Um avião que cortou a paisagem, precisamente no local para onde os olhos, expectantes, apontavam na esperança de ver uma nesga do nascer do Sol.

Ele aguardava o nascer do Sol. No entanto, os pássaros continuavam a embalá-lo numa espécie de canto que pressagiava qualquer coisa de inicial. Se por aqui galos houvesse, eles ja teriam cantado. É uma afirmação, nao é uma interrogação. No entanto as plantas, as árvores - as pedras também - pareciam dormir ainda. Talvez fossem como a cidade, que nunca dorme. Ou melhor, que dorme quando adormecemos, e partilha connosco noites de insónia, tal como os melhores animais de estimação o fazem.

Naquela manhã de Julho... Já seria manhã? Ou ainda era madrugada? Agora são mesmo interrogações. Naquela manhã nebulosa de Julho, ele aguardava o nascer do Sol. No entanto, a luz já era total. Talvez o Sol tivesse nascido nas suas costas, enquanto tudo o resto acordava.

 

(escrito no Miradouro do Moinho das Três Cruzes, na floresta de Monsanto, durante o encontro Caminhar e Escrever - Ao Nascer do Sol, organizado pela Escrever Escrever)

 

Ganhar consciência é sair do ovo para a cadeira?

Julho 18, 2021

- O que são aquelas tendas?

Atravessávamos todos os dias aquele viaduto sobre os carris que permitem o leva e traz à estação de Santa Apolónia. Continuamos a atravessá-lo todos os dias, mas isto aconteceu há uns anos, quando a Salomé trocou de cadeira no carro e passou a estar menos enterrada no seu lugar. Os olhos dela passaram a inventariar outras coisas para além do céu azul, das nuvens, do céu azul com nuvens, do céu cinzento de nuvens, dos pingos de chuva a baterem no vidro, dos postes de iluminação em fila uns atrás dos outros.

- O que são aquelas tendas, pai?

Atravessámos tantas vezes aquele viaduto. Não havia como escapar-lhe no caminho de casa para a creche e da creche para casa. Aquelas tendas sempre estiveram lá, camufladas entre pilares grossos, uma terra de ninguém sobrelotada, a sombra da sombra da sombra da cidade em marcha. Expliquei-lhe que havia quem dormisse ali, por não ter casa. Aguardei mais perguntas, mas elas surgiram apenas alguns dias mais tarde. Em vez disso, enquanto avançávamos naquele dia, a Salomé fixou o olhar nas tendas verdes a partir do seu recém-estreado miradouro no banco de trás do carro. Na altura pensei: ganhar consciência é sair do ovo para a cadeira.

*

Quando era miúdo e vinha a Lisboa visitar a minha avó aos fins-de-semana, passava sempre por um café de bairro (que obviamente já não existe, porque isto aconteceu num tempo em que qualquer loja de bairro não precisava de ter a palavra bairro escrita à frente do nome para que o identificássemos como tal). Mesmo à porta desse café, alguém tinha colado uma moeda no chão de calçada portuguesa, bem posicionada para que os residentes habituais da esplanada pudessem assistir em primeira mão à emboscada. As pessoas caminhavam distraídas pela Rua D. Estefânia, aquelas que iam de olhos no chão, e estacavam mesmo ali à frente. Baixavam-se como quem não quer a coisa e tentavam apanhar a moeda, às vezes demorando a entender que ela nunca iria sair dali. Muitas vezes, nem reparavam nos risos dos clientes habituais do café, sentados na esplanada como se estivessem na primeira fila de um espectáculo. Quando reparavam, já era demasiado tarde. Tinham sido apanhados e aí o público perdia a vergonha e ria sem pruridos. Também eu fui apanhado. Também acreditei que andar de olhos pregados no chão me iria valer uma moeda de duzentos escudos. Também eu levei calduços na escola por caminhar de cabeça baixa, olhos perdidos no chão - ou talvez fosse de cabeça baixa precisamente por saber que iria apanhá-los e talvez se não os visse a sensação de dor fosse menos evidente. Na altura pensei: olhar para baixo é uma cilada.

*

Há uns meses, a Salomé pediu-nos para ir andar de trotineta "naquele sítio com círculos, rectângulos e quadrados". Tentámos responder ao pedido, lançámos várias hipóteses sem sucesso. Falávamos de parques, mas ela respondia-nos com um sítio de chão rosa e com o dedo desenhava no ar as formas geométricas que lá havia. Após algumas tentativas, desistimos e seguimos para o Campo das Cebolas, porque era amplo e já não íamos lá há algum tempo. Quando chegámos, olhei para o chão. Foi isto que vimos:

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Ali estava o chão rosado, com círculos, rectângulos e até semi-círculos de vários tamanhos, que ficou gravado na memória da Salomé embora não na minha. Provavelmente porque comecei a resistir a prender o meu olhar no chão, por estar preso aquele juízo que dá por certo que quem olha para baixo são os tolos, os desalentados, o Charlie Brown. Na altura pensei: olhar para baixo pode ser bom, no fim de contas, para ver onde ponho os pés, por exemplo.

 

Promessa de que o mundo nos espera se formos

Maio 26, 2021

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No. 6 (Yellow, White, Blue over Yellow on Gray)

 

"Da janela do quarto onde cresci, e onde portanto comecei a ouvir Caetano, eu via o Tejo da altura de um oitavo andar, com os navios passando ao fundo, veleiros, cargueiros, porque ali o rio vai largo, e em muitos dias não se vê outra margem, parece o mar. Então, essa é a minha primeira imagem-ideia de partida, o sonho daqueles barcos no fio do horizonte, promessa de que o mundo nos espera se formos, esse mundo, que nunca acaba de se revelar, tal como o horizonte nunca acabará se por ele avançarmos, sempre rumo aos antípodas. Pela simples razão de que a Terra é redonda, tal como a estupidez é plana."

(Cinco Voltas na Bahia e um Beijo para Caetano Veloso, Alexandra Lucas Coelho, 2019)

 

Quando formos livres

Março 01, 2021

"Ela sempre recusara a ideia de que os filhos pudessem ser um entrave ao seu êxito, à sua liberdade. Como uma âncora que nos puxa para o fundo, que arrasta o rosto afogado pela lama. A princípio, essa tomada de consciência fê-la mergulhar numa profunda tristeza. Achava isso injusto, terrivelmente frustrante. Percebeu que nunca mais poderia viver sem ter a sensação de estar incompleta, de fazer mal as coisas, de sacrificar uma parte da sua vida em prol de outrem. Tinha feito um drama, recusando-se a renunciar ao sonho da maternidade ideal. Teimando em pensar que tudo era possível, que alcançaria os seus objectivos, que não ficaria nem amarga, nem esgotada. Que não faria nem de mártir, nem de Mãe Coragem.

Todos os dias, ou quase, Myriam recebe notificações da sua amiga Emma, que publica nas redes sociais retratos em tom sépia dos seus dois filhos louros. Crianças perfeitas que brincam num parque infantil e que Emma matriculou numa escola que desenvolverá os dons que ela já adivinha neles, em tão tenra idade. Deu-lhes nomes impronunciáveis, provenientes da mitologia nórdica e cujo significao adora explicar. Nessas fotografias, também Emma é uma figura linda. Quanto ao marido, nunca aparece, eternamente confinado ao papel de fotografar uma família ideal à qual só pertence como espectador. E, no entanto, ele esforça-se por encaixar no molde: usa barba, camisolas de lã natural, vai trabalhar de calças justas e desconfortáveis.

Myriam jamais se atreveria a confiar a Emma o pensamento fugaz que a atravessa, a ideia, que não é cruel, mas vergonhosa, que a perpassa ao observar Louise com os seus filhos. Só seremos felizes, diz ela para si própria, quando não precisarmos uns dos outros. Quando pudermos viver uma vida nossa, uma vida que nos pertença, que não diga respeito aos outros. Quando formos livres."

 

(Canção Doce, Leïla Slimani, 2016)

 

Cada passo que não deram ainda

Fevereiro 23, 2021

Os pés

 

Que feios são os pés de toda a gente,

excepto os das minhas filhas. Que lindos

são os pés das meninas. As bochechas

redondas e cor-de-rosa dos anjos

invejam-lhes os calcanhares, e os dedos,

vistos a partir da planta, minúsculos,

têm a suavidade das ervilhas.

Ainda estão por estrear. E comove-me

pensar em cada passo que não deram ainda.

 

(Conta-mo outra vez, Amalia Bautista, 2020)

As vozes das coisas sem boca

Fevereiro 19, 2021

Há uns meses um portão falou comigo. Foi um sussurro, não o ouvi à primeira. Ninguém está à espera de que um portão lhe diga qualquer coisa, e sobretudo que seja a murmurar. Os portões costumam anunciar-se com estrondo. Reparei nele com alguma demora, depois de passar tantas vezes por aquela rua, a de Santo António dos Capuchos, a caminho do trabalho, descendo em direcção à Avenida da Liberdade, ou suando no regresso a casa, subindo pelo Campo dos Mártires da Pátria. Se passarem por ele provavelmente não darão por ele, mesmo que saiam de casa com esse propósito. Apenas o ouvi depois de não ter mais nada para escutar.

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*

Há um ano, acordámos pouco preparados para o silêncio. Na verdade, estávamos (mais do que) habituados ao ruído. Portanto o alerta chegou assim, à boleia de notícias barulhentas, como se os ecrãs das televisões, dos telemóveis e dos computadores fossem megafones. Durante algum tempo foi o que prevaleceu. Depois disso, por causa disso, apesar disso, ficámos algum tempo em silêncio sem ninguém nos ter mandado calar. Sem que ninguém nos mandasse. É verdade que falámos bastante - também participei em inúmeras videochamadas -, mas nesses primeiros meses consegui distinguir o silêncio como em poucos outros momentos da minha vida. Com espessura, quase palpável. O suficiente para passar a inventariar silêncios inesperados.

Recordo-me de ter saído de casa pela manhã, num desses dias de Março do ano passado, e de ter dado pela falta de uma imagem que já tinha como certa. Todos os dias, excepto naqueles em que a chuva não desse tréguas, a senhora que vive no rés-do-chão do prédio em frente abria as janelas de par em par e ali deixava as almofadas onde repousara durante a noite, debruçadas para a rua. Nunca temeu roubos ou transeuntes atrevidos que se atrevessem a dormitar à sua janela, mas a partir daquela manhã de março, nem as almofadas arejaram, nem as janelas se abriram. Durante longos meses, encarei esse silêncio todas as manhãs a partir da minha janela. Aquele par de almofadas sufocou dentro de um quarto durante meses e aquilo que disseram, estando ausentes, foi mais vigoroso do que os “olás” que me haviam dito quando ainda podiam apanhar ar.

O silêncio desenterrara vozes que já existiam, mas às quais não dedicara qualquer atenção até aquela altura. Umas semanas depois, lembro-me de ser interpelado por uma sucessão de outdoors na beira de uma estrada. O primeiro dizia “Anuncie aqui”. O segundo, uma dezena de metros à frente, já suspirava “Este espaço pode ser seu…”. Até que por fim, outra dezena de metros adiante, uma tela em branco se remetia ao silêncio nos seus dez metros por três. Um painel esbranquiçado como metáfora de um horizonte débil para o qual vamos avançando. Recordo também os murmúrios que se alastram a partir dos parques infantis vedados. Mesmo sendo um pai que aprendeu a odiar estes espaços, é impossível abafar os lamentos dos escorregas e baloiços enfaixados e solitários.

Reconheço que é difícil admitir que escutamos as vozes destas coisas sem boca, logo agora que a saúde mental colectiva se encontra tão periclitante. No entanto não precisa de ser complicado. Um dia destes, sentada na sanita, a minha filha imitou o barulho de água a correr e no final disse-me que “estava a fazer a voz do chichi”. É simples, portanto. Tão simples quanto ter entrado num prédio de um familiar e me ter surpreendido com um tapete de entrada à porta de um dos vizinhos. Dizia “Welcome”, como tantos outros, mas estava virado para dentro, só o podia ler facilmente quem já estivesse dentro de casa.  À sua maneira, o tapete lembrava a quem aí vivia que se teria de contentar em ficar lá dentro.

Foi também no ano passado que me dei conta que o meu telefone também falava. Haverá coisa mais silenciosa e simultaneamente tão absolutamente ruidosa do que um scroll infinito num ecrã de telemóvel? Contudo concluí isso num outro momento de silêncio, ainda que mais breve. Em abril juntei-me a uma iniciativa da Casa Fernando Pessoa chamada Leituras ao Ouvido. Consistia em ligar a desconhecidos (que se tinham inscrito ou que tinham sido inscritos por pessoas próximas) e ler-lhes um poema ou um texto curto. Sentado na minha cama, li um poema de Daniel Faria para um senhor que estava no areal ventoso da Praia da Tocha, tive de gritar “O Portugal Futuro” de Ruy Belo para que uma senhora com a audição comprometida me conseguisse ouvir. “No dia em que não ouço um poema pelo telemóvel fico com pena”, disseram-me. E ainda que soubéssemos que existiam pessoas nas duas pontas desta chamada, não deixávamos de ser desconhecidos e o telefone era afinal o portador daquelas vozes. Havia um poema em particular que instaurava, mais do que os outros, um compasso de silêncio. Começava assim “Estivemos um mês inteiro à janela/com os cotovelos apoiados, a contemplar aquele pedaço de terra/rodeado de sebes. E chegou o Verão”. As palavras ressoariam de outra forma em Abril do ano passado, é certo. “Agora vamos em passeio pelas estradas vazias da aldeia/sem falar e sem olhar um para o outro/como se não fôssemos nós próprios.” Conseguem imaginar ouvir isto na incerteza de Abril? “As estradas, que calafetadas com pedras/novas faziam escorregar/são agora suaves tapetes de ervas sob os nossos passos./Quando anoitece sentamo-nos no chão / e afagamos a erva das fendas, /rara, como os cabelos de uma anciã.” Silêncio. Um silêncio fundo do lado de cá e do de lá. E no entanto, o telefone segredava-me qualquer coisa reconfortante – e tenho a certeza de que o fazia também no outro lado da chamada. Descobri a voz do meu telemóvel a ler um poema de Tonino Guerra, “Canto Vigésimo Quinto”.

*

Os pardais-de-coroa-branca também acordaram para esse silêncio, porém, estavam preparados. Despertaram com um despertador silencioso, que atenuou o ruído infernal da vida urbana - menos motores, menos buzinas, menos tralha, o caos a fazer-se macio. Em Abril e Maio do ano passado, quando o confinamento lhes ofereceu esta acalmia, estes pássaros mudaram o seu canto. Na Baía de São Francisco, nos Estados Unidos, os investigadores já tinham verificado nas suas observações no terreno que o pardal-de-coroa-branca tinha de gritar para ser ouvido neste barulhento ambiente urbano. Por gritar, entenda-se um canto mais estridente. Ora, assim que o ruído se atenuou, os mesmos investigadores perceberam que eles haviam mudado os seus cantos para um registo mais próximo dos seus semelhantes rurais, mais harmonioso. Na notícia que li, comparavam o canto dos pássaros canoros (como este pardal) com o dos gaios, por exemplo: “a complexa beleza de um solista de ópera bem treinado contra o som gutural de um cantor de metal”. O seu canto é fundamental: quanto mais rico, mais atractivos se tornam para as fêmeas da espécie. Um canto mais complexo, mais suave, que alcança outras distâncias e que inclui muito mais informação.

*

Porque é que nos aconteceu o oposto? Porque é que a pandemia nos tornou ainda mais esganiçados? Pensei nisto pouco depois de ler a notícia sobre estes pássaros. Talvez aqueles instantes de silêncio de há um ano, prolongados por semanas e meses, tenham sido demasiado rápidos. A verdade é que não tratámos de enriquecer o discurso, continuámos a cair nas mesmas armadilhas de sempre, irremediavelmente toldados pela sobranceria, por preconceitos e pela ignorância. Amores e ódios em catadupa. Não ficou tudo bem. Enfrentamos o início de um trauma colectivo, entrecortado por polémicas quase diárias e desnecessárias e por umas eleições cuja ferida não vai sarar tão depressa, enquanto abrimos a janela todos os dias e vislumbramos o lusco-fusco que antecede uma noite de duração indeterminada. Resta-nos ser exigentes. Prestar tanta atenção ao silêncio como a quem vocifera atrocidades por dá cá aquela palha. É um exercício que tento cumprir, mas no qual falho constantemente. Procuro ouvir essas vozes dissonantes, perceber de onde vêm e para onde podem ir, mas dou por mim a ouvir portões a sussurrar. 

Maria.

Dezembro 22, 2020

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Quase nove anos depois de a Maria passar a morar connosco, comprámos um daqueles robôs aspiradores que prometem um chão limpo sem exigir, em troca, qualquer esforço. Os pêlos da Maria foram sempre um desafio. Sem que déssemos por isso, surgiam à nossa frente sob a forma de bolas, saltitando como se, do dia para a noite, a casa se tivesse tornado o cenário de um western. Geravam o seu próprio efeito borboleta: uma simples festa no dorso da Maria influenciava a ordem natural das coisas e, duas semanas depois, podíamos encontrar um tufo de pêlos numa peça de roupa que não saía do armário há um mês. Pêlos fortes, difíceis de despegar da roupa, dos bancos do carro, da planta do pé quando por acaso aí se enfiavam.

Oito anos e uns quantos meses depois de a Maria passar a ser da nossa família, dizia, comprámos finalmente um robô aspirador. Infelizmente agora não temos pêlos para aspirar. Nem Maria. Ganhámos um electrodoméstico, ficámos sem uma amiga. Uma amiga exigente, tanto quanto os seus pêlos, capaz de ladrar para todos os cães, de pequeno, médio ou grande porte, de ladrar para homens, crianças e sacos de plástico misteriosos à meia-luz da noite, de ladrar porque tocaram à campainha ou apenas porque sim. Que podia ela fazer senão ladrar? Nunca ladrou para este aspirador que lhe estragava os planos de inundar a casa com o seu mar de pêlos. Na verdade, os últimos tempos foram parcos em latidos. A Maria estava diferente, ainda que por vezes eu ainda conseguisse descobrir no seu focinho a mesma cadela minúscula que trouxemos para casa há tantos anos, tantas moradas, tantos passeios pelas ruas desta cidade. Mas só até ela, sorrateira, se encostar à minha cara e tentar derrubar-me com um peso que nada tinha de cachorro. Era um gesto de carinho incomparável. Nenhum outro amigo o faria daquele jeito tenso que a Maria foi ganhando com o tempo.

Retribuímos a amizade como pudemos. Com nenhum outro amigo partilhámos tanta comida. Por nenhum outro amigo dormimos de pernas encolhidas para que ocupasse o seu lugar aos pés da cama. Nenhum amigo nos viu tantos dias de pijama. A nenhum amigo tive de segurar a pata com a firmeza possível até adormecer de vez, curiosamente naquela que é a noite mais longa do ano. Parado ali no corredor, o robô aspirador nunca vai perceber a sorte que teve em poder sugar os pêlos da Maria, ainda que apenas por um par de meses. Nós conhecemos bem esse privilégio, vivemo-lo por quase nove anos, felizmente. Não vamos poder esquecer, haverá sempre um pêlo teimoso a despontar na nossa roupa.

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