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Longitudinal

Longitudinal

Amará o seu domador o antigo animal selvagem, hoje animal de circo?

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 (The Lion Queen / Library of Congress)

 

“Amará o seu domador o antigo animal selvagem, hoje animal de circo? Pode ser que sim, mas não é obrigatório. Dependem ambos um do outro, de forma desesperada. Um precisa do outro para se inchar como sapo-rei, ajudado pelas habilidades daquele à luz dos holofotes, e para o Barrabás da música, o outro precisa deste para possuir um ponto de referência no meio do caos generalizado que lhe ofusca o olhar. O animal tem de saber o que fica por cima e o que fica por baixo, senão de repente aparece a fazer o pino. Sem um treinador, o animal estaria condenado a precipitar-se desamparado em queda livre, ou a vagar à deriva no espaço e estralhaçar com dentes, garras e goelas, sem critério, tudo que se lhe cruza no caminho. Porém, assim, há sempre alguma pessoa que lhe diz o que vale a pena fruir. Às vezes, o objecto da fruição é-lhe já servido pré-mastigado ou cortado em bocados. A busca tantas vezes dilacerante de comida é por completo abolida. E com ela a aventura na selva. Porque nesta o leopardo ainda sabe o que é bom para si, e lança-lhe a garra, quer seja antílope ou caçador branco que descurou a guarda. O animal leva agora uma vida de contemplação durante o dia, meditando nas habilidades que tem de executar à noite. Aí, salta através de arcos em chamas, sobe para tamboretes, cerra as mandíbulas com estalido, envolve as gargantas sem as rasgar, executa passos de dança a compasso, com outros animais ou a solo, com animais aos quais se arremeteria à gorja se com eles topasse na estrada aberta da selva, sem trânsito em contrário, ou dos quais fugiria a sete pés se ainda estivesse a tempo. O animal traz uns disfarces amacacados sobre a cabeça ou o dorso. Já outros foram vistos montando cavalos, todos arreados de couro! E o seu amor, o domador, faz estalar o chicote! Ora louva, ora castiga, é o conforme. É conforme o merecimento do animal. Mas nem o domador mais refinado teve algum dia a ideia de enviar para a estrada um leopardo ou uma leoa com uma caixa de violino a tiracolo. Um urso de bicicleta é já o mais extravagante que uma pessoa consegue imaginar.”

 

(A Pianista, Elfriede Jelinek)

Tele-passadismo: os Jogos Sem Fronteiras

 

 

Acabou tudo num bacalhau com natas às nove da manhã. (Na verdade acabou um ano depois, quando Portugal deixou de participar nos Jogos Sem Fronteiras). Mas a noite de Agosto de 1997 em que, pela última vez, uma equipa portuguesa ganhou uma final desse concurso de televisão, terminou já na manhã do dia seguinte com um prato de bacalhau com natas. Nessa noite, uma forte chuvada, seguida de raios e coriscos, fez adiar a gravação do programa e daí a refeição planeada para a meia-noite ter sido transportada para nove horas mais tarde. Esperemos que ainda quente.

Vinte anos depois dessa final, que sagrou campeã a equipa da Amadora, alguns participantes (o treinador, o seleccionador das equipas, dois atletas e o apresentador) regressam ao seu próprio álbum de memórias para falar de um programa que ainda não lhes sai da cabeça. E o mesmo poderiam dizer gerações de portugueses.

 

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No especial do jornal PÚBLICO, há ainda a oportunidade de experimentar um jogo retro inspirado nos Jogos Sem Fronteiras chamado "Em Busca do Joker" (obra do Miguel Cabral) e folhear o manual desta final de 1997.

 

Ficar na vida

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"Não morrer. Sobretudo, não morrer. Ficar na vida. Estar face a um médico que profere o diagnóstico com ternura cuidadosa, como um Tirésias no início da tragédia, e confirmar que estávamos certos de todas as vezes que dissemos que as coisas fundamentais da vida são invisíveis. Estávamos certos mesmo quando duvidávamos do que dizíamos porque duvidamos sempre do que dizemos, e sabemos que o silêncio entre cada palavra que proferimos não se chama silêncio, o seu nome é dúvida. Na dúvida, ficar na vida. Perante a ideia da morte, reafirmar a razão pela qual participamos da vida: o mistério do futuro. Saber negar os amáveis convites da morte, que nos indica um lugar onde nos sentarmos esperando que o mundo venha ter connosco, que nos pede que aceitemos o mundo tal como ele é, incondicionalmente, enquanto aguardamos a hora da morte, com a impotência dos vencidos. Recusar a morte e ir ter com o mundo, ser nómada, descobrir o que se esconde para lá da montanha, viajar até ao outro lado da noite. Talvez até transformar uma ínfima parte desse mundo, ou nunca chegar a consegui-lo. Ser vencido, talvez, mas vencido pela vida. E, sobretudo, não morrer. Saber que a ideia da morte está connosco, no espaço exíguo do consultório médico quando Tirésias profetiza o terror, sentir que os cotovelos da morte roçam os nossos cotovelos, e ainda assim ficar na vida porque só quem está na vida pode imaginar as deambulações da morte e traduzi-las numa história que sirva para a vida. Isso: escrever ou ler sobre os nossos inimigos, fazer ou ver teatro sobre as formas de morte que nos assombram, mas nunca engrossar as fileiras do conformismo mortal. E tudo isto poderá parecer uma colecção de grandes ideias, vagamente poéticas, destinadas a tranquilizar a consciência ou animar os espíritos, mas quem escolhe ficar na vida saber que isto é algo de tão concreto como o som das cigarras, num dia de Verão. É, sobretudo, não morrer. Saborear a deliciosa dificuldade de ficar na vida, nos tempos difíceis e também nos outros, mas nunca nos tempos fáceis, porque sabemos bem que os tempos fáceis não existem. E sempre que nos disserem que este é o mundo possível, saber que é a morte quem nos fala, e que nós somos os outros, os que a combatem. Por isso é preciso preservar os lugares públicos e os lugares clandestinos onde podemos ficar na vida. É preciso preservar os momentos em que nos dedicamos aos mistérios, em que nos encontramos e dizemos: aqui estamos, talvez poucos, mas certos de que, perante a perspectiva da morte, escolhemos ficar na vida. E sussurrar em vez de gritar, recusar o ruído do mundo, escutar a respiração que emerge do silêncio e que sempre esteve lá, mesmo quando não a queríamos ouvir. Preservar os lugares onde podemos ouvir o vento, o sopro do pensamento, o espírito do lugar, o momento breve e irrepetível em que nos vemos pela primeira vez. E, sobretudo, não morrer."

 

(Sopro, Tiago Rodrigues)

Essa coisa de as noites estarem cada vez mais brancas e cada vez menos amarelas

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O ecrã da televisão iluminava-nos de espanto. Lembro-me bem desse espanto. Lembro-me do espanto na minha cara como se me tivesse visto ao espelho. Era igual ao espanto do primeiro homem ou da primeira mulher que ouviu um papagaio a devolver-lhe de forma estridente aquilo que tinha acabado de dizer. No ecrã um homem pegava numa moeda, colocava-a na língua, que tinha posto fora da boca de propósito, e engolia-a. Aquele era o primeiro nível de espanto. A barriga dele começava a ondular e essas vagas ventrais só terminavam quando a moeda voltava a surgir-lhe na língua, regurgitada. Ainda a recuperar da entrada no segundo nível de espanto, ele agarrava numa lâmpada e engolia-a de um trago. As ondas regressavam-lhe ao ventre e olhávamos para esses movimentos mesmerizados, até sermos interrompidos pela imagem do globo a sair intacto da boca do homem. O programa era emitido em directo, os planos não tinham cortes em momentos suspeitos, não havia como duvidar. Naquela idade era muito difícil pôr em causa a televisão como fonte de verdade. Era nessa altura que ele agarrava num peixe dourado, igual aquele que nadava às voltas no aquário da nossa sala, e fazia com ele o mesmo que há uns minutos tinha feito com a moeda e com a lâmpada. Sorvia-o, ruidosamente porque os sons eram uma peça essencial naquela encenação, e enquanto acompanhávamos o ondular da barriga, conseguíamos imaginar o peixinho dourado a nadar imperturbável pelo sistema digestivo - estômago, esófago, faringe e boca, como tinha aprendido na escola - até aparecer novamente no ecrã.

 

*

 

Os dias de aniversário, e por contágio as semanas que os antecedem e sucedem, são períodos de angústia. Podemos escapar aos coros de parabéns e às felicitações bem-intencionadas, podemos até ser bem sucedidos na ilusão da passagem dos meses - encavalitados em anos - ignorando qualquer vestígio de envelhecimento que tenha irrompido da noite para o dia no nosso corpo. Mas não nos convencemos de que é só mais um dia. Não é. É mais um dia, sem substantivos redutores. O problema está precisamente na inflexão que decidimos aplicar ao enunciado. É mais um dia que nos recorda da passagem de outros trezentos e sessenta e cinco (e de trezentos e sessenta e seis em anos ainda menos afortunados). Ou de mais setecentos e trinta dias, se entrarmos na vertigem das adições. São milhares de dias e em cada um deles vamos perdendo, a pouco e pouco, o júbilo das primeiras vezes.

 

 *

 

Isto tem tudo a ver com essa coisa de as noites estarem cada vez mais brancas e cada vez menos amareladas, depois de terem ficado amareladas e tendencialmente menos escuras, e isto já depois de as noites aindam serem de noite. Foi já numa destas noites esbranquiçadas, arrefecidas em tons de LED, que as vi entrar no meu autocarro. Traziam nas mãos dois daqueles calendários do advento que se vendem em qualquer supermercado. Eram irmãs, ou comportavam-se como tal. Não teriam mais do que sete, oito anos. Abriam descaradas os orifícios onde se escondiam os chocolates, engoliam os dias a galope, e o Natal aproximava-se a cada dentada sem se importarem com o facto de ainda estarmos nos primeiros dias de Novembro. Lembrei-me do pasmo dos adultos quando percebem que uma criança pequena, daquelas a quem até há poucos dias chamavam de bebé, lhes desenha uma cara disforme numa folha de papel. A primeira vez que desenha um rosto, mesmo que de forma tosca, porventura involuntária. Ficamos mais surpreendidos do que eles, as crianças anteriormente conhecidas como bebés. Asseguro-vos. Um lápis ou uma caneta juntam-se a uma folha. Há uma progressão natural, que empurra as garatujas rumo a uma figuração mais precisa, que faz com que os riscos se tornem menos riscos e mais coisas. Surpreendemo-nos porque nos custa compreender como não ficam arrebatados, porque não se deixam contagiar pelo tal júbilo das primeiras vezes. E sem que pudesse dar conta disso, as irmãs já tinham engolido o dia 24 de Dezembro e, no autocarro, tínhamos todos as mãos sujas de candura e de chocolate.

 

 *

Num zapping descubro uma cara familiar, resgatada a uma qualquer concavidade imemorial. O número é o mesmo, ou assim parece, mas descubro-lhe rugas e sobretudo suor. Talvez tenha apagado este pormenor da minha memória mas o homem que engole peixes dourados sua copiosamente. Descubro que tem um nome - Stevie Starr -, uma nacionalidade - escocês -, que tem mais de cinquenta anos, que continua a engolir coisas e a devolvê-las intactas, que se intitula de "Regurgitador Profissional", que participa em programas de talentos pelo mundo - em várias produções do "Got Talent", desde o Reino Unido à Alemanha, passando pela República Checa e pelos ferozes Estados Unidos -, e que nunca ganhou nenhum deles - na melhor das hipóteses ficou em quarto lugar. Descubro que o programa em França se chama "La France a un incroyable talent". Descubro sobretudo a sudação. Aquilo de que melhor me recordava, ou pensava recordar, sobre esses tempos em que a televisão nos iluminava de espanto e de verdade, era da leveza com que ele, o Stevie Starr, aspirava moedas, lâmpadas, peixinhos dourados e os devolvia como se executar aquilo fosse trivial. Como se não fosse equivalente a ouvir pela primeira vez o nosso eco através de um papagaio. Como se ele o fizesse sem esforço - logo sem suor. Há destas coisas. Perdemos o rasto das primeiras vezes só para percebermos, quase vinte anos mais tarde, que ainda não lhe perdemos a mão.

 

Factos de dupla face

"Tracey era firme na sua lealdade à memória do pai ausente, muito mais susceptível de o defender do que eu de falar com simpatia do meu, inexcedivelmente carinhoso. Sempre que a mãe falava mal dele, Tracey tratava de me levar para o quarto, ou para outro sítio privado, e rapidamente integrar o que a mãe tinha dito na sua própria história oficial, segundo a qual o pai não a tinha abandonado, não, nada disso, só que andava muito ocupado porque fazia parte do corpo de dançarinos de apoio de Michael Jackson. Poucas pessoas conseguiam acompanhar Michael Jackson a dançar - aliás, quase ninguém conseguia, talvez só houvesse vinte no mundo inteiro que estavam à altura. O pai de Tracey era uma dessas pessoas.Nem tinha precisado de chegar ao fim da sua audição - era tão bom que eles tinham percebido logo. Era por isso que quase nunca estava em casa: andava numa interminável digressão mundial. A próxima vez que estaria na cidade era provavelmente no Natal, quando Michael ia actuar em Wembley. Num dia limpo viamos este estádio da varanda de Tracey. Agora é-me difícil dizer que grau de credibilidade atribuía a esta história - havia certamente uma parte de mim que sabia que Michael Jackson, finalmente livre da família, dançava agora sozinho - mas, tal como Tracey, nunca aventei o assunto napresença da mãe dela. Como facto, aquilo era, na minha ideia, ao mesmíssimo tempo absolutamente verdadeiro e absolutamente falso, e talvez só as crianças sejam capazes de absorver factos de dupla face como estes."

 

(Swing Time, Zadie Smith)

Vidas reais

“- O Blunkett tem de ser sensato e de tomar medidas para que este país continue a ser um refúgio. As pessoas que sobreviveram a guerras horríveis têm absolutamente de ser autorizadas a vir para cá! – Virou-se para Obinze. – Não concordas?

 

- Concordo – disse ele, e sentiu a alienação a percorrê-lo como um arrepio.

 

Alexa e os outros convidados, e talvez até Georgina, compreendiam a necessidade de fugir à guerra, ao tipo de pobreza que esmagava as almas humanas, mas não compreenderiam a necessidade de escapar à letargia opressiva de falta de escolha. Não compreenderiam porque é que pessoas como ele, que haviam crescido bem alimentadas e com todas as suas necessidades satisfeitas, mas atoladas em insatisfação, condicionadas desde a nascença a olhar na direcção de outro lugar e eternamente convencidas de que as vidas reais aconteciam nesse outro lugar, estavam agora resolvidas a fazer coisas perigosas, coisas ilegais, para poderem partir, sem que nenhuma delas estivesse a passar fome, a sofrer violações ou a fugir de aldeias incendiadas, mas meramente famintas de escolha de de certeza.”

 

(Americanah, Chimamanda Ngozi Adichie)