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Longitudinal

Longitudinal

"Precisamos de luz porque está muito frio"

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Falam-me amiúde da possibilidade de um novo olhar que os filhos nos concedem. Há quem consiga redescobrir o mundo, contemplá-lo de outra forma, próxima da mirada de uma primeira vez. Reconheço o inesperado fulgor que esses descobrimentos iniciais são capazes de revelar, ainda que por empréstimo. Já senti essa comoção através da minha filha mais velha. Mas não me consigo entregar por completo a esse maravilhamento. Há um ano, antes de um espectáculo de teatro, ouvi alguém a aconselhar outros pais a não passarem o tempo a descrever tudo o que se passava em cena. "Eles estão a ver o mesmo que vocês e até coisas que vocês não estão a ver", disseram. O olhar é o dela, procuro não me intrometer nesse processo.

No meu caso, encontrei esse sentido de redescoberta do mundo através de outro processo. Na verdade, mais do que voltar a descobrir, senti-o como um reorganizar do mundo. Refiro-me às palavras, não à sua entrada em cena, tímida, mas ao período em que o vocabulário se adensa na cabeça de uma criança, estimulada por uma delirante desordem e inquietação. 

À nossa frente, um homem passa a correr numa passadeira. "Aquele senhor está a correr?", pergunta-me. "Sim, está." "Porquê?" "Deve estar com pressa", respondo. "O que é estar com pressa?" Vejamos, poderia explicar simplesmente que é estar atrasado para um encontro ou ter muita vontade de chegar a algum sítio. E a partir daí, desdobrar-me em respostas sobre o que é estar atrasado ou ter vontade, ou ainda sobre o que é não chegar à hora que combinamos ou querer muito uma coisa. Pressenti em simultâneo as incontáveis possibilidades e a inevitabilidade de, ainda assim, acabar por lhe subtrair informação.

O que me sobressaltou neste processo não foi a urgência de encontrar vocabulário simplificado para explicar conceitos do quotidiano a uma criança de três anos. Por enquanto, a primeira explicação pareceu bastar-lhe. Mas naquele instante, senti-me incapaz de lhe dar uma visão completa do mundo, imune à fragmentação. Foi um abalo, que entendi como uma revelação sobre a dificuldade de entender tudo isto. Sobretudo sobre a provável (e sublinho provável) ineficácia de as palavras para a nossa salvação como sempre confiei. Mesmo estando na posição segura de um adulto, que se propõe ensinar alguma coisa a uma criança cuja ligeireza com que usa as palavras é a mesma com que molda a plasticina.

Tantas outras vezes, antes e depois do episódio anterior, já me equivoquei. Cometi o tal erro de lhe descrever coisas que estavam a acontecer diante dos seus olhos. Já fui demasiado infantil em explicações. Já elaborei excessivamente, como se ela fosse um adulto. Tateio as palavras como se estivéssemos ambos às escuras, à procura de um conjunto de letras preciso, e qualquer excesso nos pudesse ofuscar. A verdade é que acabo sempre desprevenido. Como quando lhe ouço uma frase como "Precisamos de luz porque está muito frio" e me delicio com a claridade desta imagem que brota de um erro. Mas será que o posso chamar de erro?

No outro dia, ouvi a conversa da Inês Meneses com o  André Tecedeiro no "Fala com Ela", que começava com o próprio a esclarecer por que demorou três décadas até conseguir traduzir o desconforto que sentia, e que o levou à mudança de género. "Eu não sabia dar um nome, porque não tinha vocabulário", afirma no início. "Pensamos o mundo com base na linguagem que temos", complementa já no final da entrevista. Neste percurso de reordenamento, que passa pela adaptação da linguagem usada para se referir a si mesmo, o filho também o ensinou. "Não vais deixar de ser minha mãe", disse-lhe. Chama-o de mãe mas trata-o no masculino. "É uma gramática moderna, digamos".

Afinal, regresso comprometido às palavras, nesta fase em que a minha filha mais velha as usa sem parar, sem pensar, sem digerir. Enquanto as devolve após as ouvir de relance, no mais puro roubo por esticão, enquanto as imprime de sentidos, generosa, ingénua e desarmante. Numa manhã de um destes dias: "Encontrei uma migalha", aponta na direcção do rosto dela. "Onde?" "Nos olhos." "Ah, então é uma remela." Acabo sempre por me render às palavras.

Grandes esperanças

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Todas as semanas há milhões de pessoas a falhar o alvo milionário. Porventura porque tantos outros milhões de pessoas passam os dias a fazer figas, desejando para si os números afortunados e não para o camarada da frente, que também fez uma aposta automática para os sorteios de terça e sexta-feira. O feitiço a virar costas aos feiticeiros.

"Já jogou no Euromilhões?", perguntou-me de sorriso cândido a partir do banco da frente do táxi. Falou-me desses milhões que se vão acumulando todas as semanas, até alguém escapar às pragas rogadas pelos milhões que torcem a ponta dos dedos pela derrota alheia, uma multidão de dedos quase necrosados por tanto ansiar roubar aos outros a experiência táctil de revolver os milhões nos bolsos. Mas ele falava-me dos milhões com a franqueza de quem acredita realmente na hipótese de os sentir no bolso coçado das calças que trazia vestido.

Se ganhasse o Euromilhões, reformava-se. Aliás, despedia-se e aguardava a idade de acesso à reforma, para não sofrer penalizações. Mesmo com os milhões já a pesarem-lhe no bolso. Lembrei-me das extravagâncias de anteriores vencedores, com os seus carros topo de gama, a vida sem bolsos onde guardar milhões porque os milhões parecem levitar e transformam os sonhos em matéria.

Ele interrompeu-me. "Depois ia ali para Alcântara com a minha cana de pesca, lá para ao pé dos outros." Disse-o com o mais natural dos modos. Não soube dar crédito ao sonho deste milionário vindouro. Com efeito, ficar por Alcântara com tantos milhões não seria pouco ambicioso? "Pois, talvez fosse para Peniche. Dizem que por lá já se apanha peixe maior."

Esta semana, está em jogo um Jackpot de aproximadamente 150 milhões.  Quantas canas de pesca podemos comprar com esta soma? E o tempo para pescar, quanto custa?

 

Ser o Svyato, o John e o pai dele e quem mais estiver do outro lado do espelho

Quando era novo e cumpria a última visita à casa de banho antes de dormir, a negrura dos meus olhos perturbava-me. Pousava a escova, assim que terminava a lavagem dos dentes, olhava-me ao espelho, caindo pelo abismo das pupilas, e estremecia. Os círculos negros pareciam dilatar-se na exacta medida do meu medo, até cobrirem por inteiro a superfície do espelho e transbordarem pelas paredes da casa de banho. Nessa escuridão cabiam todas as fobias - sobretudo o pavor de me tornar um lobisomem. Deitava-me com a visão de duas pupilas sombrias e com o temor do desconhecido que aquele espelho me entregava.

*

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No fundo de um corredor alumiado por uma janela alta, uma criança de cabelos brancos de tão loiros brinca sozinha, empilha objectos coloridos, brinquedos, sorve ar de uma caneca vazia como se se saciasse com água, gesticula, reproduz gestos e comportamentos que viu fazer ontem ou noutro dia esquecido, fala consigo como se ali estivessem muitos outros, com vozes e registos que se multiplicam. Svyato é o nome deste rapaz que brinca sozinho. No ecrã onde vi tudo isto pela primeira vez, Svyato desfruta de uma realidade que está prestes a perder, mas ainda não o sabe. Durante dois anos, os pais esconderam todos os espelhos da casa da família. O rapaz, que nunca se confrontou com o seu reflexo, vai ter de o fazer daqui a uns minutos quando se levantar e avançar para uma sala ao fundo do corredor onde brincava e se deparar com um espelho e com um miúdo igual a ele. É empolgante, mete medo, é a surpresa de uma vida.

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Outro espelho. Neste caso, um retrovisor como mira, a Hungria como alvo. John Domokos e o pai partem numa viagem de sete dias pelas estradas magiares em busca de apaziguamento. "Tal como muitas famílias, a minha tem estado dividida pela política nos últimos anos", explica John, jornalista e o filho desta história. Depois de ter emigrado para o Reino Unido nos anos 1970, o pai regressou à Hungria em 2009 e tornou-se apoiante do Primeiro-ministro nacionalista Viktor Orbán. "O meu pai adora discutir política e ressentiu-se com o facto de não o poder fazer comigo, porque as suas visões políticas me incomodam." Ainda antes de arrancarem, sentados num sofá diante de uma câmara, o pai confirma: "Temos origens tão diferentes, qualquer coisa que falemos..." O filho interrompe-o. "Não pode ser assim tão diferente. Sou teu filho". 

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Não acredito que o Svyato tenha medo do reflexo que vê ao espelho pela primeira vez. Começa por gesticular. Traz uma vassoura, uma pá. Bate no espelho. Transfere o seu espaço de brincadeira, pedaço a pedaço, para a frente do espelho, aproximando-se da sua cópia. Grita de entusiasmo. Por mais que tente, aquela presença não lhe permite qualquer distração.  Esfrega os olhos. Certifica-se de que continua ali, no espelho mas também na sala. No plano seguinte, o pai (que realiza a curta-metragem) surge também no plano. Svyato dá-lhe um beijo. Vira-se para o espelho e dá um beijo no seu próprio reflexo. Sai. É gradual, mas damos conta de que o Svyato se apercebe de que aquele miúdo loiro também é ele. Não o sinto apreensivo. Na verdade, revela-se intrépido.

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Lembrei-me do pequeno Svyato quando vi a reportagem da road trip húngara entre pai e filho. Sem conseguir decifrar durante algum tempo o caminho que me guiou até esta associação, ensaio agora uma hipótese, com o medo imberbe dos meus próprios olhos implicado pelo meio. Recuo até esse período em que o espelho se revelou uma superfície de incerteza, logo rente aos primeiros olhares, à infância, uma espécie de primeira etapa de iniciação ao medo. Há qualquer coisa de assombroso no reconhecimento de que podemos ser isto mas também aquilo. O que vemos do outro lado da superfície reflectora é tão idêntico mas abismalmente diferente. Penso que o que mais me perturbava na minha metamorfose em lobisomem não era o monstro em que me iria tornar, mas sobretudo o processo. A possibilidade de me transformar em algo que encarava como distante, contrário à minha própria imagem. O reflexo como reverso. Esta coisa de encarar o espelho pode ser uma desilusão tremenda. Ali estamos, a julgar-nos com a distância gélida de quem avalia um outro, de olhar preso na assimetria do rosto mais vincada, numa borbulha como numa contradição, num acto irreflectido como nas costas arqueadas, a conjecturar hipóteses sobre as imperfeições que aquele sujeito transporta, a recear o alheio - até que, finalmente, com um baque, nos reconhecemos nessa outra figura que nos olha com a mesma vigilância impiedosa. Sinto que a empatia tambem se edifica nesses instantes, depois da domesticação do Homem pelo medo, mesmo nas profundezas dos olhos negros de lobisomem.

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John Domokos e o pai vão cruzando o país. Nas conversas que têm um com o outro e com quem se cruzam procuram alcançar a meta não assumida da sua viagem,  trazendo à luz esboços de entendimento entre os dois (e entre um país polarizado que perdeu a capacidade de empatizar). Numa das etapas, após uma manifestação contra uma medida do governo de Orbán, um homem na casa dos vinte anos lamenta "este medo paranóico dos migrantes". O pai de John deixa-o afastar-se para desabafar. "Tive de morder a língua. Não é paranóia, é um perigo real". "Estás com medo?" A pergunta do filho desencadeia a resposta mais cândida do pai ao longo da reportagem: "Estou assustado. Apavorado. 90% das pessoas também está. Os jovens como ele não percebem que o Orbán faz isto porque também está assustado e quer salvar o país. Quanto mais velho ficas, mais medo tens. Os jovens gostam de arriscar, não têm medo. Em parte porque não fazem ideia do que devem temer. Como uma criança de quatro anos, que corre para a estrada porque nem sabe dos carros". Por mais que nos situemos do outro lado de uma fronteira ideológica, a honestidade destas palavras obrigam-nos a olhar de novo para o espelho, ainda que este acabe por nos confirmar as nossas convicções. A encerrar a viagem, John segue o pai até um comício de Viktor Órban. Apertado entre milhares de pessoas das mais diversas idades, que aplaudem o discurso do Primeiro-ministro, repete-nos a ideia que esboçou no início, . "Não somos assim tão diferentes." Soa a início de qualquer coisa, longínqua de qualquer condescendência, numa altura em que, de um lado e do outro do espelho, há quem já não vislumbre qualquer reflexo.

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Quase vinte anos depois, percebi que os meus olhos nem sequer são pretos. São castanhos.

Todos os dias observo a cicatriz que tenho na mão.

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(Repressão policial aos protestos populares na cidade de Gwangju, Coreia do Sul, em Maio de 1980)

 

"Há memórias que nunca saram. Em vez de se esbaterem com a passagem do tempo, essas recordações tornam-se a única coisa que sobra quando tudo o resto se corrói. O mundo escurece, como lâmpadas elétricas, fundindo-se uma a uma. Tenho consciência de que não sou uma pessoa de confiança.

 

Serão os seres humanos fundamentalmente cruéis? Será a experência da crueldade a única coisa que partilhamos enquanto espécie? Não passará a dignidade a que nos agarramos de uma ilusão para disfarçarmos, perante nós mesmos, esta simples verdade: que cada um de nós pode ser reduzido a um inseto, um animal voraz, um pedaço de carne? Que ser aviltado, magoado, esquartejado... é o destino essencial da humanidade, um destino cuja inevitabilidade a História confirmou?

 

Uma vez, na altura da revolta, conheci um tipo que era paraquedista. Contou-me a sua história depois de ouvir a minha. Disse que tinham recebido ordens para esmagar os civis com a máxima violência possível, e os que cometeram atos particularmente brutais receberam prémios de centenas de milhares de won dos superiores. Um dos tipos da sua companhia tinha dito, «Qual é o problema? Se me dão dinheiro e me mandam espancar alguém, porque é que não hei de fazê-lo?»

 

Ouvi outra história de um dos pelotões do exército coreano que combateram no Vietname. Obrigaram as mulheres, as crianças e os velhos de uma aldeia inteira a irem para a casa principal e a seguir deitaram-lhe fogo. Alguns dos que receberam ordens para nos matarem fizeram-no com a memória desses outros tempos, tempos de guerra, quando perpetrar atos desse tipo lhes valera uma bela recompensa. Aconteceu em Gwangju, tal como aconteceu na ilha de Jeju, em kwantung e em Nanjing, na Bósnia e em todo o continente americano quando ainda era conhecido por Novo Mundo, com uma brutalidade tão uniforme que parece estar impressa no nosso código genético.

 

Nunca me esqueço de que cada pessoa que conheço pertence à raça humana. E isso inclui-o a si,  professor, que está a ouvir este testemunho. Tal como me inclui a mim.

 

Todos os dias observo a cicatriz que tenho na mão. Este sítio onde outrora o osso esteve exposto, onde uma secreção esbranquiçada escorria de uma ferida putrefacta. Sempre que vejo uma vulgar esferográfica Monami, fico com a respiração presa na garganta. Espero que o tempo me arraste como água enlameada. Espero que a morte chegue e me limpe, me liberte da memória dessas outras mortes esquálidas que assombram os meus dias e as minhas noites.

 

Luto sozinho, dia após dias. Luto contra o inferno a que sobrevivi. Luto contra a realidade da minha própria humanidade. Luto contra a ideia de que a morte é a única maneira de escapar a essa realidade.

 

Por isto, diga-me, professor, que respostas tem para mim? O senhor, um ser humano como eu."

 

(Atos Humanos, Han Kang, 2014)

 

Pequeno apontamento sobre a história das cores

(Vierge de Xhoris (c. 1030), Museu Grand Curtius, Liège, Bélgica,

provavelmente não é aquela que Pastoureau refere mas é contemporânea )

 

"Ao longo dos séculos, a Virgem passou assim por quase todas as cores, como o demonstra uma surpreendente escultura, esculpida pouco depois do ano 1000 numa bonita madeira de tília e que hoje se conserva no museu de Liège. Como era frequente na época, essa Virgem românica havia primeiro sido pintada de preto. No século XIII, seguindo os cânones da iconografia e da teologia góticas, foi repintada de azul. Depois, no fim do século XVII, a pequena escultura acabou (como tantas outras) por ser «barroquizada», trocando o azul pelo dourado, cor que durante cerca de dois séculos conservou, até ser por fim visitada pelo dogma da Imaculada Conceição, e consequentemente toda pintada de branco (c. 1880). Esta sobreposição de quatro cores sucessivas num milénio de história faz dessa frágil peça um objecto vivo bem como um excepcional documento de história pictórica e simbólica"

(Azul - História de uma Cor, Michel Pastoureau)

 

"Todos os bairros de Lisboa são ordinários"

Panorâmica de Lisboa

Panorâmica de Lisboa [entre 1950 e 1959] / Arquivo Municipal de Lisboa

 

"Todos os bairros de Lisboa são ordinários", frisou, divertido, Afonso. E citou-lhes os nomes: Alfama, Mouria, Bairro Alto, Alcântara... Todos eles bairros ordinários, mas encantadores. Seguiu-se um pequeno discurso sobre a cidade, nada de veramente sensacional, um quotidiano de amoroso, uma síntese  galanteadora, um sentimento de Marialva pela sua Severa endiabrada, tudo muito diluído pela sensação de que nenhum dos presentes podia inteiramente aderir àquele amor pela sua cidade, àquele sentir e ver de coisas muito suas desde sempre, menino bem tratado que viera calcorreando os caminhos tortuosos da Madragoa até descobrir a Avenida, e depois, mais além, a Mouraria prometida à demolição (como já acontecera ao Bairro da Liberdade e decerto aconteceria ao Bairro Alto); mais longe, o Terreiro do Paço, via Algés, ou, da outra banda, à partida de Cacilhas, um outro mundo de encantos, rematado pela Arrábida. Tudo aquilo era Lisboa ou era ainda Lisboa, a capital, a cabeça da Metrópole, o centro das iniciativas, a sede dos Ministérios laboriosos, a colmeia e o enxame, os cabarés provincianos, a irmã-pobre das capitais europeias - mas quanto sol, quanta amenidade! Uns toques, aqui e ali, do mito europeu, tão dispersos que quase inexistentes se tornavam... E a torturada Lisboa fadista, a burguesíssima Lisboa das canções importadas, a pseudo-aristocratíssima Lisboa do Chiado-acima-e-abaixo, a milagrosa sobrevivência da arte maldita nos cafés caricaturais e nos teatros a cair de podres...

 

Conforme as propostas de perguntas apresentadas, falou-se ainda (ou falou Afonso) da Lisboa manuelina, a da arte burguesa enriquecida, e da Lisboa pombalina, passando pelo Aqueduto das Águas Livres, num percurso que vinha de Belém por Campolide, até à Baixa Comercial, populosa como um formigueiro e exacta como os ideais do senhor Marquês. Abordou-se o caso popular de Lisboa, independente das manifestações desportivas - coisa que nenhum dos presentes ainda tinha descoberto. Algo no género dos balõezinhos de Santo António e do Mercado da Ribeira, noites de festa na praça da Figueira e altarinhos em Alfama, tiros no Parque Mayer e cinemas de bairro..."

 

(A Gata e a Fábula, Fernanda Botelho, 1959)