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Longitudinal

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"Como se a gente estivesse na beira do trampolim de uma piscina" - notas soltas sobre a mudança

Em mil novecentos e setenta e quatro, a minha avó trabalhava na zona do Chiado, na Rua das Chagas, onde esteve até se reformar, contrariada. Numa quinta-feira desse ano, que por acaso era dia vinte cinco de Abril, apercebeu-se daquilo que acontecia a uns quinhentos metros dali, no Largo do Carmo, e saiu a correr do trabalho. Precipitou-se Bairro Alto acima e foi para casa o mais depressa que conseguiu. "Ia fazer o quê, lá para o meio da confusão?"

 

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Passou mais de um mês e uma vez por outra ainda dou comigo a caminhar em direcção à paragem do autocarro e não rumo à estação do metro. O autocarro levar-me-ia ao trabalho onde estive durante três anos. O metro leva-me ao actual. Podia ser uma metáfora parola sobre o desacerto crónico das nossas decisões. Não é. Os olhos retidos no ecrã do telemóvel ou nas páginas do livro são sacudidos pelo resto do corpo quando se apercebe de que não é aquele o caminho. Até há umas semanas passava sempre pelo mesmo café e snack-bar, filetes com arroz de tomate, bacalhau espiritual, iscas, salada de atum com feijão frade, tudo escrito a tinta azul numa toalha de mesa de papel, o céu à vista, agora entro no metro e vejo uma banca de fresh squeezed lemon juice e infiltrações no tecto da estação. Os pés entram na carruagem, quase sempre a primeira da frente de forma automática, porque em alguns casos o corpo é mais rápido do que julgamos, encosto-me àquele canto imediatamente a seguir à porta e fico colado às costas das cadeiras onde outras costas repousam. Uma, duas, três paragens, saio. Bem-vindo.

 

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Este mesmo período de mudança de trabalho coincidiu com dois espetáculos que vi no Teatro Nacional.  Ensaio para uma Cartografia, de Mónica Calle, e E se elas fossem para Moscou?, de Christiane Jatahy. No primeiro, mais de uma dezena de actrizes dançam. No segundo, três actrizes falam. Em Ensaio para uma Cartografia, as actrizes estudam uma coreografia ao som do Bolero de Ravel - e não só. Mas a música é frequentemente interrompida. O que escutamos não são interpretações imaculadas. Há paragens abruptas, ouvimos os comentários dos maestros que dirigem aqueles músicos, para logo de seguida recomeçar, parar de novo e voltar ao trabalho. Os gémeos em constante tensão, o suor a escorrer-lhes pelo corpo, as gotas a desenhar-lhes marcas de esforço no rosto, o chão fica cada vez mais húmido e nós, imóveis, ficamos ofegantes. Elas continuam a dançar, e a parar, e a certa altura até ensaiam dançar em pontas. Retomam o Bolero de Ravel, numa harmonia periclitante. Não desistem, estão juntas e tornam-se um bloco que, ao seu ritmo, se arremete na nossa direcção sem nunca se tornar ameaçador. No início, a Mónica Calle tinha explicado a quem estava sentado que este espectáculo começou a ser desenhado numa altura de mudança profunda, quando ficou entregue a perguntas como estas: "Como é que se recomeça? Como é que se continua?". As mesmas inquietações podiam sair das bocas de Olga, Maria e Irina, as três irmãs (como Tchekhov, o ponto de partida) de E se elas fossem para Moscou? Quando as conhecemos, há uma festa prestes a começar. A mais nova das irmãs tem planos de mudança ainda por estragar. A irmã do meio tem planos de mudança que, na verdade, são planos de fuga. A mais velha já sabe que os planos, mesmo os infalíveis, são difíceis de concretizar. A festa começa e termina, e por esta altura já tínhamos ouvido dizer, acerca disto tudo, que "É como se a gente estivesse na beira do trampolim de uma piscina e a água em baixo, azul, cristalina, brilhando, e o passado em fila empurrando a gente pra frente e, ao mesmo tempo, segurando o salto. E, depois do salto, um longo tempo no ar, e os minutos que parecem ser eternos, porque mudar é como morrer um pouco, a gente nunca mais vai ser o mesmo." 

 

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Mesmo quando vêm à boleia de uma sensação de alívio, voluntárias ou involuntárias, as mudanças nunca são confortáveis. O síndroma de Estocolmo recorda-nos disso, se quisermos chegar a um extremo. Mas basta pensar num corte de cabelo. Pode transformar-se num sismo de réplicas imparáveis - mesmo que a reversibilidade esteja no horizonte. Mudamos sempre um pedacinho em todas as decisões que tomamos. Mas também permanecemos. Deixei de ser jornalista. Já tinha acontecido, portanto desta vez posso dizer que deixei de ser jornalista outra vez. Digo deixar de ser, como se conseguíssemos abandonar qualquer coisa que já fomos. Não deixamos de ser netos quando os nossos avós morrem, por exemplo. Ganhamos peso, tornamo-nos diferentes, mas aquelas pessoas que só nos conheceram ou viram antes imaginam-nos magros. Se em plena revolução decidirmos tomar um atalho e correr para casa, deixamos uma parte de nós nos tanques que nem chegamos a ver. Troquei de trabalho e o meu corpo insiste em recuar à memória que formou nos últimos anos. 

 

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Há um momento de silêncio, de serenamento, que só acontece no meu dia quando passeio a cadela à noite. Sei que existe vida no meu prédio mas todos os outros me lembram um cenário de cartão. Se a Maria soprasse como um lobo mau, desmanchar-se-iam em cascata pela rua abaixo. Num desses passeios reparei numa nova placa de uma agência imobiliária - um gentil lembrete de que afinal o mundo não pára por trás daquelas fachadas cartonadas. Vende-se "fantástica loja na Penha de França", descubro segundos depois num anúncio on-line. Está "totalmente remodelada", tem 138 m2 distribuídos por dois pisos com uma casa-de-banho em cada um deles. "Visite e deixe-se levar pelas suas ideias!". Pelo meio, como se fosse apenas um pormenor caricato da cronologia daquele espaço, a frase: "antigo estúdio da Valentim de Carvalho". Começou por ser estúdio RPE - Rádio Produções Europa, faliu, passou a Angel Studio e depois a Angel Studio I quando apareceu um número II lá para os lados de Cabo Ruivo. Nos últimos anos pertenceu, então, à Valentim de Carvalho. Terão passado por lá o José Afonso, o Sérgio Godinho, os Sitiados, os Xutos & Pontapés, a Lena D'Água, o Mário Viegas, os Mler Ife Dada, as Doce. Ou então só algum destes porque não é fácil perceber quem passou pelo estúdio I ou pelo II. Ali, o Rui Veloso gravou o primeiro álbum, e os Mind da Gap também - numa entrevista recente falaram desse estúdio "mais pequenino e localizado numa zona que era tipo um bairro". Mais arrebatador ainda: em 1982 ainda não tinha nascido; não sabia, portanto, que algumas décadas mais tarde, ia acabar a viver naquela rua, algumas portas ao lado do estúdio onde, entre a Primavera e o Verão desse ano, nascia um monumento. Entre Março e Setembro de 1982, neste estúdio que eu não consigo ver, escondido atrás de uma montra e disfarçado de loja à venda, o Fausto gravou o Por Este Rio Acima - outro gentil lembrete de que atrás destas fachadas o mundo não se cristaliza mesmo. Num prédio ao lado do meu foi burilado um monumento ao prodígio. Suspiro e até a cadela se esquece de ladrar em protesto pela espera. O estúdio que testemunhou o milagre já não é um estúdio mas antes um espaço "perfeito para negócios em open space, exposições ou até mesmo armazenamento" por 130 mil euros.

 

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Este ano, no vinte e cinco de Abril, a minha avó desceu a Avenida da Liberdade comigo. Ambos pela primeira vez, ainda que pelo passeio. Sorrimos com os sorrisos de desfrute de quem toma posse da boulevard larga, comprida, onde caberiam mais, mais comprida e larga fosse. Empurrámos o carrinho onde seguia a minha filha, nos seus dois anos acabados de cumprir, distraída com a multidão que lhe passava a correr pela frente. Comprámos cravos encarnados em frente ao centro de trabalho do Partido Comunista. Os pés não se trocaram uma única vez.

 

 

[Comecei a escrever um esboço disto há uns três meses mas perdi o fio à meada. Entretanto o corpo começou a enganar-se cada vez menos no caminho, até deixar de se enganar por completo.

Não sei se me devo deslumbrar ou angustiar com esta competência].

 

Amará o seu domador o antigo animal selvagem, hoje animal de circo?

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 (The Lion Queen / Library of Congress)

 

“Amará o seu domador o antigo animal selvagem, hoje animal de circo? Pode ser que sim, mas não é obrigatório. Dependem ambos um do outro, de forma desesperada. Um precisa do outro para se inchar como sapo-rei, ajudado pelas habilidades daquele à luz dos holofotes, e para o Barrabás da música, o outro precisa deste para possuir um ponto de referência no meio do caos generalizado que lhe ofusca o olhar. O animal tem de saber o que fica por cima e o que fica por baixo, senão de repente aparece a fazer o pino. Sem um treinador, o animal estaria condenado a precipitar-se desamparado em queda livre, ou a vagar à deriva no espaço e estralhaçar com dentes, garras e goelas, sem critério, tudo que se lhe cruza no caminho. Porém, assim, há sempre alguma pessoa que lhe diz o que vale a pena fruir. Às vezes, o objecto da fruição é-lhe já servido pré-mastigado ou cortado em bocados. A busca tantas vezes dilacerante de comida é por completo abolida. E com ela a aventura na selva. Porque nesta o leopardo ainda sabe o que é bom para si, e lança-lhe a garra, quer seja antílope ou caçador branco que descurou a guarda. O animal leva agora uma vida de contemplação durante o dia, meditando nas habilidades que tem de executar à noite. Aí, salta através de arcos em chamas, sobe para tamboretes, cerra as mandíbulas com estalido, envolve as gargantas sem as rasgar, executa passos de dança a compasso, com outros animais ou a solo, com animais aos quais se arremeteria à gorja se com eles topasse na estrada aberta da selva, sem trânsito em contrário, ou dos quais fugiria a sete pés se ainda estivesse a tempo. O animal traz uns disfarces amacacados sobre a cabeça ou o dorso. Já outros foram vistos montando cavalos, todos arreados de couro! E o seu amor, o domador, faz estalar o chicote! Ora louva, ora castiga, é o conforme. É conforme o merecimento do animal. Mas nem o domador mais refinado teve algum dia a ideia de enviar para a estrada um leopardo ou uma leoa com uma caixa de violino a tiracolo. Um urso de bicicleta é já o mais extravagante que uma pessoa consegue imaginar.”

 

(A Pianista, Elfriede Jelinek)

Tele-passadismo: os Jogos Sem Fronteiras

 

 

Acabou tudo num bacalhau com natas às nove da manhã. (Na verdade acabou um ano depois, quando Portugal deixou de participar nos Jogos Sem Fronteiras). Mas a noite de Agosto de 1997 em que, pela última vez, uma equipa portuguesa ganhou uma final desse concurso de televisão, terminou já na manhã do dia seguinte com um prato de bacalhau com natas. Nessa noite, uma forte chuvada, seguida de raios e coriscos, fez adiar a gravação do programa e daí a refeição planeada para a meia-noite ter sido transportada para nove horas mais tarde. Esperemos que ainda quente.

Vinte anos depois dessa final, que sagrou campeã a equipa da Amadora, alguns participantes (o treinador, o seleccionador das equipas, dois atletas e o apresentador) regressam ao seu próprio álbum de memórias para falar de um programa que ainda não lhes sai da cabeça. E o mesmo poderiam dizer gerações de portugueses.

 

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No especial do jornal PÚBLICO, há ainda a oportunidade de experimentar um jogo retro inspirado nos Jogos Sem Fronteiras chamado "Em Busca do Joker" (obra do Miguel Cabral) e folhear o manual desta final de 1997.

 

Ficar na vida

 

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"Não morrer. Sobretudo, não morrer. Ficar na vida. Estar face a um médico que profere o diagnóstico com ternura cuidadosa, como um Tirésias no início da tragédia, e confirmar que estávamos certos de todas as vezes que dissemos que as coisas fundamentais da vida são invisíveis. Estávamos certos mesmo quando duvidávamos do que dizíamos porque duvidamos sempre do que dizemos, e sabemos que o silêncio entre cada palavra que proferimos não se chama silêncio, o seu nome é dúvida. Na dúvida, ficar na vida. Perante a ideia da morte, reafirmar a razão pela qual participamos da vida: o mistério do futuro. Saber negar os amáveis convites da morte, que nos indica um lugar onde nos sentarmos esperando que o mundo venha ter connosco, que nos pede que aceitemos o mundo tal como ele é, incondicionalmente, enquanto aguardamos a hora da morte, com a impotência dos vencidos. Recusar a morte e ir ter com o mundo, ser nómada, descobrir o que se esconde para lá da montanha, viajar até ao outro lado da noite. Talvez até transformar uma ínfima parte desse mundo, ou nunca chegar a consegui-lo. Ser vencido, talvez, mas vencido pela vida. E, sobretudo, não morrer. Saber que a ideia da morte está connosco, no espaço exíguo do consultório médico quando Tirésias profetiza o terror, sentir que os cotovelos da morte roçam os nossos cotovelos, e ainda assim ficar na vida porque só quem está na vida pode imaginar as deambulações da morte e traduzi-las numa história que sirva para a vida. Isso: escrever ou ler sobre os nossos inimigos, fazer ou ver teatro sobre as formas de morte que nos assombram, mas nunca engrossar as fileiras do conformismo mortal. E tudo isto poderá parecer uma colecção de grandes ideias, vagamente poéticas, destinadas a tranquilizar a consciência ou animar os espíritos, mas quem escolhe ficar na vida saber que isto é algo de tão concreto como o som das cigarras, num dia de Verão. É, sobretudo, não morrer. Saborear a deliciosa dificuldade de ficar na vida, nos tempos difíceis e também nos outros, mas nunca nos tempos fáceis, porque sabemos bem que os tempos fáceis não existem. E sempre que nos disserem que este é o mundo possível, saber que é a morte quem nos fala, e que nós somos os outros, os que a combatem. Por isso é preciso preservar os lugares públicos e os lugares clandestinos onde podemos ficar na vida. É preciso preservar os momentos em que nos dedicamos aos mistérios, em que nos encontramos e dizemos: aqui estamos, talvez poucos, mas certos de que, perante a perspectiva da morte, escolhemos ficar na vida. E sussurrar em vez de gritar, recusar o ruído do mundo, escutar a respiração que emerge do silêncio e que sempre esteve lá, mesmo quando não a queríamos ouvir. Preservar os lugares onde podemos ouvir o vento, o sopro do pensamento, o espírito do lugar, o momento breve e irrepetível em que nos vemos pela primeira vez. E, sobretudo, não morrer."

 

(Sopro, Tiago Rodrigues)

Essa coisa de as noites estarem cada vez mais brancas e cada vez menos amarelas

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O ecrã da televisão iluminava-nos de espanto. Lembro-me bem desse espanto. Lembro-me do espanto na minha cara como se me tivesse visto ao espelho. Era igual ao espanto do primeiro homem ou da primeira mulher que ouviu um papagaio a devolver-lhe de forma estridente aquilo que tinha acabado de dizer. No ecrã um homem pegava numa moeda, colocava-a na língua, que tinha posto fora da boca de propósito, e engolia-a. Aquele era o primeiro nível de espanto. A barriga dele começava a ondular e essas vagas ventrais só terminavam quando a moeda voltava a surgir-lhe na língua, regurgitada. Ainda a recuperar da entrada no segundo nível de espanto, ele agarrava numa lâmpada e engolia-a de um trago. As ondas regressavam-lhe ao ventre e olhávamos para esses movimentos mesmerizados, até sermos interrompidos pela imagem do globo a sair intacto da boca do homem. O programa era emitido em directo, os planos não tinham cortes em momentos suspeitos, não havia como duvidar. Naquela idade era muito difícil pôr em causa a televisão como fonte de verdade. Era nessa altura que ele agarrava num peixe dourado, igual aquele que nadava às voltas no aquário da nossa sala, e fazia com ele o mesmo que há uns minutos tinha feito com a moeda e com a lâmpada. Sorvia-o, ruidosamente porque os sons eram uma peça essencial naquela encenação, e enquanto acompanhávamos o ondular da barriga, conseguíamos imaginar o peixinho dourado a nadar imperturbável pelo sistema digestivo - estômago, esófago, faringe e boca, como tinha aprendido na escola - até aparecer novamente no ecrã.

 

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Os dias de aniversário, e por contágio as semanas que os antecedem e sucedem, são períodos de angústia. Podemos escapar aos coros de parabéns e às felicitações bem-intencionadas, podemos até ser bem sucedidos na ilusão da passagem dos meses - encavalitados em anos - ignorando qualquer vestígio de envelhecimento que tenha irrompido da noite para o dia no nosso corpo. Mas não nos convencemos de que é só mais um dia. Não é. É mais um dia, sem substantivos redutores. O problema está precisamente na inflexão que decidimos aplicar ao enunciado. É mais um dia que nos recorda da passagem de outros trezentos e sessenta e cinco (e de trezentos e sessenta e seis em anos ainda menos afortunados). Ou de mais setecentos e trinta dias, se entrarmos na vertigem das adições. São milhares de dias e em cada um deles vamos perdendo, a pouco e pouco, o júbilo das primeiras vezes.

 

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Isto tem tudo a ver com essa coisa de as noites estarem cada vez mais brancas e cada vez menos amareladas, depois de terem ficado amareladas e tendencialmente menos escuras, e isto já depois de as noites aindam serem de noite. Foi já numa destas noites esbranquiçadas, arrefecidas em tons de LED, que as vi entrar no meu autocarro. Traziam nas mãos dois daqueles calendários do advento que se vendem em qualquer supermercado. Eram irmãs, ou comportavam-se como tal. Não teriam mais do que sete, oito anos. Abriam descaradas os orifícios onde se escondiam os chocolates, engoliam os dias a galope, e o Natal aproximava-se a cada dentada sem se importarem com o facto de ainda estarmos nos primeiros dias de Novembro. Lembrei-me do pasmo dos adultos quando percebem que uma criança pequena, daquelas a quem até há poucos dias chamavam de bebé, lhes desenha uma cara disforme numa folha de papel. A primeira vez que desenha um rosto, mesmo que de forma tosca, porventura involuntária. Ficamos mais surpreendidos do que eles, as crianças anteriormente conhecidas como bebés. Asseguro-vos. Um lápis ou uma caneta juntam-se a uma folha. Há uma progressão natural, que empurra as garatujas rumo a uma figuração mais precisa, que faz com que os riscos se tornem menos riscos e mais coisas. Surpreendemo-nos porque nos custa compreender como não ficam arrebatados, porque não se deixam contagiar pelo tal júbilo das primeiras vezes. E sem que pudesse dar conta disso, as irmãs já tinham engolido o dia 24 de Dezembro e, no autocarro, tínhamos todos as mãos sujas de candura e de chocolate.

 

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Num zapping descubro uma cara familiar, resgatada a uma qualquer concavidade imemorial. O número é o mesmo, ou assim parece, mas descubro-lhe rugas e sobretudo suor. Talvez tenha apagado este pormenor da minha memória mas o homem que engole peixes dourados sua copiosamente. Descubro que tem um nome - Stevie Starr -, uma nacionalidade - escocês -, que tem mais de cinquenta anos, que continua a engolir coisas e a devolvê-las intactas, que se intitula de "Regurgitador Profissional", que participa em programas de talentos pelo mundo - em várias produções do "Got Talent", desde o Reino Unido à Alemanha, passando pela República Checa e pelos ferozes Estados Unidos -, e que nunca ganhou nenhum deles - na melhor das hipóteses ficou em quarto lugar. Descubro que o programa em França se chama "La France a un incroyable talent". Descubro sobretudo a sudação. Aquilo de que melhor me recordava, ou pensava recordar, sobre esses tempos em que a televisão nos iluminava de espanto e de verdade, era da leveza com que ele, o Stevie Starr, aspirava moedas, lâmpadas, peixinhos dourados e os devolvia como se executar aquilo fosse trivial. Como se não fosse equivalente a ouvir pela primeira vez o nosso eco através de um papagaio. Como se ele o fizesse sem esforço - logo sem suor. Há destas coisas. Perdemos o rasto das primeiras vezes só para percebermos, quase vinte anos mais tarde, que ainda não lhe perdemos a mão.