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Longitudinal

Longitudinal

Ser o Svyato, o John e o pai dele e quem mais estiver do outro lado do espelho

Quando era novo e cumpria a última visita à casa de banho antes de dormir, a negrura dos meus olhos perturbava-me. Pousava a escova, assim que terminava a lavagem dos dentes, olhava-me ao espelho, caindo pelo abismo das pupilas, e estremecia. Os círculos negros pareciam dilatar-se na exacta medida do meu medo, até cobrirem por inteiro a superfície do espelho e transbordarem pelas paredes da casa de banho. Nessa escuridão cabiam todas as fobias - sobretudo o pavor de me tornar um lobisomem. Deitava-me com a visão de duas pupilas sombrias e com o temor do desconhecido que aquele espelho me entregava.

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No fundo de um corredor alumiado por uma janela alta, uma criança de cabelos brancos de tão loiros brinca sozinha, empilha objectos coloridos, brinquedos, sorve ar de uma caneca vazia como se se saciasse com água, gesticula, reproduz gestos e comportamentos que viu fazer ontem ou noutro dia esquecido, fala consigo como se ali estivessem muitos outros, com vozes e registos que se multiplicam. Svyato é o nome deste rapaz que brinca sozinho. No ecrã onde vi tudo isto pela primeira vez, Svyato desfruta de uma realidade que está prestes a perder, mas ainda não o sabe. Durante dois anos, os pais esconderam todos os espelhos da casa da família. O rapaz, que nunca se confrontou com o seu reflexo, vai ter de o fazer daqui a uns minutos quando se levantar e avançar para uma sala ao fundo do corredor onde brincava e se deparar com um espelho e com um miúdo igual a ele. É empolgante, mete medo, é a surpresa de uma vida.

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Outro espelho. Neste caso, um retrovisor como mira, a Hungria como alvo. John Domokos e o pai partem numa viagem de sete dias pelas estradas magiares em busca de apaziguamento. "Tal como muitas famílias, a minha tem estado dividida pela política nos últimos anos", explica John, jornalista e o filho desta história. Depois de ter emigrado para o Reino Unido nos anos 1970, o pai regressou à Hungria em 2009 e tornou-se apoiante do Primeiro-ministro nacionalista Viktor Orbán. "O meu pai adora discutir política e ressentiu-se com o facto de não o poder fazer comigo, porque as suas visões políticas me incomodam." Ainda antes de arrancarem, sentados num sofá diante de uma câmara, o pai confirma: "Temos origens tão diferentes, qualquer coisa que falemos..." O filho interrompe-o. "Não pode ser assim tão diferente. Sou teu filho". 

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Não acredito que o Svyato tenha medo do reflexo que vê ao espelho pela primeira vez. Começa por gesticular. Traz uma vassoura, uma pá. Bate no espelho. Transfere o seu espaço de brincadeira, pedaço a pedaço, para a frente do espelho, aproximando-se da sua cópia. Grita de entusiasmo. Por mais que tente, aquela presença não lhe permite qualquer distração.  Esfrega os olhos. Certifica-se de que continua ali, no espelho mas também na sala. No plano seguinte, o pai (que realiza a curta-metragem) surge também no plano. Svyato dá-lhe um beijo. Vira-se para o espelho e dá um beijo no seu próprio reflexo. Sai. É gradual, mas damos conta de que o Svyato se apercebe de que aquele miúdo loiro também é ele. Não o sinto apreensivo. Na verdade, revela-se intrépido.

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Lembrei-me do pequeno Svyato quando vi a reportagem da road trip húngara entre pai e filho. Sem conseguir decifrar durante algum tempo o caminho que me guiou até esta associação, ensaio agora uma hipótese, com o medo imberbe dos meus próprios olhos implicado pelo meio. Recuo até esse período em que o espelho se revelou uma superfície de incerteza, logo rente aos primeiros olhares, à infância, uma espécie de primeira etapa de iniciação ao medo. Há qualquer coisa de assombroso no reconhecimento de que podemos ser isto mas também aquilo. O que vemos do outro lado da superfície reflectora é tão idêntico mas abismalmente diferente. Penso que o que mais me perturbava na minha metamorfose em lobisomem não era o monstro em que me iria tornar, mas sobretudo o processo. A possibilidade de me transformar em algo que encarava como distante, contrário à minha própria imagem. O reflexo como reverso. Esta coisa de encarar o espelho pode ser uma desilusão tremenda. Ali estamos, a julgar-nos com a distância gélida de quem avalia um outro, de olhar preso na assimetria do rosto mais vincada, numa borbulha como numa contradição, num acto irreflectido como nas costas arqueadas, a conjecturar hipóteses sobre as imperfeições que aquele sujeito transporta, a recear o alheio - até que, finalmente, com um baque, nos reconhecemos nessa outra figura que nos olha com a mesma vigilância impiedosa. Sinto que a empatia tambem se edifica nesses instantes, depois da domesticação do Homem pelo medo, mesmo nas profundezas dos olhos negros de lobisomem.

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John Domokos e o pai vão cruzando o país. Nas conversas que têm um com o outro e com quem se cruzam procuram alcançar a meta não assumida da sua viagem,  trazendo à luz esboços de entendimento entre os dois (e entre um país polarizado que perdeu a capacidade de empatizar). Numa das etapas, após uma manifestação contra uma medida do governo de Orbán, um homem na casa dos vinte anos lamenta "este medo paranóico dos migrantes". O pai de John deixa-o afastar-se para desabafar. "Tive de morder a língua. Não é paranóia, é um perigo real". "Estás com medo?" A pergunta do filho desencadeia a resposta mais cândida do pai ao longo da reportagem: "Estou assustado. Apavorado. 90% das pessoas também está. Os jovens como ele não percebem que o Orbán faz isto porque também está assustado e quer salvar o país. Quanto mais velho ficas, mais medo tens. Os jovens gostam de arriscar, não têm medo. Em parte porque não fazem ideia do que devem temer. Como uma criança de quatro anos, que corre para a estrada porque nem sabe dos carros". Por mais que nos situemos do outro lado de uma fronteira ideológica, a honestidade destas palavras obrigam-nos a olhar de novo para o espelho, ainda que este acabe por nos confirmar as nossas convicções. A encerrar a viagem, John segue o pai até um comício de Viktor Órban. Apertado entre milhares de pessoas das mais diversas idades, que aplaudem o discurso do Primeiro-ministro, repete-nos a ideia que esboçou no início, . "Não somos assim tão diferentes." Soa a início de qualquer coisa, longínqua de qualquer condescendência, numa altura em que, de um lado e do outro do espelho, há quem já não vislumbre qualquer reflexo.

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Quase vinte anos depois, percebi que os meus olhos nem sequer são pretos. São castanhos.

Todos os dias observo a cicatriz que tenho na mão.

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(Repressão policial aos protestos populares na cidade de Gwangju, Coreia do Sul, em Maio de 1980)

 

"Há memórias que nunca saram. Em vez de se esbaterem com a passagem do tempo, essas recordações tornam-se a única coisa que sobra quando tudo o resto se corrói. O mundo escurece, como lâmpadas elétricas, fundindo-se uma a uma. Tenho consciência de que não sou uma pessoa de confiança.

 

Serão os seres humanos fundamentalmente cruéis? Será a experência da crueldade a única coisa que partilhamos enquanto espécie? Não passará a dignidade a que nos agarramos de uma ilusão para disfarçarmos, perante nós mesmos, esta simples verdade: que cada um de nós pode ser reduzido a um inseto, um animal voraz, um pedaço de carne? Que ser aviltado, magoado, esquartejado... é o destino essencial da humanidade, um destino cuja inevitabilidade a História confirmou?

 

Uma vez, na altura da revolta, conheci um tipo que era paraquedista. Contou-me a sua história depois de ouvir a minha. Disse que tinham recebido ordens para esmagar os civis com a máxima violência possível, e os que cometeram atos particularmente brutais receberam prémios de centenas de milhares de won dos superiores. Um dos tipos da sua companhia tinha dito, «Qual é o problema? Se me dão dinheiro e me mandam espancar alguém, porque é que não hei de fazê-lo?»

 

Ouvi outra história de um dos pelotões do exército coreano que combateram no Vietname. Obrigaram as mulheres, as crianças e os velhos de uma aldeia inteira a irem para a casa principal e a seguir deitaram-lhe fogo. Alguns dos que receberam ordens para nos matarem fizeram-no com a memória desses outros tempos, tempos de guerra, quando perpetrar atos desse tipo lhes valera uma bela recompensa. Aconteceu em Gwangju, tal como aconteceu na ilha de Jeju, em kwantung e em Nanjing, na Bósnia e em todo o continente americano quando ainda era conhecido por Novo Mundo, com uma brutalidade tão uniforme que parece estar impressa no nosso código genético.

 

Nunca me esqueço de que cada pessoa que conheço pertence à raça humana. E isso inclui-o a si,  professor, que está a ouvir este testemunho. Tal como me inclui a mim.

 

Todos os dias observo a cicatriz que tenho na mão. Este sítio onde outrora o osso esteve exposto, onde uma secreção esbranquiçada escorria de uma ferida putrefacta. Sempre que vejo uma vulgar esferográfica Monami, fico com a respiração presa na garganta. Espero que o tempo me arraste como água enlameada. Espero que a morte chegue e me limpe, me liberte da memória dessas outras mortes esquálidas que assombram os meus dias e as minhas noites.

 

Luto sozinho, dia após dias. Luto contra o inferno a que sobrevivi. Luto contra a realidade da minha própria humanidade. Luto contra a ideia de que a morte é a única maneira de escapar a essa realidade.

 

Por isto, diga-me, professor, que respostas tem para mim? O senhor, um ser humano como eu."

 

(Atos Humanos, Han Kang, 2014)

 

Pequeno apontamento sobre a história das cores

(Vierge de Xhoris (c. 1030), Museu Grand Curtius, Liège, Bélgica,

provavelmente não é aquela que Pastoureau refere mas é contemporânea )

 

"Ao longo dos séculos, a Virgem passou assim por quase todas as cores, como o demonstra uma surpreendente escultura, esculpida pouco depois do ano 1000 numa bonita madeira de tília e que hoje se conserva no museu de Liège. Como era frequente na época, essa Virgem românica havia primeiro sido pintada de preto. No século XIII, seguindo os cânones da iconografia e da teologia góticas, foi repintada de azul. Depois, no fim do século XVII, a pequena escultura acabou (como tantas outras) por ser «barroquizada», trocando o azul pelo dourado, cor que durante cerca de dois séculos conservou, até ser por fim visitada pelo dogma da Imaculada Conceição, e consequentemente toda pintada de branco (c. 1880). Esta sobreposição de quatro cores sucessivas num milénio de história faz dessa frágil peça um objecto vivo bem como um excepcional documento de história pictórica e simbólica"

(Azul - História de uma Cor, Michel Pastoureau)

 

"Todos os bairros de Lisboa são ordinários"

Panorâmica de Lisboa

Panorâmica de Lisboa [entre 1950 e 1959] / Arquivo Municipal de Lisboa

 

"Todos os bairros de Lisboa são ordinários", frisou, divertido, Afonso. E citou-lhes os nomes: Alfama, Mouria, Bairro Alto, Alcântara... Todos eles bairros ordinários, mas encantadores. Seguiu-se um pequeno discurso sobre a cidade, nada de veramente sensacional, um quotidiano de amoroso, uma síntese  galanteadora, um sentimento de Marialva pela sua Severa endiabrada, tudo muito diluído pela sensação de que nenhum dos presentes podia inteiramente aderir àquele amor pela sua cidade, àquele sentir e ver de coisas muito suas desde sempre, menino bem tratado que viera calcorreando os caminhos tortuosos da Madragoa até descobrir a Avenida, e depois, mais além, a Mouraria prometida à demolição (como já acontecera ao Bairro da Liberdade e decerto aconteceria ao Bairro Alto); mais longe, o Terreiro do Paço, via Algés, ou, da outra banda, à partida de Cacilhas, um outro mundo de encantos, rematado pela Arrábida. Tudo aquilo era Lisboa ou era ainda Lisboa, a capital, a cabeça da Metrópole, o centro das iniciativas, a sede dos Ministérios laboriosos, a colmeia e o enxame, os cabarés provincianos, a irmã-pobre das capitais europeias - mas quanto sol, quanta amenidade! Uns toques, aqui e ali, do mito europeu, tão dispersos que quase inexistentes se tornavam... E a torturada Lisboa fadista, a burguesíssima Lisboa das canções importadas, a pseudo-aristocratíssima Lisboa do Chiado-acima-e-abaixo, a milagrosa sobrevivência da arte maldita nos cafés caricaturais e nos teatros a cair de podres...

 

Conforme as propostas de perguntas apresentadas, falou-se ainda (ou falou Afonso) da Lisboa manuelina, a da arte burguesa enriquecida, e da Lisboa pombalina, passando pelo Aqueduto das Águas Livres, num percurso que vinha de Belém por Campolide, até à Baixa Comercial, populosa como um formigueiro e exacta como os ideais do senhor Marquês. Abordou-se o caso popular de Lisboa, independente das manifestações desportivas - coisa que nenhum dos presentes ainda tinha descoberto. Algo no género dos balõezinhos de Santo António e do Mercado da Ribeira, noites de festa na praça da Figueira e altarinhos em Alfama, tiros no Parque Mayer e cinemas de bairro..."

 

(A Gata e a Fábula, Fernanda Botelho, 1959)

quem pode o amor?

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(Alex Gozblau)

 

          "Se atentarmos na estrutura peculiar do acontecimento da vida, isto é, na forma como ela se dá, verificamos que a metáfora mais adequada para a descrever é a do teatro, cada sujeito habitando o palco, fazendo escolhas, improvisando perante a plateia, estruturalmente condenado a produzir uma versão de si a haver capaz de ser o norte magnético pelo qual orienta o futuro, e tudo isto perante uma plateia, uma plateia composta de gradações de importância, aqueles que estão mais perto do sujeito ocupam os lugares da frente, os pais, os amantes, os filhos, todos quantos de um modo pervasivo contribuem para a definição de identidade do sujeito, sendo as filas seguintes ocupadas por sujeitos cuja  importância é inversamente proporcional à distância do palco até uma zona obscura onde se sentam aqueles que não conhecemos, e se aprofundarmos esta análise preliminar, damos conta que a a estrutura da plateia condiciona os lugares ocupados pelos sujeitos e não o inverso, ou seja, é a tensão afectiva do sujeito da peça perante cada um dos espectadores que determina a fila e a cadeira que cada um deles vai ocupar, e esta relação não é bidireccional, isto é, um sujeito sentado na primeira fila não tem necessariamente de retribuir o actor daquela peça com um lugar equivalente na sua plateia, na sua peça, porque cada espectador é, em simultâneo, actor, sem com isso haver qualquer distúrbio de identidade, porque cada sujeito executa-se, em cada momento, numa panóplia de funções à qual preside sempre uma identidade indivisa.

 

          Ora como é fácil imaginar, esta peça tem a duração da vida, pelo que a possibilidade de irem entrando e saindo espectadores durante o espectáculo não só tem de ser contemplada como parece ser uma característica originária e indispensável da estrutura deste acontecimento, há pessoas que morrem, pessoas que nascem, pessoas que de repente aparecem com uma intensidade tal que acabam por sentar-se directamente na primeira fila, ora num lugar vazio ora expulsando alguém que vê a sua gradação de importância subitamente diminuída pela aparição de um sujeito capaz de desapossá-lo do lugar que ocupava na vida do actor, e isto acontece em permanência, este corrupio de entradas, de saídas, de troca de lugares, de promoção ou despromoção, é o sujeito da peça quem decide, em cada momento, a atribuição dos lugares, e estes são limitados, a plateia não é infinita, o sujeito não parece ter a capacidade, inata ou adquirida, de alargar a plateia à sua vontade, o orgão que rege a afectividade tem limites, ainda que difusos e imprecisos, e o sujeito está, de algum modo, condenado a jogar com o que há.

 

          E o que há, lamentavelmente, também é finito, há pessoas insubstituíveis, pensem nos vossos pais, por exemplo, há pessoas cuja perda desencadeia uma debandada geral na plateia, e o sujeito fica de repente obrigado a continuar a representação perante uma assistência diminuta, as filas da frente desocupadas, a identidade do actor

 

          que se funda arquimedicamente sobre o fenómeno de actuar para uma plateia, sendo esta plateia, como já vimos, uma quota-parte estrutural e constitutiva daquilo que ele é, amputada pela ausência, o sentido da vida subitamente coactado pela indefinição, para onde vou, para quê, e, sobretudo, para quem, como popular novamente esta extensão territorial em redor do umbigo a que chamamos comummente esfera afectiva, quem pode brilhar de tal modo intensamente na plateia que faz convergir para si todo o âmbito da actuação, quem pode o amor?"

 

 

(Cair para dentro, Valério Romão)

Por quanto tempo pode um prédio continuar a subir?

 

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Hora de almoço e uma mesa corrida à volta da qual se plantam tupperwares e janelas rasgadas para uma rua de segunda ordem onde um prédio começa a subir e as vozes de dentro se misturam com as de fora e os talheres com as picaretas e um plim do microondas comunica que o almoço está pronto pela segunda vez e à nossa volta alguém engole "feijão com arroz como se fosse o máximo" e bebe e soluça "como se fosse máquina" e no dia seguinte o prédio que já foi apenas uma cova na esquina de uma rua de segunda ordem com uma rua de terceira ordem continua na mesma e duas semanas depois, ou foi um dia apenas?, já vemos mais um ou dois pisos e pensamos na rapidez com que eles fazem isto e na velocidade com que afinal o mundo se reveste e em como muitas coisas começam afinal por ser um buraco aberto no meio de uma rua, no mesmo sítio onde nos lembramos de ter visto outro prédio qualquer há uns bons anos, e vai mais uma garfada de empadão e vai mais um naco de carne reaquecido e o ruído das obras não é assim tão diferente do de uma pessoa que se entrega à dádiva da fala como um cão se lança sobre um saco de broas e o prédio continua a subir e  mesmo que tenham passado meses parece que ele segue veloz a trepar quando na verdade se arrasta a conta-gotas rumo às nuvens como uma estalagmite de betão e vigas e mãos e andaimes e dureza e capacetes coloridos e de uma fadiga que roça a abnegação e de outras mãos ainda e de indiferença e berros que desabam do sexto piso até ao passeio e outro plim devolve-nos ao prazer singelo da segunda refeição mais importante do dia e, ao passo que deglutimos, a cidade continua a bolçar das suas entranhas mais um piso de um prédio que parece acariciar os céus mais do que arranhá-los e praticamente ouvimos o seu roçagar nessa penugem nubígena que dos homens primordiais ao Astérix nos assombra de livre vontade e no entremeio do palavreado de circunstância e das garfadas de bacalhau com natas e pescada cozida com todos há mais um patamar rumo à vizinhança entre o solo e os anjinhos e o prédio está ainda mais altaneiro e vem mais um plim e depois