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Longitudinal

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Uma casa #2

Vizinhos

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Descobri os vizinhos depois dos trinta. Antes disso eram apenas nomes como fronteiras ou entidades como fantasmas. O terreno do senhor Cesário, acolá atrás do muro, onde aterravam bolas e G.I. Joes de pára-quedas. Aquela nespereira, de tronco fincado no terreno de outra vizinha, que fazia pender generosos ramos sobre o nosso quintal - e eu nunca gostei de nêsperas. Anos mais tarde, um baldio de ervas altas de um lado, a estrada nacional à frente, a residência sazonal de uns primos do outro lado, e uma parede mal caiada para além da qual se adivinhava a presença revezada de uma família humana e de uma vara de porcos. Vivi mais de um ano num prédio em Lisboa sem ter trocado uma só palavra com outra pessoa que lá morasse. Um dia abri a porta de casa distraído e vi um galgo afegão, de pêlo sedosamento sobranceiro, de olhos postos em mim. Não havia qualquer pessoa ao lado, o cão era o seu próprio dono, sem trelas. Fechei a porta num ápice, rendido à superioridade daquele olhar, sobretudo surpreendido por ter um cão como vizinho. A vizinhança que descobri depois dos trinta não é feita de cães, nem de pessoas, nem daquela pitada de sal de que precisamos de vez em quando, nem se sossega com uns bons dias trocados nos degraus das escadas. Pelo menos, não só disso.

Comecei a pensar nesta vizinhança na mesma altura em que, a propósito de um trabalho sobre os 150 anos da Estação de Santa Apolónia, andei às voltas por aquela área. Numa conversa inicial com uma trabalhadora da (então) CP, ouvia-a referir-se àqueles que viviam paredes meias com a estação como "os confinantes". A palavra fez-se ouvir de uma forma especial, desconfiei dela graças à noção de encerramento que o verbo confinar contém. Como desconfio de quem cola autocolantes amarelos na caixa de correio a rejeitar publicidade não endereçada. Mas bastou avançar por uns degraus, sondando outros pisos, tal como devemos proceder com as palavras, para chegar ao significado que essa pessoa lhe atribuía. A estação e as pessoas que vivem, trabalham, dançam à sua volta são vizinhos porque partilham os mesmos limites. As paredes pertencem a quem se esconde no seu interior ou a quem quer passar despercebido lá fora, do outro lado? E qual é mesmo o outro lado? Partilhar limites parece-me meio caminho andado para deixar de os estabelecer - e ainda bem.

Se digo que descobri os vizinhos depois dos trinta, digo também que me descobri como vizinho por essa altura. Lentamente passei a encarar a vizinhança como um corpo único, cuja organicidade se sentia em pequenos rituais. A imagem que reproduzo aqui, no topo do texto, é um exemplo disso. Quando estendia a roupa e, por distração ou aselhice, me escapavam algumas peças de vestuário para o quintal do rés-do-chão, sabia que mais tarde ou mais cedo, elas iriam aparecer à minha porta. O vizinho do primeiro andar fazia questão de as resgatar (como foi o caso daquela meia) e devolver ao puxador da nossa porta, a par das molas igualmente caídas. Outro episódio: há uns anos, pouco depois de ter sido pai pela primeira vez, percorria os corredores do supermercado do bairro quando uma senhora parecida com a minha avó decide interromper o meu alheamento. Perguntou pela mãe da bebé, pela bebé, pelo nome que lhe tínhamos dado e sorriu. "Sabe, é que eu fui acompanhando a gravidez..." Nunca tínhamos falado, não me lembro de até aquele momento a ter olhado tempo suficiente para me recordar da sua cara. No entanto ela lá estava, na janela do rés-do-chão do prédio em frente, e tinha visto uma barriga crescer com o entusiasmo de quem já descobriu o que é isto de ser vizinho há muito tempo. Nessa altura eu ainda estava a descobri-lo.

No último dia de mudanças de uma casa para outra, cruzei-me com uma moradora recente no meu antigo bairro. Tinha decidido abrir um café num espaço que já tinha sido uma padaria. Reuniu durante meses o material necessário, foi compondo peça a peça o seu negócio, vi-a a chegar sozinha tantas vezes, já a noite estava instalada, com caixas, electrodomésticos,  num esforço ruidoso que contrastava com a quietude daquelas ruas. Cruzei-me com ela a meio do segundo dia de portas abertas e anunciou-me que ia desistir. Aquela rua "só tinha velhos que passavam o dia enfiados à janela a olhar cá para baixo".  A descrição correspondia integralmente à realidade. Contudo aquilo que para ela foi um desabafo, que justificava o falhanço da sua empreitada, era para mim a ilustração perfeita dos confinantes daquela rua, dos meus vizinhos, do seu papel naquele organismo. Cada par de olhos a espreitar pelas janela. Este ano mudei-me para outra rua, a um quilómetro em linha recta daquela outra. Os meus vizinhos continuam lá, não os subtraio. Na minha nova rua, às janelas vejo imensos gatos, deitados em tronos com espaldares de sisal, onde afiam as garras enquanto me fitam com o mesmo olhar do tal galgo afegão, que era meu vizinho sem eu saber. Nesta nova casa, os felinos são a minha primeira vizinhança.

 

Caminhar em bicos dos pés sobre minas terrestres

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"Estou a escrever estas palavras, porque não confio no tempo. Eu, Harriet Burden, também apelidada de Harry pelos amigos mais antigos e uns quantos novos amigos seletos, tenho sessenta e dois anos, portanto não sou propriamente um dinossauro, mas estou mais do que a caminho do Fim, e ainda me resta muito a fazer antes que se descubra que, afinal, uma das minhas dores é um tumor, ou que o não me lembrar de uma palavra é um principio de demência, ou antes que um camião desgovernado galgue o passeio e me esborrache contra a parede, deixando-me sem ar para todo o sempre. A vida é caminhar em bicos dos pés sobre minas terrestres. Nunca sabemos o que temos pela frente e, se querem a minha opinião, também não dominamos o que deixámos para trás. Mas uma coisa que sabemos fazer muito bem é contar a versão que melhor nos convém e dar cabo da cabeça a tentar que bata certo."

(O Mundo Ardente, Siri Hustvedt, 2014)
 

Uma casa #1

Casas vivas

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A minha casa mudou de sítio. Fez-se pesada antes de entrar numa carrinha de mudanças, despediu-se das paredes onde viveu oito anos, subiu aos bocados para um terceiro andar e tem passado os últimos dias a instalar-se, com o caprichoso vagar de um felino. Esconde no fundo de sacos e caixotes objectos cujo paradeiro não tem vontade de denunciar. Amontoa-se como pode junto às paredes, encolhe quartos quando se espreguiça, tem de ser desbastada. Tem de ser domada. Esta casa, como as casas em geral, tem uma cartilha, que não depende das quatro paredes em que a fecham. Demora a aceitar novas coordenadas geográficas. Podemos respeitar as suas delongas mas se as não vigiarmos encontram forma de ganhar terreno, sorrateiras, caseiras como as casas podem ser. A minha casa, ainda mal refeita da mudança, permanece (em parte) encerrada em caixotes que aguardam o seu momento de liberdade. Enquanto espera, vai espreitando o prédio em frente, sobretudo aquela janela de estores esquecidos, onde descobre todos os dias a casa que poderia ser, se tivesse a liberdade de se espraiar como sonha.

 

"Precisamos de luz porque está muito frio"

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Falam-me amiúde da possibilidade de um novo olhar que os filhos nos concedem. Há quem consiga redescobrir o mundo, contemplá-lo de outra forma, próxima da mirada de uma primeira vez. Reconheço o inesperado fulgor que esses descobrimentos iniciais são capazes de revelar, ainda que por empréstimo. Já senti essa comoção através da minha filha mais velha. Mas não me consigo entregar por completo a esse maravilhamento. Há um ano, antes de um espectáculo de teatro, ouvi alguém a aconselhar outros pais a não passarem o tempo a descrever tudo o que se passava em cena. "Eles estão a ver o mesmo que vocês e até coisas que vocês não estão a ver", disseram. O olhar é o dela, procuro não me intrometer nesse processo.

No meu caso, encontrei esse sentido de redescoberta do mundo através de outro processo. Na verdade, mais do que voltar a descobrir, senti-o como um reorganizar do mundo. Refiro-me às palavras, não à sua entrada em cena, tímida, mas ao período em que o vocabulário se adensa na cabeça de uma criança, estimulada por uma delirante desordem e inquietação. 

À nossa frente, um homem passa a correr numa passadeira. "Aquele senhor está a correr?", pergunta-me. "Sim, está." "Porquê?" "Deve estar com pressa", respondo. "O que é estar com pressa?" Vejamos, poderia explicar simplesmente que é estar atrasado para um encontro ou ter muita vontade de chegar a algum sítio. E a partir daí, desdobrar-me em respostas sobre o que é estar atrasado ou ter vontade, ou ainda sobre o que é não chegar à hora que combinamos ou querer muito uma coisa. Pressenti em simultâneo as incontáveis possibilidades e a inevitabilidade de, ainda assim, acabar por lhe subtrair informação.

O que me sobressaltou neste processo não foi a urgência de encontrar vocabulário simplificado para explicar conceitos do quotidiano a uma criança de três anos. Por enquanto, a primeira explicação pareceu bastar-lhe. Mas naquele instante, senti-me incapaz de lhe dar uma visão completa do mundo, imune à fragmentação. Foi um abalo, que entendi como uma revelação sobre a dificuldade de entender tudo isto. Sobretudo sobre a provável (e sublinho provável) ineficácia de as palavras para a nossa salvação como sempre confiei. Mesmo estando na posição segura de um adulto, que se propõe ensinar alguma coisa a uma criança cuja ligeireza com que usa as palavras é a mesma com que molda a plasticina.

Tantas outras vezes, antes e depois do episódio anterior, já me equivoquei. Cometi o tal erro de lhe descrever coisas que estavam a acontecer diante dos seus olhos. Já fui demasiado infantil em explicações. Já elaborei excessivamente, como se ela fosse um adulto. Tateio as palavras como se estivéssemos ambos às escuras, à procura de um conjunto de letras preciso, e qualquer excesso nos pudesse ofuscar. A verdade é que acabo sempre desprevenido. Como quando lhe ouço uma frase como "Precisamos de luz porque está muito frio" e me delicio com a claridade desta imagem que brota de um erro. Mas será que o posso chamar de erro?

No outro dia, ouvi a conversa da Inês Meneses com o  André Tecedeiro no "Fala com Ela", que começava com o próprio a esclarecer por que demorou três décadas até conseguir traduzir o desconforto que sentia, e que o levou à mudança de género. "Eu não sabia dar um nome, porque não tinha vocabulário", afirma no início. "Pensamos o mundo com base na linguagem que temos", complementa já no final da entrevista. Neste percurso de reordenamento, que passa pela adaptação da linguagem usada para se referir a si mesmo, o filho também o ensinou. "Não vais deixar de ser minha mãe", disse-lhe. Chama-o de mãe mas trata-o no masculino. "É uma gramática moderna, digamos".

Afinal, regresso comprometido às palavras, nesta fase em que a minha filha mais velha as usa sem parar, sem pensar, sem digerir. Enquanto as devolve após as ouvir de relance, no mais puro roubo por esticão, enquanto as imprime de sentidos, generosa, ingénua e desarmante. Numa manhã de um destes dias: "Encontrei uma migalha", aponta na direcção do rosto dela. "Onde?" "Nos olhos." "Ah, então é uma remela." Acabo sempre por me render às palavras.

Grandes esperanças

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Todas as semanas há milhões de pessoas a falhar o alvo milionário. Porventura porque tantos outros milhões de pessoas passam os dias a fazer figas, desejando para si os números afortunados e não para o camarada da frente, que também fez uma aposta automática para os sorteios de terça e sexta-feira. O feitiço a virar costas aos feiticeiros.

"Já jogou no Euromilhões?", perguntou-me de sorriso cândido a partir do banco da frente do táxi. Falou-me desses milhões que se vão acumulando todas as semanas, até alguém escapar às pragas rogadas pelos milhões que torcem a ponta dos dedos pela derrota alheia, uma multidão de dedos quase necrosados por tanto ansiar roubar aos outros a experiência táctil de revolver os milhões nos bolsos. Mas ele falava-me dos milhões com a franqueza de quem acredita realmente na hipótese de os sentir no bolso coçado das calças que trazia vestido.

Se ganhasse o Euromilhões, reformava-se. Aliás, despedia-se e aguardava a idade de acesso à reforma, para não sofrer penalizações. Mesmo com os milhões já a pesarem-lhe no bolso. Lembrei-me das extravagâncias de anteriores vencedores, com os seus carros topo de gama, a vida sem bolsos onde guardar milhões porque os milhões parecem levitar e transformam os sonhos em matéria.

Ele interrompeu-me. "Depois ia ali para Alcântara com a minha cana de pesca, lá para ao pé dos outros." Disse-o com o mais natural dos modos. Não soube dar crédito ao sonho deste milionário vindouro. Com efeito, ficar por Alcântara com tantos milhões não seria pouco ambicioso? "Pois, talvez fosse para Peniche. Dizem que por lá já se apanha peixe maior."

Esta semana, está em jogo um Jackpot de aproximadamente 150 milhões.  Quantas canas de pesca podemos comprar com esta soma? E o tempo para pescar, quanto custa?

 

Ser o Svyato, o John e o pai dele e quem mais estiver do outro lado do espelho

Quando era novo e cumpria a última visita à casa de banho antes de dormir, a negrura dos meus olhos perturbava-me. Pousava a escova, assim que terminava a lavagem dos dentes, olhava-me ao espelho, caindo pelo abismo das pupilas, e estremecia. Os círculos negros pareciam dilatar-se na exacta medida do meu medo, até cobrirem por inteiro a superfície do espelho e transbordarem pelas paredes da casa de banho. Nessa escuridão cabiam todas as fobias - sobretudo o pavor de me tornar um lobisomem. Deitava-me com a visão de duas pupilas sombrias e com o temor do desconhecido que aquele espelho me entregava.

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No fundo de um corredor alumiado por uma janela alta, uma criança de cabelos brancos de tão loiros brinca sozinha, empilha objectos coloridos, brinquedos, sorve ar de uma caneca vazia como se se saciasse com água, gesticula, reproduz gestos e comportamentos que viu fazer ontem ou noutro dia esquecido, fala consigo como se ali estivessem muitos outros, com vozes e registos que se multiplicam. Svyato é o nome deste rapaz que brinca sozinho. No ecrã onde vi tudo isto pela primeira vez, Svyato desfruta de uma realidade que está prestes a perder, mas ainda não o sabe. Durante dois anos, os pais esconderam todos os espelhos da casa da família. O rapaz, que nunca se confrontou com o seu reflexo, vai ter de o fazer daqui a uns minutos quando se levantar e avançar para uma sala ao fundo do corredor onde brincava e se deparar com um espelho e com um miúdo igual a ele. É empolgante, mete medo, é a surpresa de uma vida.

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Outro espelho. Neste caso, um retrovisor como mira, a Hungria como alvo. John Domokos e o pai partem numa viagem de sete dias pelas estradas magiares em busca de apaziguamento. "Tal como muitas famílias, a minha tem estado dividida pela política nos últimos anos", explica John, jornalista e o filho desta história. Depois de ter emigrado para o Reino Unido nos anos 1970, o pai regressou à Hungria em 2009 e tornou-se apoiante do Primeiro-ministro nacionalista Viktor Orbán. "O meu pai adora discutir política e ressentiu-se com o facto de não o poder fazer comigo, porque as suas visões políticas me incomodam." Ainda antes de arrancarem, sentados num sofá diante de uma câmara, o pai confirma: "Temos origens tão diferentes, qualquer coisa que falemos..." O filho interrompe-o. "Não pode ser assim tão diferente. Sou teu filho". 

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Não acredito que o Svyato tenha medo do reflexo que vê ao espelho pela primeira vez. Começa por gesticular. Traz uma vassoura, uma pá. Bate no espelho. Transfere o seu espaço de brincadeira, pedaço a pedaço, para a frente do espelho, aproximando-se da sua cópia. Grita de entusiasmo. Por mais que tente, aquela presença não lhe permite qualquer distração.  Esfrega os olhos. Certifica-se de que continua ali, no espelho mas também na sala. No plano seguinte, o pai (que realiza a curta-metragem) surge também no plano. Svyato dá-lhe um beijo. Vira-se para o espelho e dá um beijo no seu próprio reflexo. Sai. É gradual, mas damos conta de que o Svyato se apercebe de que aquele miúdo loiro também é ele. Não o sinto apreensivo. Na verdade, revela-se intrépido.

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Lembrei-me do pequeno Svyato quando vi a reportagem da road trip húngara entre pai e filho. Sem conseguir decifrar durante algum tempo o caminho que me guiou até esta associação, ensaio agora uma hipótese, com o medo imberbe dos meus próprios olhos implicado pelo meio. Recuo até esse período em que o espelho se revelou uma superfície de incerteza, logo rente aos primeiros olhares, à infância, uma espécie de primeira etapa de iniciação ao medo. Há qualquer coisa de assombroso no reconhecimento de que podemos ser isto mas também aquilo. O que vemos do outro lado da superfície reflectora é tão idêntico mas abismalmente diferente. Penso que o que mais me perturbava na minha metamorfose em lobisomem não era o monstro em que me iria tornar, mas sobretudo o processo. A possibilidade de me transformar em algo que encarava como distante, contrário à minha própria imagem. O reflexo como reverso. Esta coisa de encarar o espelho pode ser uma desilusão tremenda. Ali estamos, a julgar-nos com a distância gélida de quem avalia um outro, de olhar preso na assimetria do rosto mais vincada, numa borbulha como numa contradição, num acto irreflectido como nas costas arqueadas, a conjecturar hipóteses sobre as imperfeições que aquele sujeito transporta, a recear o alheio - até que, finalmente, com um baque, nos reconhecemos nessa outra figura que nos olha com a mesma vigilância impiedosa. Sinto que a empatia tambem se edifica nesses instantes, depois da domesticação do Homem pelo medo, mesmo nas profundezas dos olhos negros de lobisomem.

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John Domokos e o pai vão cruzando o país. Nas conversas que têm um com o outro e com quem se cruzam procuram alcançar a meta não assumida da sua viagem,  trazendo à luz esboços de entendimento entre os dois (e entre um país polarizado que perdeu a capacidade de empatizar). Numa das etapas, após uma manifestação contra uma medida do governo de Orbán, um homem na casa dos vinte anos lamenta "este medo paranóico dos migrantes". O pai de John deixa-o afastar-se para desabafar. "Tive de morder a língua. Não é paranóia, é um perigo real". "Estás com medo?" A pergunta do filho desencadeia a resposta mais cândida do pai ao longo da reportagem: "Estou assustado. Apavorado. 90% das pessoas também está. Os jovens como ele não percebem que o Orbán faz isto porque também está assustado e quer salvar o país. Quanto mais velho ficas, mais medo tens. Os jovens gostam de arriscar, não têm medo. Em parte porque não fazem ideia do que devem temer. Como uma criança de quatro anos, que corre para a estrada porque nem sabe dos carros". Por mais que nos situemos do outro lado de uma fronteira ideológica, a honestidade destas palavras obrigam-nos a olhar de novo para o espelho, ainda que este acabe por nos confirmar as nossas convicções. A encerrar a viagem, John segue o pai até um comício de Viktor Órban. Apertado entre milhares de pessoas das mais diversas idades, que aplaudem o discurso do Primeiro-ministro, repete-nos a ideia que esboçou no início, . "Não somos assim tão diferentes." Soa a início de qualquer coisa, longínqua de qualquer condescendência, numa altura em que, de um lado e do outro do espelho, há quem já não vislumbre qualquer reflexo.

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Quase vinte anos depois, percebi que os meus olhos nem sequer são pretos. São castanhos.