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Longitudinal

Conversas em isolamento #4

Falar com o umbigo

Maio 29, 2020

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#1 - Falar para uma parede   #2 - Falar pelos cotovelos   #3 - Conversa de chacha

 

A Lara queria que o umbigo dela fosse um búzio, que quando alguém encostasse a orelha à sua barriga ouvisse qualquer coisa. Não precisavam de ser ondas. Bastavam não ser aqueles roncos que as barrigas fazem quando se sentem sozinhas. Por vezes, quando se aninhava ao colo da mãe, parecia-lhe ouvir uma música muito silenciosa, feita de estalidos doces. Não tinha a certeza se a música era real, mas eram nesses momentos que a Lara se punha a pensar nos sons que também se deviam esconder na sua barriga.

Infelizmente a Lara não conseguia encostar a orelha ao próprio umbigo. Já tinha tentado, mas não havia forma de conseguir lá chegar. Uma vez, dobrou-se tanto que ficou com medo de se partir ao meio. Quando estava sozinha no quarto ficava muito calada à espera de ouvir alguma coisa. Mas agora, com as pessoas a saírem cada vez mais de casa, as ruas barulhentas roubavam-lhe o silêncio. Tentou usar uns walkie talkies mas os aparelhos ficavam tão próximos que a única coisa que conseguia ouvir era o ruído da interferência.

Ainda com esse zumbido nos ouvidos, lembrou-se de uma experiência que tinha feito na escola há uns meses. Procurou dois copos de papel, fez um pequeno furo no fundo de cada um e juntou-os com uma guita que estava perdida na despensa. Se o telefone de copos não resultasse, nada resultaria. Pousou um dos copos no umbigo. Mas quando estava a aproximar o outro copo da sua orelha, teve de o afastar de imediato. Tinha ouvido um palavrão. Pelo menos, foi o que lhe pareceu - apesar de ela não conhecer muitos palavrões.

Lentamente, voltou a aproximar a orelha ao telefone. Não podia estar mais surpreendida. O umbigo só dizia palavras feias, e nem todas eram palavrões. Na verdade, ele não dizia. O umbigo dela gritava! Como é que não o tinha conseguido ouvir até então? Em poucos segundos, o umbigo já tinha dito que odiava estar fechado em casa, que detestava a forma como a Lara o esfregava no banho, que tinha vontade de rasgar as roupas que ela vestia, que, se pudesse, dar-lhe-ia um pontapé no rabo e mudaria de barriga. O pior é que estas foram apenas algumas das crueldades que conseguiu ouvir no meio daquela gritaria.

A Lara, que sonhava com umbigos musicais, tinha afinal um umbigo mal-educado. Enquanto pensava nisto, o umbigo continuava a despejar asneiras e a dizer que odiava todos os amigos da Lara. Sabia o nome de todos e fazia questão de o dizer um a um. "Odeio a Clara! Odeio a Bruna! Odeio o José e a irmã dele! E o cão dele também!", gritou. A Lara também não gostava muito da irmã do José, mas não era preciso contar uma coisa dessas tão alto. Será que com gritos destes as outras pessoas também iam ouvi-lo? 

Saiu do quarto, de telefone de copo nas mãos, e seguiu pelo corredor até à sala, onde estavam os pais. Sentou-se entre eles, no sofá, bem próxima da barriga de ambos, e ficou atenta. A mãe lia um livro, o pai estava de olhos postos no telemóvel. Silêncio. Esticou um dos copos para a barriga da mãe, à espera de ouvir a tal melodia.  Mas, em vez disso, ouviu mais uma enxurrada de gritos e de palavras que nunca tinha ouvido mas que também só podiam ser palavrões. Da barriga do pai, que ouviu de seguida, também só ouvia um umbigo indignado. Parecia prestes a rebentar. Até era engraçado, porque enquanto os umbigos diziam odiar tudo e todos, os pais sorriam, entretidos a olhar cada um para o seu lado. Como se nem se dessem conta da confusão que lhes ia pela barriga.

Para confirmar, voltou a ouvir o seu umbigo. Lá continuava ele aos berros. Largou o telefone de copos e agarrou-se à barriga, a tentar abafar o som. Enquanto tentava perceber se os gritos do umbigo se ouviam mesmo assim, a Lara lembrou-se que ela também já estava farta de estar em casa e de vestir sempre as mesmas roupas. Às vezes também não gostava da Clara, nem da Bruna, nem do José e muito menos da irmã dele, embora esse sentimento não durasse muito tempo. Mas gostava muito do cão do José. Também pensava nuns palavrões de vez em quando, mas ficavam sempre por dizer.

Talvez isto fosse como a comida, que mastigamos e vai descendo por aí abaixo, até ao estômago e mais além. Mas neste caso, ficava tudo pendurado no umbigo, à espera de alguém que lhe desse atenção. A Lara voltou a pousar o copo na barriga, agora com mais calma. O umbigo continuava indignado. Gritou durante vários minutos, disse coisas que fizeram a Lara corar, até que se cansou e adormeceu. A Lara reconheceu aquela melodia feita de estalidos doces, que já tinha ouvido junto à mãe. Mas, pelo sim, pelo não, ia esfregá-lo com mais força no próximo banho.

Conversas em isolamento #3

Conversa de chacha

Abril 22, 2020

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#1 - Falar para uma parede

#2 - Falar pelos cotovelos

Primeiro, descobrimos as letras e ocupamos os dias a rabiscá-las em cadernos, folhas soltas. Até nas paredes. Depois, as letras desatam a correr e colam-se umas às outras. A partir daí, as palavras já não nos largam. A Lara sabia bem o que isso era. Estava a viver essa correria. Era como se estivesse a aprender a falar pela primeira vez, até porque quando isso lhe aconteceu era demasiado pequena para se lembrar. No entanto, com os dias a passarem tão devagar uns atrás dos outros, descobriu que as palavras também se gastam. De tanto escrever a palavra rua, por exemplo, a rua parecia afastar-se cada vez mais.

Numa destas manhãs, a Lara partilhou com a mãe este problema. Como teve de fazer uma lista para contar as palavras que tinha gasto, acabou por gastá-las ainda mais - mas tinha de ser. Queria mostrar à mãe a folha do caderno onde tinha escrito coisas como rua, janela, sapatos, chuva ou escola. A Lara tinha medo de que as palavras desaparecessem de vez, antes de ela conseguir escrever frases longas onde elas coubessem bem.

Quando entrou na cozinha, a mãe estava a olhar distraída para a janela. Virou-se para ver o caderno e sorriu, mas continuava distraída. A Lara perguntou-lhe se ela alguma vez já tinha gasto palavras. Como ela não lhe respondeu logo, ficou com medo de que ela tivesse ficado mesmo sem palavras. "O tempo hoje está chato", disse-lhe a mãe. A Lara ficou aliviada mas também preocupada. Por um lado, a mãe ainda conseguia falar. Por outro, sabia como a mãe odiava falar do tempo. Normalmente, revirava os olhos quando ouvia comentários sobre o dia de sol que aí vinha ou a chuva que nos ia deixar todos ensopados. E agora ali estava ela, a falar do tempo. "Hoje queria lavar roupa", continuou a mãe, "mas assim não posso."

A Lara acenou com a cabeça. Disse "pois" porque pois era o que mãe costumava responder a conversas aborrecidas como esta. Mas também porque não sabia o que dizer e o pois servia para isso mesmo. Era uma daquelas palavras que nunca se gastam, mesmo que as pessoas as escrevam ou digam a toda a hora. No entanto, não era para falar da chuva ou do sol que ela tinha ido ter com a mãe. 

De que importava a chuva se as palavras lhe queriam fugir? Ainda que a Lara não acreditasse que elas estivessem mesmo a pensar sair de casa. Para onde iriam se não podiam sair pela porta? Já para não falar das escadas... A Lara não via umas escadas há tanto tempo que, se calhar,  nem conseguia passar do primeiro degrau, quanto mais chegar à rua. "Rua", murmurou a Lara... Mas arrependeu-se logo, porque se lembrou das palavras que andava a gastar.

Se pudesse interromper a mãe e desviar a conversa do tempo, da chuva, do sol, da roupa por lavar, a Lara gostava que a mãe lhe falasse do outro tempo. Daquele que passa a correr quando queremos que ele se deite no sofá connosco. Imaginou uma palavra a fugir do terceiro andar pelas escadas, degrau a degrau. Quanto tempo iria demorar a chegar lá abaixo? Talvez dependesse da palavra. A palavra sapatos deve estar mais habituada a andar do que a palavra escola, por exemplo. Mas a palavra chuva podia cair e escorrer pelos degraus com maior rapidez. Na verdade, tudo lhe parecia andar mais depressa do que antes. Pela janela, tinha reparado que lá em baixo as ervas tinham crescido muito por entre as pedras do passeio. Aproveitavam a folga dos sapatos que tinham perdido o jeito de sair à rua. Conseguisse ela descer as escadas, gostava de sentir essas ervas macias por baixo dos sapatos, mas com calma.

Lembrou-se mais uma vez da palavra porta. Já nem a palavra ela conseguia abrir na sua cabeça. E lembrou-se novamente das escadas... A Lara tremia quando pensava no dia em que teria de as voltar a descer. Queria que a mãe lhe garantisse que as coisas iam ficar parecidas. Precisava de confirmar se os sapatos dela continuavam a servir para andar na rua. Exigia saber se podia voltar a arrancar uma flor silvestre a caminho da escola. Não ia conseguir dormir sem ter a certeza de que as escadas continuavam a ter a mesma função que sempre tiveram. Tanto as escadas como as portas, os passeios, os carros, as estradas, as escolas.

Entretanto, começou a chover. Foi assim que percebeu porque é que a mãe lhe falava tão concentrada sobre o tempo. Os pingos iam salpicando a janela. A Lara sentiu-se mais calma. As gotas eram iguais a todas as gotas que tinha visto desde pequena sempre que chovia. Virou-se para a mãe e repetiu uma frase que já tinha ouvido alguém dizer numa destas conversas aborrecidas. "Com este tempo, o meu cabelo fica uma desgraça." "Pois", respondeu-lhe a mãe.

 

Qual a próxima conversa da Lara?

A - Com o umbigo

B- Com a própria sombra

 

Conversas em isolamento #2

Falar pelos cotovelos

Março 31, 2020

(O sentido da votação foi unânime após a primeira conversa desta história. Mais uma vez, no final do texto deixo duas hipóteses de conversas futuras para que possam escolher aquela que preferem continuar a ler.)

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#1 - Falar para uma parede

Ao décimo dia sem sair de casa, a Lara acordou de mau humor. Os cantos da boca estavam presos ao fundo da cara e tinha uma vontade incrível de berrar. Acontece a toda a gente, é verdade, mas com ela era a primeira vez. A Lara fazia questão de acordar sempre bem-disposta. Até em dias fechados como estes. Até depois de passar uma semana inteira a ver o parque ao longe, pela janela do quarto, a inventar escorregas nas pernas dos pais. 

Logo ela que, todas as manhãs, se espantava quando via os olhos dos pais, acabados de acordar e já cansados. Abriam as pálpebras de manhã, pensava a Lara, como se já soubessem como iria ser o dia que tinham pela frente. Embora ela tivesse a certeza de que isso não era possível - à noite, a escuridão não nos deixa ver nada, muito menos o futuro. Ela já sabia o motivo. Os pais acordavam mal dispostos pela mesma razão que todos os adultos se aborrecem por ter de ver um filme de novo. Ou por ter de repetir pela décima vez uma brincadeira qualquer. Acham que já viram tudo.

Ora neste dia, a Lara acordou mal-disposta pela primeira vez na vida. Cruzou-se com a mãe e resmungou. Passou pela cadela e nem lhe disse os bons dias, como habitualmente. Nem agradeceu ao pai as torradas besuntadas de manteiga. A vontade de gritar crescia cada vez mais. Às vezes sentia-a na barriga, outras vezes parecia que subia até à garganta. Só quando a sentiu a rolar pela língua, quase a sair cá para fora, é que percebeu que tinha de fazer alguma coisa.

Muitas vezes diziam-lhe que falava pelos cotovelos. Acontecia normalmente quando chegava da escola e tinha uma longa lista de episódios para contar. As palavras saltavam para as cavalitas umas das outras. "Tem calma, Lara", diziam, "estás a falar pelos cotovelos". Mas os cotovelos dela estavam tapados pelo casaco. Era a boca dela que não conseguia esperar para contar tudo. 

Se afinal os cotovelos conseguem falar sem fazer barulho talvez a pudessem ajudar neste dia. Se eles falassem por ela, a Lara não teria de gritar. Restava descobrir como o fazer. Arregaçou as mangas do pijama e olhou para os cotovelos com uma atenção que nunca lhes tinha dado. Pareciam simpáticos mas de poucas conversas. Talvez um pouco secos. Dobrou e esticou os braços muito depressa e quase conseguiu imaginar uma boca a mexer-se na dobra dos cotovelos. Mas continuava sem escutar qualquer som. Por outro lado, dentro da boca da Lara o tal grito estava prestes a escapar. Não tinha muito tempo.

Pegou numa caneta e desenhou no cotovelo esquerdo dois olhos e um sorriso. Foi complicado mas a Lara sentiu que lhe tinha dado alguma vida. Foi até ao espelho e admirou aquele risco sorridente. Tinha ficado certinho, tal qual os sorrisos com que gostava de acordar. Sorrir bem podia ser outra maneira de falar, menos complicada, imaginou.

Entretanto ela já se tinha esquecido um pouco do mau-humor com que acordou. Já não queria falar pelos cotovelos só para não gritar. Desejava que o cotovelo falasse com ela, por mais impossível que isso fosse. Voltou a pegar na caneta, desta vez para desenhar outra cara sorridente no cotovelo direito mas o desafio de desenhar com a mão esquerda revelou-se bem mais difícil. Os olhos saíram duas bolas irritadas e a boca uma linha torta como uma centopeia. Ao olhar para os cotovelos no espelho, descobriu duas caras completamente diferentes. Um cotovelo sorria, o outro olhava desconfiado. Parecia que se conheciam.  O cotovelo direito não podia estar mais chateado. Se calhar tem razões para isso, pensou a Lara. Não percebia se o sorriso do cotovelo esquerdo era um sorriso igual aos dela ou se estava a fazer troça do outro. 

"Não te cansas de estar sempre a rir?" A Lara quase saltou de surpresa quando ouviu a pergunta. "Eu tive de ficar com esta boca torta e tu ainda sorris?". Mas desta vez a Lara percebeu que a voz grossa vinha do cotovelo direito. O cotovelo esquerdo continuava de boca fechada, sorridente. Ela também não conseguia abrir a dela. "Já sabia que não ias dizer nada. Não admira, tens mesmo cara de quem cheira mal da boca", acusou o cotovelo irritado. "Tu é que cheiras mal da boca", respondeu finalmente o outro cotovelo, embora ainda a sorrir. Era a primeira vez que a Lara assistia a uma conversa de cotovelos. Estava sem pio. "Eu mal consigo abrir a boca, como é que sabes se cheiro mal ou não?", disse um. "Se calhar não a abres porque tens os dentes podres", respondeu o outro. "E tu se calhar nem dentes tens..." Por esta altura, a Lara já tinha percebido que ia ser complicado fugir daquela situação. Para onde quer que fosse, os cotovelos iriam com ela e a discussão também. Ela ia estar no meio daquela troca de insultos.

Sem que eles se apercebessem, ela pegou num casaco e começou a vesti-lo muito devagar. Primeiro a gola, depois as duas mangas de uma vez só, para os cotovelos não darem por isso. Por trás do tecido da camisola, eles ainda continuaram a gritar durante um bom bocado. Ela sentia o algodão a tremer pelos braços acima e abaixo. Até que finalmente eles se acalmaram e ficaram apenas a resmungar, como se estivessem a fazer-lhe umas cócegas muito leves. A Lara saiu do quarto, fechou a porta com calma. Percebeu que a vontade de gritar tinha desaparecido. E então suspirou. "Como é que os adultos acham que já viram tudo?". 

 

Qual a próxima conversa da Lara?

A - Conversa de café

B- Conversa de chacha

 

Conversas em isolamento #1

Falar para uma parede

Março 18, 2020

(Nos últimos dias tenho estado em casa - um privilégio e uma opção. Num terceiro andar onde cabem quatro pessoas e uma cadela, temos visto televisão, pintado cartão, papel e as próprias mãos, respirado fundo de vez em quando. E, claro, temos contado histórias. Daí me ter lembrado de começar a contar esta história curta para adultos, crianças e animais de estimação - que provavelmente vai acabar a ser uma espécie de cadáver esquisito, um repositório de conversas alavancado por este tédio novo. No final deste primeiro texto deixo duas hipóteses de conversas futuras. Nos comentários indiquem qual a vossa favorita. Prometo continuá-la dia sim, dia não.)

falaraparaumapoarede

Estar aborrecido é uma coisa engraçada. Por vezes, é como ter uma grande pedra a bloquear o caminho. Mas também pode transformar-se numa daquelas pedras redondas dos desenhos animados que rolam colina abaixo atrás do herói. Estar aborrecido põe a nossa cabeça a correr mais depressa. Talvez até mais do que quando estamos entretidos. 

Depois de alguns dias sem sair de casa, a Lara lembrou-se que poderia ser divertido falar para uma parede. Quando as pessoas falavam disso tinham um tom de voz impaciente. No entanto, como ela agora tinha todo o tempo do mundo, era a altura ideal para tentar fazê-lo. Começou por percorrer todas as divisões de casa para encontrar a parede perfeita para conversar. O passeio deixou-a desiludida. A maior parte das paredes estava coberta de armários e estantes. Outras cheias de molduras. Ficou preocupada porque se as paredes tinham ouvidos, como lhe tinham dito, não iriam conseguir ouvi-la cobertas de tanta tralha. 

Finalmente, encontrou uma parede mais desocupada, mesmo em frente à casa de banho. Sentou-se à sua frente. Tossiu um bocadinho, como os adultos fazem antes de começar uma conversa importante. Pensou dizer "Olá" mas, quando abriu a boca no segundo a seguir, o que disse foi "Que idade tens?". A parede não lhe respondeu. Aliás, pareceu ter ficado ofendida com a pergunta porque ficou ainda mais branca. A Lara pediu-lhe desculpa. Disse "Olá", desta vez sem se enganar, e apresentou-se como se estivesse na escola: nome, idade, profissão da mãe, profissão do pai, passatempos favoritos. Só não disse onde vivia porque isso a parede já sabia. 

A parede continuava branca, sem lhe responder. A Lara começou a pensar que talvez não tivesse sido boa ideia tentar falar para uma parede. O que tem uma parede para contar a uma rapariga de 6 anos? Que nasceu ao mesmo tempo daquela casa e viu a primeira família a chegar, a crescer, se calhar a crescer tanto que acabou por vê-la a sair? Que ouviu tantas famílias a passar à sua frente e que a da Lara é apenas mais uma? Que já várias vezes lhe tentou dizer olá mas ela nunca lhe respondeu? Que já tem cinco camadas de tinta diferentes e por isso não ouve tão bem quanto ouvia? Que ser uma parede é uma tarefa difícil e que odeia a humidade? 

"Se calhar está a dormir". A Lara levantou-se, encostou a mão à parede branca e disse-lhe até já. Nesse instante, a única moldura que estava pendurada na parede caiu no chão, sem se estragar. Pode ter sido coincidência. A Lara preferiu pensar que a parede afinal tinha alguma coisa para dizer a uma rapariga como ela.

 

Qual a próxima conversa da Lara?

A - Falar para o boneco

B- Falar pelos cotovelos

 

Corpo feito de água

Fevereiro 28, 2020

D25338_10.jpgTwilight over the Waters, Turner

 

Acordo muitas vezes a meio da noite, naqueles instantes indecifráveis em que o sono se descobre inquieto e a harmonia dos olhos cerrados se quebra. Acordo em sobressalto com a ideia de a água ser uma parte substancial do meu corpo. Sobretudo no Verão, quando o santo sudário de suor é indisfarçável nos lençóis e me inquieto com a possibilidade de estar a subtrair ao meu corpo qualquer coisa semelhante a um suco vital. Saio do sono com destino certo: uma sala de aula nos anos 1990, recuo necessário para reviver o momento em que ouvi, pela primeira vez, que “a percentagem de água no nosso corpo é de 70%”. A professora disse-o com a dedicação de quem faz da transmissão de saber um duche revigorante. Maldito conhecimento, penso agora para mim de cada vez que me estremunho. No dia que se seguiu a esta aula, aconteceu aterrar de joelhos num terreno de cascalho ao saltar de forma desajeitada uma vedação. Aguardei com ansiedade que da ferida brotasse água. Mesmo após ter vislumbrado a primeira gota de sangue, e a segunda e a terceira, até ser claro que a água não se lança desta forma para fora do corpo. É uma diferença, entre tantas. A água não sai em golfadas, não se anuncia extravagante como fogo de artifício. Escorre, contida e discreta para que não consigamos dar por ela, até se impor com a intensidade de um rio caudaloso. Naquele dia, mais do que a dor provocada pela queda, senti incredulidade. Pudera eu naquele momento, teria mergulhado pelo golpe adentro, em busca de um desfecho satisfatório para aquela incógnita. Mais tarde descobri que o sangue não é mais do que água com mil e umas coisas que lhe dão cor e propósito, que essa água se mascara com criatividade pelos músculos e pelos ossos, pelos órgãos, e que pode ser água e ser gordura, tecido e tédio e bombas-relógio. Sei agora que os tais 70% de presença aquosa no nosso corpo se vão dissipando à medida que nos encaminhamos para os últimos dias, como se perdêssemos reservas de sangue, suor e lágrimas. Creio que li algures que aos 80 anos apenas metade do nosso corpo é composto por água. Provavelmente se continuássemos a resistir ao fado, chegaríamos enxutos ao século e meio, autênticos animais embalsamados. Descobri tudo isso, entre outras coisas, desde a tal aula nos anos 1990. Continuo, no entanto, a acordar várias vezes pela noite dentro, nos tais instantes em que o sono se surpreende por ainda ser madrugada, suado e perturbado por estar a suar. E essa angústia faz-me suar mais umas quantas gotas.

Uma casa #2

Janeiro 31, 2020

Vizinhos

CEEY4324.JPG

Descobri os vizinhos depois dos trinta. Antes disso eram apenas nomes como fronteiras ou entidades como fantasmas. O terreno do senhor Cesário, acolá atrás do muro, onde aterravam bolas e G.I. Joes de pára-quedas. Aquela nespereira, de tronco fincado no terreno de outra vizinha, que fazia pender generosos ramos sobre o nosso quintal - e eu nunca gostei de nêsperas. Anos mais tarde, um baldio de ervas altas de um lado, a estrada nacional à frente, a residência sazonal de uns primos do outro lado, e uma parede mal caiada para além da qual se adivinhava a presença revezada de uma família humana e de uma vara de porcos. Vivi mais de um ano num prédio em Lisboa sem ter trocado uma só palavra com outra pessoa que lá morasse. Um dia abri a porta de casa distraído e vi um galgo afegão, de pêlo sedosamento sobranceiro, de olhos postos em mim. Não havia qualquer pessoa ao lado, o cão era o seu próprio dono, sem trelas. Fechei a porta num ápice, rendido à superioridade daquele olhar, sobretudo surpreendido por ter um cão como vizinho. A vizinhança que descobri depois dos trinta não é feita de cães, nem de pessoas, nem daquela pitada de sal de que precisamos de vez em quando, nem se sossega com uns bons dias trocados nos degraus das escadas. Pelo menos, não só disso.

Comecei a pensar nesta vizinhança na mesma altura em que, a propósito de um trabalho sobre os 150 anos da Estação de Santa Apolónia, andei às voltas por aquela área. Numa conversa inicial com uma trabalhadora da (então) CP, ouvia-a referir-se àqueles que viviam paredes meias com a estação como "os confinantes". A palavra fez-se ouvir de uma forma especial, desconfiei dela graças à noção de encerramento que o verbo confinar contém. Como desconfio de quem cola autocolantes amarelos na caixa de correio a rejeitar publicidade não endereçada. Mas bastou avançar por uns degraus, sondando outros pisos, tal como devemos proceder com as palavras, para chegar ao significado que essa pessoa lhe atribuía. A estação e as pessoas que vivem, trabalham, dançam à sua volta são vizinhos porque partilham os mesmos limites. As paredes pertencem a quem se esconde no seu interior ou a quem quer passar despercebido lá fora, do outro lado? E qual é mesmo o outro lado? Partilhar limites parece-me meio caminho andado para deixar de os estabelecer - e ainda bem.

Se digo que descobri os vizinhos depois dos trinta, digo também que me descobri como vizinho por essa altura. Lentamente passei a encarar a vizinhança como um corpo único, cuja organicidade se sentia em pequenos rituais. A imagem que reproduzo aqui, no topo do texto, é um exemplo disso. Quando estendia a roupa e, por distração ou aselhice, me escapavam algumas peças de vestuário para o quintal do rés-do-chão, sabia que mais tarde ou mais cedo, elas iriam aparecer à minha porta. O vizinho do primeiro andar fazia questão de as resgatar (como foi o caso daquela meia) e devolver ao puxador da nossa porta, a par das molas igualmente caídas. Outro episódio: há uns anos, pouco depois de ter sido pai pela primeira vez, percorria os corredores do supermercado do bairro quando uma senhora parecida com a minha avó decide interromper o meu alheamento. Perguntou pela mãe da bebé, pela bebé, pelo nome que lhe tínhamos dado e sorriu. "Sabe, é que eu fui acompanhando a gravidez..." Nunca tínhamos falado, não me lembro de até aquele momento a ter olhado tempo suficiente para me recordar da sua cara. No entanto ela lá estava, na janela do rés-do-chão do prédio em frente, e tinha visto uma barriga crescer com o entusiasmo de quem já descobriu o que é isto de ser vizinho há muito tempo. Nessa altura eu ainda estava a descobri-lo.

No último dia de mudanças de uma casa para outra, cruzei-me com uma moradora recente no meu antigo bairro. Tinha decidido abrir um café num espaço que já tinha sido uma padaria. Reuniu durante meses o material necessário, foi compondo peça a peça o seu negócio, vi-a a chegar sozinha tantas vezes, já a noite estava instalada, com caixas, electrodomésticos,  num esforço ruidoso que contrastava com a quietude daquelas ruas. Cruzei-me com ela a meio do segundo dia de portas abertas e anunciou-me que ia desistir. Aquela rua "só tinha velhos que passavam o dia enfiados à janela a olhar cá para baixo".  A descrição correspondia integralmente à realidade. Contudo aquilo que para ela foi um desabafo, que justificava o falhanço da sua empreitada, era para mim a ilustração perfeita dos confinantes daquela rua, dos meus vizinhos, do seu papel naquele organismo. Cada par de olhos a espreitar pelas janela. Este ano mudei-me para outra rua, a um quilómetro em linha recta daquela outra. Os meus vizinhos continuam lá, não os subtraio. Na minha nova rua, às janelas vejo imensos gatos, deitados em tronos com espaldares de sisal, onde afiam as garras enquanto me fitam com o mesmo olhar do tal galgo afegão, que era meu vizinho sem eu saber. Nesta nova casa, os felinos são a minha primeira vizinhança.

 

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