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Longitudinal

Fazemos viver, mas não vivemos

Setembro 05, 2022

 

Mulher-ilha_galleryfull.jpg

(Moira Forjaz)

 

"Nós, mulheres, fazemos existir, mas não existimos. Fazemos viver, mas não vivemos. Fazemos nascer, mas não nascemos. Há dias conheci uma mulher do interior da Zambézia. Tem cinco filhos, já crescidos. O primeiro, um mulato esbelto, é dos portugueses que a violaram durante a guerra colonial. O segundo, um preto, elegante e forte como um guerreiro, é fruto de outra violação, dos guerreiros de libertação da mesma guerra colonial. O terceiro, outro mulato, mimoso como um gato, é dos comandantes dos rodesianos brancos, que arrasaram esta terra para aniquilar as bases dos guerrilheiros do Zimbabwe. O quarto é dos rebeldes que fizeram a guerra civil no interior do país. A primeira e a segunda vez foi violada, mas à terceira e à quarta entregou-se de livre vontade, porque se sentia especializada em violação sexual. O quinto é de um homem com quem se deitou por amor pela primeira vez.

Essa mulher carregou a história de todas as guerras do país num só ventre. Mas ela canta e ri. Conta a sua história a qualquer um que passa, de lágrimas nos olhos e sorriso nos lábios, e declara: os meus quatro filhos sem pai nem apelido são filhos dos deuses do fogo, filhos da história, nascidos pelo poder dos braços armados com metralhadoras. A minha felicidade foi ter gerado só homens, diz ela, nenhum deles conhecerá a dor da violação sexual."

 

(Niketche - Uma História de Poligamia, Paulina Chiziane, 2002)

 

Resposta sem altura

Agosto 23, 2022

1509.jpeg

(The Birthday Party, John Singer Sargent, 1887)

 

As crianças fazem muitas perguntas, mesmo para além da idade dos porquês, nesse horizonte imenso em que temos de lhes explicar não só a causa das coisas, mas o esqueleto das coisas, o frente e verso das coisas, a costura das coisas, as coisas que não são coisas, a ter de justificar os sins e os nãos, nem sempre o talvez. Todas as perguntas merecem resposta, ainda que por vezes nos apeteça deixar essa resposta pendurada e apenas acabemos por replicar alguma coisa, enfastiados. Complicado é, no entanto, quando as respostas não estão à altura das perguntas.
 
Há um par de meses, o teatro onde trabalho fez anos. Na manhã do dia de aniversário, a minha filha mais velha perguntou-me: "Vão construir coisas?". Devolvi-lhe outra pergunta, por que razão iríamos ocupar um dia de festa com obras? Esclareceu-me prontamente. Não seriam umas obras quaisquer. A Salomé queria saber se íamos construir mais um piso, em baixo ou em cima pouco interessava. Seriam as obras necessárias para o teatro crescer. Não é isso que acontece connosco à medida que somamos mais anos? E se os edifícios não crescem sozinhos, talvez tenhamos de ser nós a ajudá-los nessa tarefa. Não faz sentido - sob este ponto de vista, um arranha-céus seria o mais ancião dos edifícios e uma vivenda térrea um imóvel eternamente jovem -, mas é uma pergunta que escancara as portas da cabeça de quem a fez e que areja as nossas pelo caminho. Não encontrei resposta à altura, senão sorrir antes de saírmos de casa nessa manhã.
 
É uma pergunta curiosa, partindo dela. Afinal, a Salomé nem dá conta de que as suas pernas crescem de dia para dia. Não relaciona os trambolhões que dá com as nódoas negras que vão aparecendo nessas pernas esguias em obstinada expansão. No entanto, reconhece esse crescimento nos outros, até num edifício que tem pouco espaço para aumentar. A Salomé consegue espantar-se quando os sapatos deixam de lhe caber nos pés, quando aquele par de ténis, o preferido, começa a torcer-lhe os dedos. Não reconhece que é inevitável. Todavia a Salomé segue, a crescer sem dar por isso, rumo àquele instante em que, também sem nos apercebermos, o corpo decide parar de se esticar, e a partir do qual só nos resta desejar que as respostas estejam à altura da nossa altura e que consigamos evitar que o mundo nos pareça mais e mais pequeno. Nessa estação sempre-viva, as respostas passam a suscitar um medo maior e mais persistente do que as próprias perguntas.
 
"As pessoas são infinitas?", perguntou-me a Salomé há poucas semanas. Não queria saber se somos eternos, nada disso. Queria saber se estão sempre a irromper pessoas novas no mundo para compensar aquelas que nos deixam. Uma vez mais, não encontrei uma resposta certa. Todas se apequenaram, medrosas.
 

Esticar a corda

Março 02, 2022

IMG_20211208_170039.jpg (2)

 

No final do ano passado, juntei-me a um grupo intrépido, sensivelmente guiado pela Susana Moreira Marques, no curso "Mais próximo do mundo" da Associação Cultural Mombak. Desse processo - e tendo como ponto de partida algo que escrevi neste blogue em Agosto passado - nasceu este texto, sobre avós, esquecimento e recordações, sobre a genealogia como processo amplo e inconstante e não como propriedade estanque. Escrevi-o como se ainda fosse um miúdo de 10 anos. É portanto o gesto ingénuo de um rapaz que gostava de acreditar no poder revigorante da memória.

Podem lê-lo seguindo este link: https://www.revistapessoa.com/artigo/3438/esticar-a-corda

(Em Março, a Susana regressa com um novo curso - "Na primeira pessoa" - e as inscrições estão abertas. Avancem!)

Escrevo.

Fevereiro 05, 2022

Captura de ecrã 2022-02-05, às 19.32.13 copy.p

(Office in a Small City, Edward Hopper)

 

Escrevo porque não quero falar. Comecei a escrever quando as letras ainda ocupavam um lugar estranho, quando ainda não sabia bem como as casar umas com as outras. Falo de letras, não de palavras. As palavras, as frases vieram depois.


Escrevo porque falar me cansa. Continuei a escrever, mesmo quando as frases, todas seguidas, umas atrás das outras, me pareciam mais barulhentas do que a minha própria fala.


Escrevo como se não conseguisse falar. Uma página num computador parece ainda mais branca porque podemos aumentar a luminosidade do ecrã. Escrevi nessas alturas porque preencher essa brancura era uma forma de me manter calado.


Escrevo porque quero falar cada vez mais baixo. Quando olho para um texto acabado de nascer, congratulo-me por saber que se eu quiser mais ninguém o lerá. Sei que o posso apagar, basta pressionar uma tecla durante o tempo necessário. Posso guardá-lo e ficar a ouvi-lo a ecoar numa pasta de computador.


Mas também escrevo porque, por vezes, gosto que esse eco consiga escapar.

 

Vamos lá ver se consigo explicar isto bem

Outubro 11, 2021

Claude_Monet_-_The_Houses_of_Parliament,_Sunset.jp

(The Houses of Parliament, Sunset, Claude Monet) 

Vamos lá ver se consigo explicar isto bem. Das traseiras da minha casa vejo prédios. De vez em quando, umas pessoas à janela, mas sobretudo prédios. Se abrir a janela da cozinha de par em par, vejo à minha esquerda a empena de um prédio que avança uns bons cinco metros para além do meu. É uma parede robusta, que reconhece a sua idade, na qual gostaria de ver desenhada alguma coisa. Se olhar em frente vejo duas filas de telhados, com telhas mais ou menos alaranjadas, mais ou menos enegrecidas, de acordo com a altura em que foram colocadas. Mais a frente, vejo três prédios mais altos, que cortam o horizonte. São eles próprios a linha do horizonte. Um é cor de rosa, o maior. Os outros dois já devem ter sido amarelos há muitos anos. Há outros prédios em frente depois desse mar triangular de telhados. Mas aquilo que me prende o olhar é o topo de um prédio mais alto, a uns bons 300 metros de distância. Dele apenas vejo uma especie de chaminé. Umas telhas pequenas, porque distantes. E ventiladores, daqueles simulacros de bola de espelhos que tornam telhados numa pista de dança vazia enquanto há Sol. No Verão, pelas 20h30, todos os prédios ao redor da minha casa descobrem-se pequenos de mais para se esticarem rumo à luz apaziguadora do final da tarde. Mas o topo desse outro prédio permanece ainda dourado durante uns minutos. Fico a olhá-lo, minuto a minuto, detido nesse eclipse vagaroso até os ventiladores perderem o seu cintilar. Faz-se noite no meu bairro.

 

Para que lado se estica a corda agora?

Agosto 31, 2021

Screenshot_20201011_134522.jpg

Quando nascemos, os nossos avós já são velhos. A sua longevidade é como um seguro de vida, um mistério reconfortante para quem ainda está a aprender a distinguir o dia de ontem do dia que está para chegar. À medida que crescemos, percebemos que afinal não eram assim tão velhos quanto julgávamos. Vão desafiando o tempo, esticando pequenos fios de cabelo até ficarem completamente brancos. Ficam cada vez mais velhos para que descubramos que eles já foram cada vez mais novos. Esticam a corda e equilibram-se sobre ela, dilatando um horizonte que julgávamos finito. Quem diria que os avós seriam os mais geniais funambulistas...
 
A minha avó materna viveu mais de nove décadas. Nasceu em 1929, renasceu umas quantas vezes ao longo da vida. Sobretudo quando foi obrigada a isso: viúva com duas filhas pequenas, a começar no primeiro trabalho da sua vida aos trinta e poucos anos. Trabalhou até aos 76 anos e depois disso teve de renascer para não se pasmar com a vida. Puxou a corda durante anos, puxou-a bem longe. Começou cedo, quando era miúda. No caminho de casa para a escola, e no regresso, combinava com a empregada que a deixasse andar uns metros à frente dela, para escapar por instantes ao apertado controlo parental. Duas vezes por dia, sentia-se mais livre. Os avós esticam a corda desde cedo, mesmo antes de saberem que um dia vão ser avós.
 
Vivi com ela durante sete anos. Nos primeiros tempos, pude testemunhar o frenesim das manhãs. Acordava frequentemente com a voz dela a gritar impropérios contra um tacho que teimava em esconder-se no armário. Encaixava uma rotina abundante nas poucas horas que tinha antes de seguir para o trabalho mesmo que tivesse de devorar o almoço em três garfadas para o conseguir. Quando eu me levantava, já ela estava a dilatar o tempo. Por isso, havia sempre uns minutos para parar na marquise, de rostos banhados pelo sol matinal. De vez em quando, dançávamos com a telefonia aos berros. "Lembras-te quem te ensinou a dancar?", perguntava-me. Foi ela. Há quase dez anos, no jantar do dia do 83.º aniversário, disse-nos que aquele tinha sido um dos dias mais felizes da vida dela. Era uma sexta-feira, o final de uma semana repleta de eventos na Academia Sénior da Junta de Freguesia, que culminou num baile com música popular. "Até senti uma alegria dentro de mim", confessou. Conseguem sentir quão longe pode a corda esticar?
 
Quando nasci, conheci duas avós. Nem o meu avô materno, nem o paterno conseguiram esticar a corda o tempo suficiente para que os conhecesse. A minha avó paterna morreu aos setenta e seis anos, quando eu tinha dez. A minha avó materna morreu ontem aos noventa e dois anos, pouco dias antes de eu chegar aos 35. Não tenho avôs nem avós. Para que lado se estica a corda agora? A ordem natural das coisas deixa-nos desequilibrados.

 

Longa e breve exposição

Agosto 24, 2021

 

Foto de longa exposição

 

vinhas do mar

espuma tíbias séculos

ou o teu corpo acostado ao pino do Verão

na praia da Amoreira, por exemplo

 

água rochedo snapshot

vinhas muito do mar

 

acelero o pensamento até uma noite

de Junho influenciando o passado - altíssimo

bairro a uma segunda-feira

 

                    para depois

dormirmos numa pensão em Coimbra

cigarros à janela

vista para a Cabra

 

partamos para Sul como num slogan

o Sol a marca do biquíni um indício de mar

roubarei de novo o carro aos pais 

para ouvir outra vez o estrépito ameno do 

teu gozo

 

 

Foto de breve exposição

 

repartimos a regueifa de Pardilhó com as formigas de Odeceixe

 

(Estojo, Miguel-Manso, 2020)

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