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Longitudinal

Taxista #5

Outubro 21, 2013

 

(As minhas viagens de táxi podem durar dez minutos ou meia hora, em alguns casos até menos tempo, mas são sempre viagens sem tempo. O silêncio sublinha, em algumas ocasiões, essa paralisação temporal. É estranho que duas pessoas, mesmo sendo desconhecidas, permaneçam caladas tanto tempo quando estão sozinhas e encerrados num espaço relativamente pequeno. Por vezes: o ruído do próprio carro; e dos outros carros lá fora, caminhando sempre em direcções opostas mesmo quando nos seguem ou os seguimos; uma música na rádio; outra música, pouco depois; a mensagem de um colega taxista. Mas acima de tudo o silêncio entre duas pessoas que não se conhecem mas que partilham entre si uma morada passageira dentro de um veículo de quatro rodas. A cidade passa, encaixada entre ruas, ruas e ruas, e nós passamos por ela. Tudo isto a propósito da minha última viagem de táxi - uma viagem completamente diferente, sem silêncios.)

 


"Nasci em Lisboa, cresci em Lisboa, mas não sei nada sobre ruas, nem bares, nem essas merdas."

 

O carro ainda não arrancou e já chegámos ao ponto máximo de sinceridade para um taxista. A conversa começou assim, sem qualquer indecisão, perto da Praça Luís de Camões. A viagem levou-nos até São Bento e Avenida de Roma e trouxe-nos de volta à casa de partida. Antes de chegar a São Bento, passámos pelas Caldas da Rainha, que o acolheu durante os anos de tropa, e pela Lagoa de Óbidos, onde comprou um lote que vendeu pouco depois para investir num Timeshare na Madeira (sim, também cruzámos o Atlântico). Quase a chegar à Avenida de Roma já tinha entrado em casa dele.

 

"Eu gosto de sossego mas a minha mulher é toda citadina. Vai arranjar o cabelo não sei onde. Pintar não sei o quê. Discutir com o padeiro. Com o merceeiro. Falam muito em envelhecer e ir viver para o campo, com uma horta, e essas merdas. Mas há uma altura na vida em que um gajo tem é de estar perto de um hospital. Todos os dias acordo de manhã e dói-me aqui, dói-me ali, dói-me o caraças..."

 

No regresso, a nostalgia apodera-se do táxi enquanto passamos pela casa de família, no Ladoeiro, perto de Idanha-a-Nova, difícil de manter mas impossível de largar. São as origens, sempre. E depois da nostalgia, o pessimismo.

 

"As coisas estão mal. Nós não sabemos como é que isto vai ser. Mas vocês estão fodidos... Ouve-se muita coisa sobre os jovens agricultores... Se fosse jovem acha que me punha a cavar? Ficas rico? Ficas rico, o caralho! Ficas é com as costas feitas em merda!"

 

Fim de conversa. Ponto final na viagem.

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