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Longitudinal

"Era o mar, era a terra e era a baleia"

Julho 24, 2017

A memória é uma coisa que vem em debandada mesmo que, por vezes, demore a revelar-se. É também uma coisa que apanhamos quase sempre no último troço de uma cadeia longínqua. A minha memória é também a dos meus pais, dos meus avós, dos meus tios, dos meus bisavós que não conheci. Cheguei ao Pico depois de ouvir o Francisco Henriques, que me falou dos baleeiros que ele e o Luís Bicudo andavam a escutar há mais de um ano em todas as ilhas dos Açores. Esses baleeiros - os últimos e os derradeiros desde há décadas - continuavam a aparecer. Como as memórias, curiosamente.

 

O Luís, por exemplo, anda a fixar a memória dos avós, e por arrasto a da sua ilha e a do seu arquipélago, há alguns anos. Com uma curta-metragem, com uma longa-metragem, e depois com um projecto a quatro mãos, correndo as nove ilhas dos Açores em busca dos testemunhos de quem andou na caça ao cachalote. É um percurso de endurance. Não poderia ser de outra forma, suponho. Este último projecto, aquele que fez com o Francisco, chama-se Arquivo de Memórias da Baleação. É um tesouro.

 

Em 1867, Mark Twain esteve nos Açores durante uma viagem a bordo do paquete Quaker City. Passou ao largo da ilha das Flores. Esteve pouco tempo no Faial, durante o qual admirou a milagrosa limpeza da ilha e as suas estradas maravilhosas. O mesmo não podemos dizer da sua percepção dos faialenses. "A comunidade é principalmente portuguesa - ou seja, pobre, apática, modorrenta e preguiçosa", escreveu nos seus relatos (publicados em Portugal pela Tinta da China, com o título A Viagem dos Inocentes).

 

Por esta altura já havia açorianos na baleação norte-americana há décadas e mesmo nos Açores já se caçavam cachalotes ao largo das ilhas, sobretudo naquelas mais a Oeste. Lembro-me portanto das palavras de João Carlos Lopes, que no início dos anos 1980 foi ao Faial ao encontro dos baleeiros ainda no activo: "Imagine um pequeno bote, com sete homens lá dentro, um homem de pé com uma lança na mão a fazer a aproximação a um bicho do tamanho de um autocarro." Não consigo ajustar isto nem à apatia, nem à modorra, nem à preguiça que Twain disse ter encontrado. Recordo-me ainda das conversas com os baleeiros e da forma como falavam da sua vida, a de agora mas sobretudo a daquele tempo. Com arrebatamento, como quando a memória se começa a desembaraçar.

 

"Era o mar, era a terra e era a baleia"

Especial multimédia "Era o mar, era a terra e era a baleia"

Reportagem Nos Açores, à procura de homens que são máquinas do tempo 

 

 

Steiner e os perigos da ficção

Julho 13, 2017

"Toda a minha vida foi dominada pela pergunta: como é que aquilo pôde acontecer na Europa? Como é que por trás da casa de Goethe existe um campo de concentração? Como é que o país mais educado do mundo se tornou nazi? Nunca se esqueça de que a educação na Alemanha era provavelmente a mais avançada, mas não foi suficiente para travar Hitler. Toda a minha vida me interroguei sobre se as humanidades realmente humanizam. Deixe-me colocar a questão desta forma: passo o dia todo com os meus alunos a ler o King Lear e, ao voltar para casa, estou tão possuído interiormente por esse texto que não ouço os gritos de alguém na rua. Alguém grita por ajuda e eu não ouço. Sempre me intrigou até que ponto a ficção - e 'ficção' é a palavra-chave - pode ser mais poderosa do que a realidade. Passei a vida a ensinar as pessoas a ler e a amar o que leem. Mas questiono-me a mim próprio sobre o perigo imenso de nos identificarmos com a ficção."

 

(George Steiner em entrevista a Luciana Leiderfarb numa revista do Expresso de há umas semanas)

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