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Longitudinal

Corpo feito de água

Fevereiro 28, 2020

D25338_10.jpgTwilight over the Waters, Turner

 

Acordo muitas vezes a meio da noite, naqueles instantes indecifráveis em que o sono se descobre inquieto e a harmonia dos olhos cerrados se quebra. Acordo em sobressalto com a ideia de a água ser uma parte substancial do meu corpo. Sobretudo no Verão, quando o santo sudário de suor é indisfarçável nos lençóis e me inquieto com a possibilidade de estar a subtrair ao meu corpo qualquer coisa semelhante a um suco vital. Saio do sono com destino certo: uma sala de aula nos anos 1990, recuo necessário para reviver o momento em que ouvi, pela primeira vez, que “a percentagem de água no nosso corpo é de 70%”. A professora disse-o com a dedicação de quem faz da transmissão de saber um duche revigorante. Maldito conhecimento, penso agora para mim de cada vez que me estremunho. No dia que se seguiu a esta aula, aconteceu aterrar de joelhos num terreno de cascalho ao saltar de forma desajeitada uma vedação. Aguardei com ansiedade que da ferida brotasse água. Mesmo após ter vislumbrado a primeira gota de sangue, e a segunda e a terceira, até ser claro que a água não se lança desta forma para fora do corpo. É uma diferença, entre tantas. A água não sai em golfadas, não se anuncia extravagante como fogo de artifício. Escorre, contida e discreta para que não consigamos dar por ela, até se impor com a intensidade de um rio caudaloso. Naquele dia, mais do que a dor provocada pela queda, senti incredulidade. Pudera eu naquele momento, teria mergulhado pelo golpe adentro, em busca de um desfecho satisfatório para aquela incógnita. Mais tarde descobri que o sangue não é mais do que água com mil e umas coisas que lhe dão cor e propósito, que essa água se mascara com criatividade pelos músculos e pelos ossos, pelos órgãos, e que pode ser água e ser gordura, tecido e tédio e bombas-relógio. Sei agora que os tais 70% de presença aquosa no nosso corpo se vão dissipando à medida que nos encaminhamos para os últimos dias, como se perdêssemos reservas de sangue, suor e lágrimas. Creio que li algures que aos 80 anos apenas metade do nosso corpo é composto por água. Provavelmente se continuássemos a resistir ao fado, chegaríamos enxutos ao século e meio, autênticos animais embalsamados. Descobri tudo isso, entre outras coisas, desde a tal aula nos anos 1990. Continuo, no entanto, a acordar várias vezes pela noite dentro, nos tais instantes em que o sono se surpreende por ainda ser madrugada, suado e perturbado por estar a suar. E essa angústia faz-me suar mais umas quantas gotas.

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