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Longitudinal

Conversas em isolamento #2

Falar pelos cotovelos

Março 31, 2020

(O sentido da votação foi unânime após a primeira conversa desta história. Mais uma vez, no final do texto deixo duas hipóteses de conversas futuras para que possam escolher aquela que preferem continuar a ler.)

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#1 - Falar para uma parede

Ao décimo dia sem sair de casa, a Lara acordou de mau humor. Os cantos da boca estavam presos ao fundo da cara e tinha uma vontade incrível de berrar. Acontece a toda a gente, é verdade, mas com ela era a primeira vez. A Lara fazia questão de acordar sempre bem-disposta. Até em dias fechados como estes. Até depois de passar uma semana inteira a ver o parque ao longe, pela janela do quarto, a inventar escorregas nas pernas dos pais. 

Logo ela que, todas as manhãs, se espantava quando via os olhos dos pais, acabados de acordar e já cansados. Abriam as pálpebras de manhã, pensava a Lara, como se já soubessem como iria ser o dia que tinham pela frente. Embora ela tivesse a certeza de que isso não era possível - à noite, a escuridão não nos deixa ver nada, muito menos o futuro. Ela já sabia o motivo. Os pais acordavam mal dispostos pela mesma razão que todos os adultos se aborrecem por ter de ver um filme de novo. Ou por ter de repetir pela décima vez uma brincadeira qualquer. Acham que já viram tudo.

Ora neste dia, a Lara acordou mal-disposta pela primeira vez na vida. Cruzou-se com a mãe e resmungou. Passou pela cadela e nem lhe disse os bons dias, como habitualmente. Nem agradeceu ao pai as torradas besuntadas de manteiga. A vontade de gritar crescia cada vez mais. Às vezes sentia-a na barriga, outras vezes parecia que subia até à garganta. Só quando a sentiu a rolar pela língua, quase a sair cá para fora, é que percebeu que tinha de fazer alguma coisa.

Muitas vezes diziam-lhe que falava pelos cotovelos. Acontecia normalmente quando chegava da escola e tinha uma longa lista de episódios para contar. As palavras saltavam para as cavalitas umas das outras. "Tem calma, Lara", diziam, "estás a falar pelos cotovelos". Mas os cotovelos dela estavam tapados pelo casaco. Era a boca dela que não conseguia esperar para contar tudo. 

Se afinal os cotovelos conseguem falar sem fazer barulho talvez a pudessem ajudar neste dia. Se eles falassem por ela, a Lara não teria de gritar. Restava descobrir como o fazer. Arregaçou as mangas do pijama e olhou para os cotovelos com uma atenção que nunca lhes tinha dado. Pareciam simpáticos mas de poucas conversas. Talvez um pouco secos. Dobrou e esticou os braços muito depressa e quase conseguiu imaginar uma boca a mexer-se na dobra dos cotovelos. Mas continuava sem escutar qualquer som. Por outro lado, dentro da boca da Lara o tal grito estava prestes a escapar. Não tinha muito tempo.

Pegou numa caneta e desenhou no cotovelo esquerdo dois olhos e um sorriso. Foi complicado mas a Lara sentiu que lhe tinha dado alguma vida. Foi até ao espelho e admirou aquele risco sorridente. Tinha ficado certinho, tal qual os sorrisos com que gostava de acordar. Sorrir bem podia ser outra maneira de falar, menos complicada, imaginou.

Entretanto ela já se tinha esquecido um pouco do mau-humor com que acordou. Já não queria falar pelos cotovelos só para não gritar. Desejava que o cotovelo falasse com ela, por mais impossível que isso fosse. Voltou a pegar na caneta, desta vez para desenhar outra cara sorridente no cotovelo direito mas o desafio de desenhar com a mão esquerda revelou-se bem mais difícil. Os olhos saíram duas bolas irritadas e a boca uma linha torta como uma centopeia. Ao olhar para os cotovelos no espelho, descobriu duas caras completamente diferentes. Um cotovelo sorria, o outro olhava desconfiado. Parecia que se conheciam.  O cotovelo direito não podia estar mais chateado. Se calhar tem razões para isso, pensou a Lara. Não percebia se o sorriso do cotovelo esquerdo era um sorriso igual aos dela ou se estava a fazer troça do outro. 

"Não te cansas de estar sempre a rir?" A Lara quase saltou de surpresa quando ouviu a pergunta. "Eu tive de ficar com esta boca torta e tu ainda sorris?". Mas desta vez a Lara percebeu que a voz grossa vinha do cotovelo direito. O cotovelo esquerdo continuava de boca fechada, sorridente. Ela também não conseguia abrir a dela. "Já sabia que não ias dizer nada. Não admira, tens mesmo cara de quem cheira mal da boca", acusou o cotovelo irritado. "Tu é que cheiras mal da boca", respondeu finalmente o outro cotovelo, embora ainda a sorrir. Era a primeira vez que a Lara assistia a uma conversa de cotovelos. Estava sem pio. "Eu mal consigo abrir a boca, como é que sabes se cheiro mal ou não?", disse um. "Se calhar não a abres porque tens os dentes podres", respondeu o outro. "E tu se calhar nem dentes tens..." Por esta altura, a Lara já tinha percebido que ia ser complicado fugir daquela situação. Para onde quer que fosse, os cotovelos iriam com ela e a discussão também. Ela ia estar no meio daquela troca de insultos.

Sem que eles se apercebessem, ela pegou num casaco e começou a vesti-lo muito devagar. Primeiro a gola, depois as duas mangas de uma vez só, para os cotovelos não darem por isso. Por trás do tecido da camisola, eles ainda continuaram a gritar durante um bom bocado. Ela sentia o algodão a tremer pelos braços acima e abaixo. Até que finalmente eles se acalmaram e ficaram apenas a resmungar, como se estivessem a fazer-lhe umas cócegas muito leves. A Lara saiu do quarto, fechou a porta com calma. Percebeu que a vontade de gritar tinha desaparecido. E então suspirou. "Como é que os adultos acham que já viram tudo?". 

 

Qual a próxima conversa da Lara?

A - Conversa de café

B- Conversa de chacha

 

Conversas em isolamento #1

Falar para uma parede

Março 18, 2020

(Nos últimos dias tenho estado em casa - um privilégio e uma opção. Num terceiro andar onde cabem quatro pessoas e uma cadela, temos visto televisão, pintado cartão, papel e as próprias mãos, respirado fundo de vez em quando. E, claro, temos contado histórias. Daí me ter lembrado de começar a contar esta história curta para adultos, crianças e animais de estimação - que provavelmente vai acabar a ser uma espécie de cadáver esquisito, um repositório de conversas alavancado por este tédio novo. No final deste primeiro texto deixo duas hipóteses de conversas futuras. Nos comentários indiquem qual a vossa favorita. Prometo continuá-la dia sim, dia não.)

falaraparaumapoarede

Estar aborrecido é uma coisa engraçada. Por vezes, é como ter uma grande pedra a bloquear o caminho. Mas também pode transformar-se numa daquelas pedras redondas dos desenhos animados que rolam colina abaixo atrás do herói. Estar aborrecido põe a nossa cabeça a correr mais depressa. Talvez até mais do que quando estamos entretidos. 

Depois de alguns dias sem sair de casa, a Lara lembrou-se que poderia ser divertido falar para uma parede. Quando as pessoas falavam disso tinham um tom de voz impaciente. No entanto, como ela agora tinha todo o tempo do mundo, era a altura ideal para tentar fazê-lo. Começou por percorrer todas as divisões de casa para encontrar a parede perfeita para conversar. O passeio deixou-a desiludida. A maior parte das paredes estava coberta de armários e estantes. Outras cheias de molduras. Ficou preocupada porque se as paredes tinham ouvidos, como lhe tinham dito, não iriam conseguir ouvi-la cobertas de tanta tralha. 

Finalmente, encontrou uma parede mais desocupada, mesmo em frente à casa de banho. Sentou-se à sua frente. Tossiu um bocadinho, como os adultos fazem antes de começar uma conversa importante. Pensou dizer "Olá" mas, quando abriu a boca no segundo a seguir, o que disse foi "Que idade tens?". A parede não lhe respondeu. Aliás, pareceu ter ficado ofendida com a pergunta porque ficou ainda mais branca. A Lara pediu-lhe desculpa. Disse "Olá", desta vez sem se enganar, e apresentou-se como se estivesse na escola: nome, idade, profissão da mãe, profissão do pai, passatempos favoritos. Só não disse onde vivia porque isso a parede já sabia. 

A parede continuava branca, sem lhe responder. A Lara começou a pensar que talvez não tivesse sido boa ideia tentar falar para uma parede. O que tem uma parede para contar a uma rapariga de 6 anos? Que nasceu ao mesmo tempo daquela casa e viu a primeira família a chegar, a crescer, se calhar a crescer tanto que acabou por vê-la a sair? Que ouviu tantas famílias a passar à sua frente e que a da Lara é apenas mais uma? Que já várias vezes lhe tentou dizer olá mas ela nunca lhe respondeu? Que já tem cinco camadas de tinta diferentes e por isso não ouve tão bem quanto ouvia? Que ser uma parede é uma tarefa difícil e que odeia a humidade? 

"Se calhar está a dormir". A Lara levantou-se, encostou a mão à parede branca e disse-lhe até já. Nesse instante, a única moldura que estava pendurada na parede caiu no chão, sem se estragar. Pode ter sido coincidência. A Lara preferiu pensar que a parede afinal tinha alguma coisa para dizer a uma rapariga como ela.

 

Qual a próxima conversa da Lara?

A - Falar para o boneco

B- Falar pelos cotovelos

 

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