Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Longitudinal

Longitudinal

Dos manuais às universidades, onde está o racismo na escola?

Neste quarto trabalho da série Racismo à Portuguesa, analisa-se a forma como ao longo das várias etapas do sistema de ensino os alunos negros são avaliados e escrutinados. Mas também a representação do colonialismo, da escravatura e dos cidadãos negros nos manuais escolares. Esta série é a segunda parte da série Racismo em Português, sobre o colonialismo português em África e centra-se, por isso, no racismo contra os negros. Justiça, habitação, emprego, educação, activismo e as marcas do colonialismo em Portugal são as áreas abordadas.

 

(Reportagem de Joana Gorjão Henriques, Frederico Batista e Sibila Lind)

"Vemos as cores, não vemos as competências"

Terceiro trabalho da série Racismo à Portuguesa, do jornal Público, com uma perspectiva sobre o mercado de trabalho em Portugal. Esta série é a segunda parte da série Racismo em Português, sobre o colonialismo português em África e centra-se, por isso, no racismo contra os negros. Justiça, habitação, emprego, educação, activismo e as marcas do colonialismo em Portugal são as áreas abordadas.

 

(Vídeo de Sibila Lind, Joana Gorjão Henriques e Frederico Batista)

"Somos negros. Portugal ainda não dá valor como gente"

 

 

Segundo trabalho da série Racismo à Portuguesa, do jornal Público, onde se analisa o acesso à habitação, desde a procura de casa à construção informal de bairros. Esta série é a segunda parte da série Racismo em Português, sobre o colonialismo português em África e centra-se, por isso, no racismo contra os negros. Justiça, habitação, emprego, educação, activismo e as marcas do colonialismo em Portugal são as áreas abordadas.

 

(Reportagem de Joana Gorjão Henriques e Frederico Batista)

"A lei pinta o suspeito de negro"

 

Primeiro trabalho da série Racismo à Portuguesa, do jornal Público, onde se o panorama do sistema judicial português, desde a actuação policial até às prisões, onde se verifica uma sobre-representação dos cidadãos negros. Esta série é a segunda parte da série Racismo em Português, sobre o colonialismo português em África e centra-se, por isso, no racismo contra os negros. Justiça, habitação, emprego, educação, activismo e as marcas do colonialismo em Portugal são as áreas abordadas.

Os bolsos e as possibilidades falhadas

onceuponatime.jpg

  

Em minha casa, quando não sei onde pára um objecto qualquer, há uma expressão costumeira atirada na minha direcção: "procura nos bolsos". Neste caso, nos bolsos dos meus casacos e das minhas calças. É uma piada mas daquelas que se cobrem desavergonhadamente de verdade. Já encontrámos chaves perdidas há vários dias, documentos dados como desaparecidos durante semanas - aquilo que conseguirem imaginar. Não poucas vezes tem o seu quê de surpreendente. E não falo de voltar a encontrar uma nota de cinco euros que recebi como troco num café. Falo de achar possibilidades.

 

Nas últimas semanas voltei a usar um casaco que já não saía do cabide há alguns meses. Enfiei as mãos nos bolsos, começando a esvaziá-los, e encontrei potenciais peças de um potencial museu. O museu dos planos que não cumprimos.

 

Num dos bolsos encontrei um folheto com a programação de uma série de transmissões de peças de Shakespeare num cinema de Lisboa. Em directo, a partir de Londres. Nessa altura, há muitos meses, o bardo inglês faria quatrocentos anos - se se tivesse mantido mais vivo do que aquilo que está. Este ano já faria quatrocentos e um e ninguém festeja esse tipo de aniversários. Reparei que tinha sublinhado duas sessões, em dias e horários que, naquele momento, pareciam possíveis de cumprir. Os planos falharam. Nem me lembro exactamente que outros planos se intrometeram na sua concretização. Reconheço apenas neste folheto o rosto amarrotado de uma possibilidade.

 

*

 

Segunda-feira, onze da noite. Um homem aproxima-se do microfone no palco do bar Templários, em Lisboa. Veste uma t-shirt escura onde se lê "out of place" mas a atitude desmente esse statement. Está obviamente no seu elemento mesmo que a última vez que tenha actuado diante de uma plateia tenha sido há quarenta e dois anos. Tinha dezoito anos.

 

Nessa época tocava, cantava, compunha. Entretanto casou, teve uma filha, teve outra, teve empregos, teve netos, teve abalos sísmicos dos bons e dos maus. O pai da Sara chegou aos sessenta há pouco mais de três semanas. Continua a tocar, a cantar e a compôr. Orgulha-se da sua música, exibe esse orgulho como um acto de resistência. Mesmo no interior da própria família, é difícil encontrar validação quando a vida já deu tantas voltas que acabou por reduzir uma fatia importante da nossa identidade a um mero acessório. Mas o Rui, o pai da Sara, persiste. Mesmo que tenha de ouvir a sua música com auscultadores, para evitar que o resto da família lhe peça para baixar o volume.

 

Quantos planos por cumprir se podem encaixar num período de tempo tão longo? É impossível não conjecturar hipóteses, possibilidades. Como seria se o concerto seguinte não tivesse demorado tanto tempo a acontecer? Se o Rui tivesse tido tempo e oportunidades suficientes para se aborrecer de dar concertos. Há vidas mais curtas do que as décadas que se demoraram entre estes dois momentos de exposição pública. Quantas dessas vidas se manifestam diante de nós enquanto escutamos, música a música, alguém a rebelar-se contra as expectativas?

 

Talvez seja isto aquilo que se sente quando nos cumprimos, quando damos a volta às possibilidades falhadas.

 

 *

 

De cara colada ao vidro, Lisboa ia passando pela ponta do nariz de dois miúdos espanhóis, com quem partilhei o setecentos e vinte e oito. "Olha, um castelo mágico", apontou para o alto. Não era um castelo, era o Panteão a recolher-se atrás dos telhados. "Olha, as matrículas dos carros são códigos secretos." Eram matrículas completamente normais, mesmo de acordo o padrão espanhol. "Olha, o rio está a fazer ondas." Estava, mas era apenas a esteira de um navio. "Olha, estão dois monstros escondidos atrás daquele prédio." E se estivessem mesmo?

 

(lá em cima, uma still do Era uma vez na América, do Sergio Leone) 

"Era o mar, era a terra e era a baleia"

A memória é uma coisa que vem em debandada mesmo que, por vezes, demore a revelar-se. É também uma coisa que apanhamos quase sempre no último troço de uma cadeia longínqua. A minha memória é também a dos meus pais, dos meus avós, dos meus tios, dos meus bisavós que não conheci. Cheguei ao Pico depois de ouvir o Francisco Henriques, que me falou dos baleeiros que ele e o Luís Bicudo andavam a escutar há mais de um ano em todas as ilhas dos Açores. Esses baleeiros - os últimos e os derradeiros desde há décadas - continuavam a aparecer. Como as memórias, curiosamente.

 

O Luís, por exemplo, anda a fixar a memória dos avós, e por arrasto a da sua ilha e a do seu arquipélago, há alguns anos. Com uma curta-metragem, com uma longa-metragem, e depois com um projecto a quatro mãos, correndo as nove ilhas dos Açores em busca dos testemunhos de quem andou na caça ao cachalote. É um percurso de endurance. Não poderia ser de outra forma, suponho. Este último projecto, aquele que fez com o Francisco, chama-se Arquivo de Memórias da Baleação. É um tesouro.

 

Em 1867, Mark Twain esteve nos Açores durante uma viagem a bordo do paquete Quaker City. Passou ao largo da ilha das Flores. Esteve pouco tempo no Faial, durante o qual admirou a milagrosa limpeza da ilha e as suas estradas maravilhosas. O mesmo não podemos dizer da sua percepção dos faialenses. "A comunidade é principalmente portuguesa - ou seja, pobre, apática, modorrenta e preguiçosa", escreveu nos seus relatos (publicados em Portugal pela Tinta da China, com o título A Viagem dos Inocentes).

 

Por esta altura já havia açorianos na baleação norte-americana há décadas e mesmo nos Açores já se caçavam cachalotes ao largo das ilhas, sobretudo naquelas mais a Oeste. Lembro-me portanto das palavras de João Carlos Lopes, que no início dos anos 1980 foi ao Faial ao encontro dos baleeiros ainda no activo: "Imagine um pequeno bote, com sete homens lá dentro, um homem de pé com uma lança na mão a fazer a aproximação a um bicho do tamanho de um autocarro." Não consigo ajustar isto nem à apatia, nem à modorra, nem à preguiça que Twain disse ter encontrado. Recordo-me ainda das conversas com os baleeiros e da forma como falavam da sua vida, a de agora mas sobretudo a daquele tempo. Com arrebatamento, como quando a memória se começa a desembaraçar.

 

"Era o mar, era a terra e era a baleia"

Especial multimédia "Era o mar, era a terra e era a baleia"

Reportagem Nos Açores, à procura de homens que são máquinas do tempo 

 

 

Steiner e os perigos da ficção

"Toda a minha vida foi dominada pela pergunta: como é que aquilo pôde acontecer na Europa? Como é que por trás da casa de Goethe existe um campo de concentração? Como é que o país mais educado do mundo se tornou nazi? Nunca se esqueça de que a educação na Alemanha era provavelmente a mais avançada, mas não foi suficiente para travar Hitler. Toda a minha vida me interroguei sobre se as humanidades realmente humanizam. Deixe-me colocar a questão desta forma: passo o dia todo com os meus alunos a ler o King Lear e, ao voltar para casa, estou tão possuído interiormente por esse texto que não ouço os gritos de alguém na rua. Alguém grita por ajuda e eu não ouço. Sempre me intrigou até que ponto a ficção - e 'ficção' é a palavra-chave - pode ser mais poderosa do que a realidade. Passei a vida a ensinar as pessoas a ler e a amar o que leem. Mas questiono-me a mim próprio sobre o perigo imenso de nos identificarmos com a ficção."

 

(George Steiner em entrevista a Luciana Leiderfarb numa revista do Expresso de há umas semanas)