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Longitudinal

Longitudinal

Talvez

"E isto, dizia-me Virgílio, esta vontade de dançar sem dançar, de ir vivendo sem viver, de passar pelo mundo sem deixar rasto, só um fio de memória puxado por quem não tiver mais que fazer, isto talvez seja uma filosofia prática tão boa como as melhores. No gesto leve e difícil de passear por entre as mesas do café com uma bandeja cheia de copos e chávenas equilibradas na palma da mão talvez Ernesto tivesse alcançado mais sabedoria o que a que nos foi reservada, talvez tivesse estado mais perto da perfeição do que nós alguma vez estaremos. (...) O bailado de Ernesto, o seu lábio descaído, as suas rotinas, o chocalhar dos trocos na bolsa, a casa onde não tinha ninguém à espera, a sua tristeza imponderável, os pensamentos íntimos, a sua felicidade secreta, a morte rápida sem demasiado sofrimento, a perfeição."

 

(As Pequenas Coisas, Bruno Vieira Amaral)

 

Uma experiência mais humana

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"A cerimónia de três horas foi de uma ansiedade interminável. A meio, esgueirei-me até ao lobby, onde apanhei o Richard Burton a fumar um cigarro. Ele olhou para mim e disse alguma coisa sobre ter dúvidas de alguma vez vir a ganhar uma "dessas malditas coisas". Eu anui com a cabeça. Que mais poderia fazer? Eu estava ao lado de uma lenda. Ele tinha razão. Não ganhou. Ganhou o Richard Dreyfuss. A imagem do Dreyfuss a bater palmas e a sacudir os punhos era difícil de superar, mas o encontro particular e cara a cara com o Richard Burton teve um poder mais duradouro. Talvez perder seja uma experiência mais humana."

 

(Diane Keaton sobre a cerimónia dos Oscars de 1977, na qual venceu o prémio de Melhor Actriz por Annie Hall, num excerto do seu livro de memórias Then Again.)

Em Chernobyl, a tomar nota do futuro

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"- Já não podemos, como os heróis de Tchékhov, acreditar: daqui a cem anos o homem será belo! A vida será bela!! Perdemos este futuro. Passados cem anos, houve o gulag estalinista, Auschwitz... Chernobyl... E o 11 de Setembro em Nova Iorque... Não dá para perceber como é que tudo isto se dispôs e coube na vida de uma geração, na sua dimensão. Por exemplo, na vida do meu pai, que tem agora oitenta e três anos? O homem sobreviveu?

 

- O que lembramos mais de Chernobyl é a vida depois de tudo: as coisas sem o homem, as paisagens sem o homem. O caminho para o nada, cabos para o nada. Chega-se a duvida, o que será: o passado ou o futuro?

 

- Às vezes parecia-me estar a tomar nota do futuro..."

 

(Vozes de Chernobyl, Svetlana Alexievich)

 

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(Fotografias: Guillaume Herbaut

A história de Iggy Peck, o Arquitecto

 

 

 

 

(Já há uns meses que andava para escrever este post. Na última viagem que fiz abasteci-me com (demasiados) álbuns ilustrados. Um deles foi “Iggy Peck Architect”, de Andrea Beaty. Li-o na diagonal na loja e, logo a seguir, li-o por inteiro sentado na relva de um jardim. Aqui fica esse momento.)

 



O nome dele é Ignacious. Mas aqui é apenas Iggy. Iggy Peck. Em pequeno chegou a arrancar as fraldas que o obrigavam a usar e fez uma espécie de Torre de Pisa com a ajuda de um tubo de cola. A mãe não gostou.


As construções continuaram. Aos três anos Iggy atarefava-se a erguer castelos e igrejas usando apenas pêssegos e maçãs. Os pais já se começavam a habituar.

 



Mas na segunda classe encontrou uma nova professora, rígida como a Torre Eiffel. “A arquitectura não tem lugar aqui nesta sala”. E o Iggy, que entretanto se tinha entretido a construir um castelo com pauzinhos de giz, percebeu que o seu sonho tinha acabado de chocar contra um obstáculo.

 

 

 

 


(Mas o que ele nem os colegas sabiam era a origem do trauma da professora. Tudo começou quando ela, ainda com a idade que eles tinham agora, se perdeu dos colegas durante uma visita de estudo numa cidade com  arranha-céus altíssimos. Durante dois dias ninguém soube dela até ser encontrada no meio de palhaços, contorcionistas e trapezistas de um grupo de circo.)

 

 

 

 

Umas semanas depois, já o Iggy se entediava na secretária da sala de aula, a professora decidiu sair.

 





Fumo

 



"O comboio tem muitos vagões, não é como aquele que apanhávamos para ir à praia".
Um livro que me apanhou há umas semanas atrás, quando o tirei de uma prateleira na Casa Ruim, e o li pela primeira vez.
Não fiquei descansado enquanto não o trouxe para casa.
Não fico descansado de cada vez que termino de o ler. Não há como.
Procurem este livro.

Aquele pombo ali

 

Num sonho. O tema em cima da mesa era a consagração literária. Vários nomes de prémios foram falados: o Man Booker Prize, o Goncourt, o Prémio PT... A conversa terminou quando alguém referiu um escritor desconhecido e o prémio (também desconhecido) que ele havia ganho:

 

"um distrito de saudades do tamanho daquele pombo"

 

(e o pombo nem sequer era encorpado)

 

Ão ão ão ão

 

 

 

O Planeta Tangerina, já sabemos, é um planeta especial.

Mas eles gostam de nos ir lembrando disso.

Agora, através do blog da editora, cheguei a este texto onde a Isabel Minhós Martins descreve, a propósito da edição brasileira do livro "O Meu Vizinho é um Cão", o processo de criação do livro.

É sempre bom ter a sensação de descobrir como foi feito algo de que gostamos. Melhor ainda quando lemos uma frase destas:

"Meu vizinho é um cão deu alguma discussão, não julguem que não."

 

Quem não fica com vontade de ladrar?