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Longitudinal

Longitudinal

Uma experiência mais humana

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"A cerimónia de três horas foi de uma ansiedade interminável. A meio, esgueirei-me até ao lobby, onde apanhei o Richard Burton a fumar um cigarro. Ele olhou para mim e disse alguma coisa sobre ter dúvidas de alguma vez vir a ganhar uma "dessas malditas coisas". Eu anui com a cabeça. Que mais poderia fazer? Eu estava ao lado de uma lenda. Ele tinha razão. Não ganhou. Ganhou o Richard Dreyfuss. A imagem do Dreyfuss a bater palmas e a sacudir os punhos era difícil de superar, mas o encontro particular e cara a cara com o Richard Burton teve um poder mais duradouro. Talvez perder seja uma experiência mais humana."

 

(Diane Keaton sobre a cerimónia dos Oscars de 1977, na qual venceu o prémio de Melhor Actriz por Annie Hall, num excerto do seu livro de memórias Then Again.)

Em Chernobyl, a tomar nota do futuro

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"- Já não podemos, como os heróis de Tchékhov, acreditar: daqui a cem anos o homem será belo! A vida será bela!! Perdemos este futuro. Passados cem anos, houve o gulag estalinista, Auschwitz... Chernobyl... E o 11 de Setembro em Nova Iorque... Não dá para perceber como é que tudo isto se dispôs e coube na vida de uma geração, na sua dimensão. Por exemplo, na vida do meu pai, que tem agora oitenta e três anos? O homem sobreviveu?

 

- O que lembramos mais de Chernobyl é a vida depois de tudo: as coisas sem o homem, as paisagens sem o homem. O caminho para o nada, cabos para o nada. Chega-se a duvida, o que será: o passado ou o futuro?

 

- Às vezes parecia-me estar a tomar nota do futuro..."

 

(Vozes de Chernobyl, Svetlana Alexievich)

 

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(Fotografias: Guillaume Herbaut

A história de Iggy Peck, o Arquitecto

 

 

 

 

(Já há uns meses que andava para escrever este post. Na última viagem que fiz abasteci-me com (demasiados) álbuns ilustrados. Um deles foi “Iggy Peck Architect”, de Andrea Beaty. Li-o na diagonal na loja e, logo a seguir, li-o por inteiro sentado na relva de um jardim. Aqui fica esse momento.)

 



O nome dele é Ignacious. Mas aqui é apenas Iggy. Iggy Peck. Em pequeno chegou a arrancar as fraldas que o obrigavam a usar e fez uma espécie de Torre de Pisa com a ajuda de um tubo de cola. A mãe não gostou.


As construções continuaram. Aos três anos Iggy atarefava-se a erguer castelos e igrejas usando apenas pêssegos e maçãs. Os pais já se começavam a habituar.

 



Mas na segunda classe encontrou uma nova professora, rígida como a Torre Eiffel. “A arquitectura não tem lugar aqui nesta sala”. E o Iggy, que entretanto se tinha entretido a construir um castelo com pauzinhos de giz, percebeu que o seu sonho tinha acabado de chocar contra um obstáculo.

 

 

 

 


(Mas o que ele nem os colegas sabiam era a origem do trauma da professora. Tudo começou quando ela, ainda com a idade que eles tinham agora, se perdeu dos colegas durante uma visita de estudo numa cidade com  arranha-céus altíssimos. Durante dois dias ninguém soube dela até ser encontrada no meio de palhaços, contorcionistas e trapezistas de um grupo de circo.)

 

 

 

 

Umas semanas depois, já o Iggy se entediava na secretária da sala de aula, a professora decidiu sair.

 





Fumo

 



"O comboio tem muitos vagões, não é como aquele que apanhávamos para ir à praia".
Um livro que me apanhou há umas semanas atrás, quando o tirei de uma prateleira na Casa Ruim, e o li pela primeira vez.
Não fiquei descansado enquanto não o trouxe para casa.
Não fico descansado de cada vez que termino de o ler. Não há como.
Procurem este livro.

Aquele pombo ali

 

Num sonho. O tema em cima da mesa era a consagração literária. Vários nomes de prémios foram falados: o Man Booker Prize, o Goncourt, o Prémio PT... A conversa terminou quando alguém referiu um escritor desconhecido e o prémio (também desconhecido) que ele havia ganho:

 

"um distrito de saudades do tamanho daquele pombo"

 

(e o pombo nem sequer era encorpado)

 

Ão ão ão ão

 

 

 

O Planeta Tangerina, já sabemos, é um planeta especial.

Mas eles gostam de nos ir lembrando disso.

Agora, através do blog da editora, cheguei a este texto onde a Isabel Minhós Martins descreve, a propósito da edição brasileira do livro "O Meu Vizinho é um Cão", o processo de criação do livro.

É sempre bom ter a sensação de descobrir como foi feito algo de que gostamos. Melhor ainda quando lemos uma frase destas:

"Meu vizinho é um cão deu alguma discussão, não julguem que não."

 

Quem não fica com vontade de ladrar?

 

 

Da valentia

 

«mas sempre achei que a valentia física está ligada à ausência total de imaginação, à incapacidade de aperceber mentalmente o perigo e, por conseguinte, quando mais fantasiosos somos mais medo temos»

 

A Louca da Casa

Rosa Montero

(algures na página 65)