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Longitudinal

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Uma casa #1

Casas vivas

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A minha casa mudou de sítio. Fez-se pesada antes de entrar numa carrinha de mudanças, despediu-se das paredes onde viveu oito anos, subiu aos bocados para um terceiro andar e tem passado os últimos dias a instalar-se, com o caprichoso vagar de um felino. Esconde no fundo de sacos e caixotes objectos cujo paradeiro não tem vontade de denunciar. Amontoa-se como pode junto às paredes, encolhe quartos quando se espreguiça, tem de ser desbastada. Tem de ser domada. Esta casa, como as casas em geral, tem uma cartilha, que não depende das quatro paredes em que a fecham. Demora a aceitar novas coordenadas geográficas. Podemos respeitar as suas delongas mas se as não vigiarmos encontram forma de ganhar terreno, sorrateiras, caseiras como as casas podem ser. A minha casa, ainda mal refeita da mudança, permanece (em parte) encerrada em caixotes que aguardam o seu momento de liberdade. Enquanto espera, vai espreitando o prédio em frente, sobretudo aquela janela de estores esquecidos, onde descobre todos os dias a casa que poderia ser, se tivesse a liberdade de se espraiar como sonha.

 

"Todos os bairros de Lisboa são ordinários"

Panorâmica de Lisboa

Panorâmica de Lisboa [entre 1950 e 1959] / Arquivo Municipal de Lisboa

 

"Todos os bairros de Lisboa são ordinários", frisou, divertido, Afonso. E citou-lhes os nomes: Alfama, Mouria, Bairro Alto, Alcântara... Todos eles bairros ordinários, mas encantadores. Seguiu-se um pequeno discurso sobre a cidade, nada de veramente sensacional, um quotidiano de amoroso, uma síntese  galanteadora, um sentimento de Marialva pela sua Severa endiabrada, tudo muito diluído pela sensação de que nenhum dos presentes podia inteiramente aderir àquele amor pela sua cidade, àquele sentir e ver de coisas muito suas desde sempre, menino bem tratado que viera calcorreando os caminhos tortuosos da Madragoa até descobrir a Avenida, e depois, mais além, a Mouraria prometida à demolição (como já acontecera ao Bairro da Liberdade e decerto aconteceria ao Bairro Alto); mais longe, o Terreiro do Paço, via Algés, ou, da outra banda, à partida de Cacilhas, um outro mundo de encantos, rematado pela Arrábida. Tudo aquilo era Lisboa ou era ainda Lisboa, a capital, a cabeça da Metrópole, o centro das iniciativas, a sede dos Ministérios laboriosos, a colmeia e o enxame, os cabarés provincianos, a irmã-pobre das capitais europeias - mas quanto sol, quanta amenidade! Uns toques, aqui e ali, do mito europeu, tão dispersos que quase inexistentes se tornavam... E a torturada Lisboa fadista, a burguesíssima Lisboa das canções importadas, a pseudo-aristocratíssima Lisboa do Chiado-acima-e-abaixo, a milagrosa sobrevivência da arte maldita nos cafés caricaturais e nos teatros a cair de podres...

 

Conforme as propostas de perguntas apresentadas, falou-se ainda (ou falou Afonso) da Lisboa manuelina, a da arte burguesa enriquecida, e da Lisboa pombalina, passando pelo Aqueduto das Águas Livres, num percurso que vinha de Belém por Campolide, até à Baixa Comercial, populosa como um formigueiro e exacta como os ideais do senhor Marquês. Abordou-se o caso popular de Lisboa, independente das manifestações desportivas - coisa que nenhum dos presentes ainda tinha descoberto. Algo no género dos balõezinhos de Santo António e do Mercado da Ribeira, noites de festa na praça da Figueira e altarinhos em Alfama, tiros no Parque Mayer e cinemas de bairro..."

 

(A Gata e a Fábula, Fernanda Botelho, 1959)

Por quanto tempo pode um prédio continuar a subir?

 

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Hora de almoço e uma mesa corrida à volta da qual se plantam tupperwares e janelas rasgadas para uma rua de segunda ordem onde um prédio começa a subir e as vozes de dentro se misturam com as de fora e os talheres com as picaretas e um plim do microondas comunica que o almoço está pronto pela segunda vez e à nossa volta alguém engole "feijão com arroz como se fosse o máximo" e bebe e soluça "como se fosse máquina" e no dia seguinte o prédio que já foi apenas uma cova na esquina de uma rua de segunda ordem com uma rua de terceira ordem continua na mesma e duas semanas depois, ou foi um dia apenas?, já vemos mais um ou dois pisos e pensamos na rapidez com que eles fazem isto e na velocidade com que afinal o mundo se reveste e em como muitas coisas começam afinal por ser um buraco aberto no meio de uma rua, no mesmo sítio onde nos lembramos de ter visto outro prédio qualquer há uns bons anos, e vai mais uma garfada de empadão e vai mais um naco de carne reaquecido e o ruído das obras não é assim tão diferente do de uma pessoa que se entrega à dádiva da fala como um cão se lança sobre um saco de broas e o prédio continua a subir e  mesmo que tenham passado meses parece que ele segue veloz a trepar quando na verdade se arrasta a conta-gotas rumo às nuvens como uma estalagmite de betão e vigas e mãos e andaimes e dureza e capacetes coloridos e de uma fadiga que roça a abnegação e de outras mãos ainda e de indiferença e berros que desabam do sexto piso até ao passeio e outro plim devolve-nos ao prazer singelo da segunda refeição mais importante do dia e, ao passo que deglutimos, a cidade continua a bolçar das suas entranhas mais um piso de um prédio que parece acariciar os céus mais do que arranhá-los e praticamente ouvimos o seu roçagar nessa penugem nubígena que dos homens primordiais ao Astérix nos assombra de livre vontade e no entremeio do palavreado de circunstância e das garfadas de bacalhau com natas e pescada cozida com todos há mais um patamar rumo à vizinhança entre o solo e os anjinhos e o prédio está ainda mais altaneiro e vem mais um plim e depois