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Longitudinal

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Grandes esperanças

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Todas as semanas há milhões de pessoas a falhar o alvo milionário. Porventura porque tantos outros milhões de pessoas passam os dias a fazer figas, desejando para si os números afortunados e não para o camarada da frente, que também fez uma aposta automática para os sorteios de terça e sexta-feira. O feitiço a virar costas aos feiticeiros.

"Já jogou no Euromilhões?", perguntou-me de sorriso cândido a partir do banco da frente do táxi. Falou-me desses milhões que se vão acumulando todas as semanas, até alguém escapar às pragas rogadas pelos milhões que torcem a ponta dos dedos pela derrota alheia, uma multidão de dedos quase necrosados por tanto ansiar roubar aos outros a experiência táctil de revolver os milhões nos bolsos. Mas ele falava-me dos milhões com a franqueza de quem acredita realmente na hipótese de os sentir no bolso coçado das calças que trazia vestido.

Se ganhasse o Euromilhões, reformava-se. Aliás, despedia-se e aguardava a idade de acesso à reforma, para não sofrer penalizações. Mesmo com os milhões já a pesarem-lhe no bolso. Lembrei-me das extravagâncias de anteriores vencedores, com os seus carros topo de gama, a vida sem bolsos onde guardar milhões porque os milhões parecem levitar e transformam os sonhos em matéria.

Ele interrompeu-me. "Depois ia ali para Alcântara com a minha cana de pesca, lá para ao pé dos outros." Disse-o com o mais natural dos modos. Não soube dar crédito ao sonho deste milionário vindouro. Com efeito, ficar por Alcântara com tantos milhões não seria pouco ambicioso? "Pois, talvez fosse para Peniche. Dizem que por lá já se apanha peixe maior."

Esta semana, está em jogo um Jackpot de aproximadamente 150 milhões.  Quantas canas de pesca podemos comprar com esta soma? E o tempo para pescar, quanto custa?