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Longitudinal

Para que lado se estica a corda agora?

Agosto 31, 2021

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Quando nascemos, os nossos avós já são velhos. A sua longevidade é como um seguro de vida, um mistério reconfortante para quem ainda está a aprender a distinguir o dia de ontem do dia que está para chegar. À medida que crescemos, percebemos que afinal não eram assim tão velhos quanto julgávamos. Vão desafiando o tempo, esticando pequenos fios de cabelo até ficarem completamente brancos. Ficam cada vez mais velhos para que descubramos que eles já foram cada vez mais novos. Esticam a corda e equilibram-se sobre ela, dilatando um horizonte que julgávamos finito. Quem diria que os avós seriam os mais geniais funambulistas...
 
A minha avó materna viveu mais de nove décadas. Nasceu em 1929, renasceu umas quantas vezes ao longo da vida. Sobretudo quando foi obrigada a isso: viúva com duas filhas pequenas, a começar no primeiro trabalho da sua vida aos trinta e poucos anos. Trabalhou até aos 76 anos e depois disso teve de renascer para não se pasmar com a vida. Puxou a corda durante anos, puxou-a bem longe. Começou cedo, quando era miúda. No caminho de casa para a escola, e no regresso, combinava com a empregada que a deixasse andar uns metros à frente dela, para escapar por instantes ao apertado controlo parental. Duas vezes por dia, sentia-se mais livre. Os avós esticam a corda desde cedo, mesmo antes de saberem que um dia vão ser avós.
 
Vivi com ela durante sete anos. Nos primeiros tempos, pude testemunhar o frenesim das manhãs. Acordava frequentemente com a voz dela a gritar impropérios contra um tacho que teimava em esconder-se no armário. Encaixava uma rotina abundante nas poucas horas que tinha antes de seguir para o trabalho mesmo que tivesse de devorar o almoço em três garfadas para o conseguir. Quando eu me levantava, já ela estava a dilatar o tempo. Por isso, havia sempre uns minutos para parar na marquise, de rostos banhados pelo sol matinal. De vez em quando, dançávamos com a telefonia aos berros. "Lembras-te quem te ensinou a dancar?", perguntava-me. Foi ela. Há quase dez anos, no jantar do dia do 83.º aniversário, disse-nos que aquele tinha sido um dos dias mais felizes da vida dela. Era uma sexta-feira, o final de uma semana repleta de eventos na Academia Sénior da Junta de Freguesia, que culminou num baile com música popular. "Até senti uma alegria dentro de mim", confessou. Conseguem sentir quão longe pode a corda esticar?
 
Quando nasci, conheci duas avós. Nem o meu avô materno, nem o paterno conseguiram esticar a corda o tempo suficiente para que os conhecesse. A minha avó paterna morreu aos setenta e seis anos, quando eu tinha dez. A minha avó materna morreu ontem aos noventa e dois anos, pouco dias antes de eu chegar aos 35. Não tenho avôs nem avós. Para que lado se estica a corda agora? A ordem natural das coisas deixa-nos desiquilibrados.

 

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