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Longitudinal

Longitudinal

Por quanto tempo pode um prédio continuar a subir?

 

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Hora de almoço e uma mesa corrida à volta da qual se plantam tupperwares e janelas rasgadas para uma rua de segunda ordem onde um prédio começa a subir e as vozes de dentro se misturam com as de fora e os talheres com as picaretas e um plim do microondas comunica que o almoço está pronto pela segunda vez e à nossa volta alguém engole "feijão com arroz como se fosse o máximo" e bebe e soluça "como se fosse máquina" e no dia seguinte o prédio que já foi apenas uma cova na esquina de uma rua de segunda ordem com uma rua de terceira ordem continua na mesma e duas semanas depois, ou foi um dia apenas?, já vemos mais um ou dois pisos e pensamos na rapidez com que eles fazem isto e na velocidade com que afinal o mundo se reveste e em como muitas coisas começam afinal por ser um buraco aberto no meio de uma rua, no mesmo sítio onde nos lembramos de ter visto outro prédio qualquer há uns bons anos, e vai mais uma garfada de empadão e vai mais um naco de carne reaquecido e o ruído das obras não é assim tão diferente do de uma pessoa que se entrega à dádiva da fala como um cão se lança sobre um saco de broas e o prédio continua a subir e  mesmo que tenham passado meses parece que ele segue veloz a trepar quando na verdade se arrasta a conta-gotas rumo às nuvens como uma estalagmite de betão e vigas e mãos e andaimes e dureza e capacetes coloridos e de uma fadiga que roça a abnegação e de outras mãos ainda e de indiferença e berros que desabam do sexto piso até ao passeio e outro plim devolve-nos ao prazer singelo da segunda refeição mais importante do dia e, ao passo que deglutimos, a cidade continua a bolçar das suas entranhas mais um piso de um prédio que parece acariciar os céus mais do que arranhá-los e praticamente ouvimos o seu roçagar nessa penugem nubígena que dos homens primordiais ao Astérix nos assombra de livre vontade e no entremeio do palavreado de circunstância e das garfadas de bacalhau com natas e pescada cozida com todos há mais um patamar rumo à vizinhança entre o solo e os anjinhos e o prédio está ainda mais altaneiro e vem mais um plim e depois