Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Longitudinal

Longitudinal

Ich bin ein Berliner? #6

 

Na estreia do filme «Please Give» no Festival de Cinema de Berlim juntei-me aos mirones que se foram pôr à porta do Berlinale Palast para ver as actrizes do filme. Catherine Keener, Amanda Peet, Rebecca Hall... A primeira desviou-se como um invertebrado para escapar à incómoda passadeira vermelha e aos fotógrafos. As outras duas, entregaram-se à agridoce tarefa de ser carne de objectivas alheias. Um episódio curioso: depois de cinco ou dez minutos de poses mais ou menos forçadas e de cliques disparados sem perdão, as actrizes dirigem-se para a entrada do cinema. Num segundo, o magnetismo perdeu-se e os disparos das máquinas foram substítuidos por vaias e assobios. Como bebés que tiveram ao colinho do papá ou da mamã antes de adormecer e depois decidem resmungar na cama.  Foi embaraçoso, mesmo para quem, como eu, tinha ido ali para conseguir passar os olhos por uma ou outra vedeta de cinema.

Ich bin ein Berliner? #5

 

 

Um frio de início de noite é um frio de início de noite. E em Berlim, pelo menos nos dias que lá passei, tudo se tornou ainda mais agradável. "Onde fica o Kino International?" "É por ali, acho eu." "Onde fica a Karl Marx Allee?" "Não sei". Mas afinal é já esta aqui ao lado. Perdoo-vos, berlinenses educados mas incapazes.

A Karl Marx Allee entristeceu-me na mesma medida em que me regenerou. Quase um rio, rodeado de margens altas, impossíveis de escalar e escapar, mas circunscrito por passeios brancos. Brancos de neve. O oásis Kino International revelou-se um verdadeiro oásis. «Ainda há bilhetes para 'O Ilusionista'?». «'O Ilusionista'? Não é aqui, é no Urania». Fade out. Fade in. Sim, «O Ilusionista» é maravilhoso.

 

 

 

Ich bin ein Berliner? #4

 

 

Estes foram encontrados entre botas pretas, botas vermelhas, botas amarelas, sapatos de senhora, sapatos de senhor, saltos altos, solas gastas, sapatos deformados por outros pés, sapatos, sapatinhos, sapatilhas. Em segunda mão, todos eles. Em segundo pé, diria Guilherme Leite e digo eu também. Este par, o da imagem, também já deve ter passado por outros pés. Pés alemães, julgo. Não experimentei estas botas. Eram feias.

Ich bin ein Berliner? #3

 

Em qualquer altura se aprende qualquer coisa. E não falo de nunca mais andar desde Potsdamer Platz até Alexanderplatz com temperaturas negativas. Falo de nunca mais andar desde Potsdamer Platz até Alexanderplatz com temperaturas negativas.

Ich bin ein Berliner? #1

 

Entre strasses, platzesbahnhofs, tores, u-bahns, s-bahns, trabants, pedaços de mauer, idas ao kino, kalt, muito kalt. Se a viagem é de curta duração basta comprar um kurzstrecke. E, mesmo que não seja, o prazer é nosso. As portas abrem-se calorosas contrariando as ruas que nos cansam, enregelam e rejeitam. As ruas, as de Berlim, quase que parecem desprezar-nos. (Pelo menos no Inverno.) A própria Berlim despreza-nos, e não por sermos estranhos, estrangeiros. Na verdade, ela nem dá por nossa conta. E isso é bem pior. É possível ceder aos encantos complicados de uma cidade e, no entanto, guardar dela lembranças tão àsperas?

 

Sobre o regresso


Gosto:

do frio de Portugal que cora de vergonha ao pé do de Berlim mas que me faz corar a cara. De conforto.

de descalçar os sapatos e tirar as meias grossas.

de deitar-me no sofá.

de ter encomendas por abrir.

 

Não Gosto:

de ter o Nobre como candidato presidencial.

de malas que fazem uma escala maior do que a minha.

da tosse.

da tosse durante 3 dias.