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Longitudinal

Longitudinal

Uma experiência mais humana

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"A cerimónia de três horas foi de uma ansiedade interminável. A meio, esgueirei-me até ao lobby, onde apanhei o Richard Burton a fumar um cigarro. Ele olhou para mim e disse alguma coisa sobre ter dúvidas de alguma vez vir a ganhar uma "dessas malditas coisas". Eu anui com a cabeça. Que mais poderia fazer? Eu estava ao lado de uma lenda. Ele tinha razão. Não ganhou. Ganhou o Richard Dreyfuss. A imagem do Dreyfuss a bater palmas e a sacudir os punhos era difícil de superar, mas o encontro particular e cara a cara com o Richard Burton teve um poder mais duradouro. Talvez perder seja uma experiência mais humana."

 

(Diane Keaton sobre a cerimónia dos Oscars de 1977, na qual venceu o prémio de Melhor Actriz por Annie Hall, num excerto do seu livro de memórias Then Again.)

Uma fachada de um velho cinema

 

Uma fachada de um velho cinema.

A porta entreaberta, resgatando para o seu interior fotogramas (poucos por segundo, aqueles que nos restam), cenas integrais, rostos, tiradas de ecos magistrais, uma lágrima, a integridade, a honra, o amor, o desprezo, "O Desprezo", duas lágrimas, a autenticidade, o artifício, a dormência, a exaltação, finais amargos, finais felizes, três lágrimas.

Uma fachada de um velho cinema, rumando irredutivelmente em direcção ao genérico final.

 

 

Filmar tudo

 

 

Regressamos sempre aos primeiros planos, balançando no eterno hesitar das ondas: a silhueta de um rochedo, uma ilha a formar-se à nossa frente. E regressamos às informações mil vezes reproduzidas: um isolamento de 6 por 4 quilómetros, uma vila com apenas 440 habitantes. O desejo assumido no início afigura-se razoável. "Filmar tudo. Estar em todo o lado ao mesmo tempo." Felizmente a sofreguidão não é um traço do olhar de Gonçalo Tocha.

 

No seu registo imersivo, "É na Terra não é na Lua" é tocado pela efemeridade das primeiras vezes (como as que o antigo Cabo do Mar, Óscar Nunes, anotou nos seus cadernos - primeiro avião na ilha, primeiro dia com electricidade). Estamos em território de descobertas renovado pela consciência singular do maravilhamento.

 

Trata-se de "filmar tudo" - os aviões, as caras, a matança do porco, o cais, o mar, a vigia da baleia, o "Traineira" travestido de discoteca - mas, sendo impossível, arriscamos entrar no passado através do mais poderoso dos instrumentos: a memória. Trata-se também de não conseguir "filmar tudo" mas, pelo menos, recontá-lo: o observador de aves que vomitou perante a ave rara, os documentos que nunca iremos ver porque Óscar os destruiu. Explosões, mas em surdina.

 

Abandonada a ilha, numa sala de cinema, regressamos à silhueta do rochedo e acreditamos que o Corvo se manterá ali no meio do Atlântico. Mas regressamos também ao lado efémero destas três horas de viagem e duvidamos se algum dia terá existido. Nem na Terra, quanto mais na Lua.