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Longitudinal

As vozes das coisas sem boca

Fevereiro 19, 2021

Há uns meses um portão falou comigo. Foi um sussurro, não o ouvi à primeira. Ninguém está à espera de que um portão lhe diga qualquer coisa, e sobretudo que seja a murmurar. Os portões costumam anunciar-se com estrondo. Reparei nele com alguma demora, depois de passar tantas vezes por aquela rua, a de Santo António dos Capuchos, a caminho do trabalho, descendo em direcção à Avenida da Liberdade, ou suando no regresso a casa, subindo pelo Campo dos Mártires da Pátria. Se passarem por ele provavelmente não darão por ele, mesmo que saiam de casa com esse propósito. Apenas o ouvi depois de não ter mais nada para escutar.

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*

Há um ano, acordámos pouco preparados para o silêncio. Na verdade, estávamos (mais do que) habituados ao ruído. Portanto o alerta chegou assim, à boleia de notícias barulhentas, como se os ecrãs das televisões, dos telemóveis e dos computadores fossem megafones. Durante algum tempo foi o que prevaleceu. Depois disso, por causa disso, apesar disso, ficámos algum tempo em silêncio sem ninguém nos ter mandado calar. Sem que ninguém nos mandasse. É verdade que falámos bastante - também participei em inúmeras videochamadas -, mas nesses primeiros meses consegui distinguir o silêncio como em poucos outros momentos da minha vida. Com espessura, quase palpável. O suficiente para passar a inventariar silêncios inesperados.

Recordo-me de ter saído de casa pela manhã, num desses dias de Março do ano passado, e de ter dado pela falta de uma imagem que já tinha como certa. Todos os dias, excepto naqueles em que a chuva não desse tréguas, a senhora que vive no rés-do-chão do prédio em frente abria as janelas de par em par e ali deixava as almofadas onde repousara durante a noite, debruçadas para a rua. Nunca temeu roubos ou transeuntes atrevidos que se atrevessem a dormitar à sua janela, mas a partir daquela manhã de março, nem as almofadas arejaram, nem as janelas se abriram. Durante longos meses, encarei esse silêncio todas as manhãs a partir da minha janela. Aquele par de almofadas sufocou dentro de um quarto durante meses e aquilo que disseram, estando ausentes, foi mais vigoroso do que os “olás” que me haviam dito quando ainda podiam apanhar ar.

O silêncio desenterrara vozes que já existiam, mas às quais não dedicara qualquer atenção até aquela altura. Umas semanas depois, lembro-me de ser interpelado por uma sucessão de outdoors na beira de uma estrada. O primeiro dizia “Anuncie aqui”. O segundo, uma dezena de metros à frente, já suspirava “Este espaço pode ser seu…”. Até que por fim, outra dezena de metros adiante, uma tela em branco se remetia ao silêncio nos seus dez metros por três. Um painel esbranquiçado como metáfora de um horizonte débil para o qual vamos avançando. Recordo também os murmúrios que se alastram a partir dos parques infantis vedados. Mesmo sendo um pai que aprendeu a odiar estes espaços, é impossível abafar os lamentos dos escorregas e baloiços enfaixados e solitários.

Reconheço que é difícil admitir que escutamos as vozes destas coisas sem boca, logo agora que a saúde mental colectiva se encontra tão periclitante. No entanto não precisa de ser complicado. Um dia destes, sentada na sanita, a minha filha imitou o barulho de água a correr e no final disse-me que “estava a fazer a voz do chichi”. É simples, portanto. Tão simples quanto ter entrado num prédio de um familiar e me ter surpreendido com um tapete de entrada à porta de um dos vizinhos. Dizia “Welcome”, como tantos outros, mas estava virado para dentro, só o podia ler facilmente quem já estivesse dentro de casa.  À sua maneira, o tapete lembrava a quem aí vivia que se teria de contentar em ficar lá dentro.

Foi também no ano passado que me dei conta que o meu telefone também falava. Haverá coisa mais silenciosa e simultaneamente tão absolutamente ruidosa do que um scroll infinito num ecrã de telemóvel? Contudo concluí isso num outro momento de silêncio, ainda que mais breve. Em abril juntei-me a uma iniciativa da Casa Fernando Pessoa chamada Leituras ao Ouvido. Consistia em ligar a desconhecidos (que se tinham inscrito ou que tinham sido inscritos por pessoas próximas) e ler-lhes um poema ou um texto curto. Sentado na minha cama, li um poema de Daniel Faria para um senhor que estava no areal ventoso da Praia da Tocha, tive de gritar “O Portugal Futuro” de Ruy Belo para que uma senhora com a audição comprometida me conseguisse ouvir. “No dia em que não ouço um poema pelo telemóvel fico com pena”, disseram-me. E ainda que soubéssemos que existiam pessoas nas duas pontas desta chamada, não deixávamos de ser desconhecidos e o telefone era afinal o portador daquelas vozes. Havia um poema em particular que instaurava, mais do que os outros, um compasso de silêncio. Começava assim “Estivemos um mês inteiro à janela/com os cotovelos apoiados, a contemplar aquele pedaço de terra/rodeado de sebes. E chegou o Verão”. As palavras ressoariam de outra forma em Abril do ano passado, é certo. “Agora vamos em passeio pelas estradas vazias da aldeia/sem falar e sem olhar um para o outro/como se não fôssemos nós próprios.” Conseguem imaginar ouvir isto na incerteza de Abril? “As estradas, que calafetadas com pedras/novas faziam escorregar/são agora suaves tapetes de ervas sob os nossos passos./Quando anoitece sentamo-nos no chão / e afagamos a erva das fendas, /rara, como os cabelos de uma anciã.” Silêncio. Um silêncio fundo do lado de cá e do de lá. E no entanto, o telefone segredava-me qualquer coisa reconfortante – e tenho a certeza de que o fazia também no outro lado da chamada. Descobri a voz do meu telemóvel a ler um poema de Tonino Guerra, “Canto Vigésimo Quinto”.

*

Os pardais-de-coroa-branca também acordaram para esse silêncio, porém, estavam preparados. Despertaram com um despertador silencioso, que atenuou o ruído infernal da vida urbana - menos motores, menos buzinas, menos tralha, o caos a fazer-se macio. Em Abril e Maio do ano passado, quando o confinamento lhes ofereceu esta acalmia, estes pássaros mudaram o seu canto. Na Baía de São Francisco, nos Estados Unidos, os investigadores já tinham verificado nas suas observações no terreno que o pardal-de-coroa-branca tinha de gritar para ser ouvido neste barulhento ambiente urbano. Por gritar, entenda-se um canto mais estridente. Ora, assim que o ruído se atenuou, os mesmos investigadores perceberam que eles haviam mudado os seus cantos para um registo mais próximo dos seus semelhantes rurais, mais harmonioso. Na notícia que li, comparavam o canto dos pássaros canoros (como este pardal) com o dos gaios, por exemplo: “a complexa beleza de um solista de ópera bem treinado contra o som gutural de um cantor de metal”. O seu canto é fundamental: quanto mais rico, mais atractivos se tornam para as fêmeas da espécie. Um canto mais complexo, mais suave, que alcança outras distâncias e que inclui muito mais informação.

*

Porque é que nos aconteceu o oposto? Porque é que a pandemia nos tornou ainda mais esganiçados? Pensei nisto pouco depois de ler a notícia sobre estes pássaros. Talvez aqueles instantes de silêncio de há um ano, prolongados por semanas e meses, tenham sido demasiado rápidos. A verdade é que não tratámos de enriquecer o discurso, continuámos a cair nas mesmas armadilhas de sempre, irremediavelmente toldados pela sobranceria, por preconceitos e pela ignorância. Amores e ódios em catadupa. Não ficou tudo bem. Enfrentamos o início de um trauma colectivo, entrecortado por polémicas quase diárias e desnecessárias e por umas eleições cuja ferida não vai sarar tão depressa, enquanto abrimos a janela todos os dias e vislumbramos o lusco-fusco que antecede uma noite de duração indeterminada. Resta-nos ser exigentes. Prestar tanta atenção ao silêncio como a quem vocifera atrocidades por dá cá aquela palha. É um exercício que tento cumprir, mas no qual falho constantemente. Procuro ouvir essas vozes dissonantes, perceber de onde vêm e para onde podem ir, mas dou por mim a ouvir portões a sussurrar. 

Conversas em isolamento #4

Falar com o umbigo

Maio 29, 2020

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#1 - Falar para uma parede   #2 - Falar pelos cotovelos   #3 - Conversa de chacha

 

A Lara queria que o umbigo dela fosse um búzio, que quando alguém encostasse a orelha à sua barriga ouvisse qualquer coisa. Não precisavam de ser ondas. Bastavam não ser aqueles roncos que as barrigas fazem quando se sentem sozinhas. Por vezes, quando se aninhava ao colo da mãe, parecia-lhe ouvir uma música muito silenciosa, feita de estalidos doces. Não tinha a certeza se a música era real, mas eram nesses momentos que a Lara se punha a pensar nos sons que também se deviam esconder na sua barriga.

Infelizmente a Lara não conseguia encostar a orelha ao próprio umbigo. Já tinha tentado, mas não havia forma de conseguir lá chegar. Uma vez, dobrou-se tanto que ficou com medo de se partir ao meio. Quando estava sozinha no quarto ficava muito calada à espera de ouvir alguma coisa. Mas agora, com as pessoas a saírem cada vez mais de casa, as ruas barulhentas roubavam-lhe o silêncio. Tentou usar uns walkie talkies mas os aparelhos ficavam tão próximos que a única coisa que conseguia ouvir era o ruído da interferência.

Ainda com esse zumbido nos ouvidos, lembrou-se de uma experiência que tinha feito na escola há uns meses. Procurou dois copos de papel, fez um pequeno furo no fundo de cada um e juntou-os com uma guita que estava perdida na despensa. Se o telefone de copos não resultasse, nada resultaria. Pousou um dos copos no umbigo. Mas quando estava a aproximar o outro copo da sua orelha, teve de o afastar de imediato. Tinha ouvido um palavrão. Pelo menos, foi o que lhe pareceu - apesar de ela não conhecer muitos palavrões.

Lentamente, voltou a aproximar a orelha ao telefone. Não podia estar mais surpreendida. O umbigo só dizia palavras feias, e nem todas eram palavrões. Na verdade, ele não dizia. O umbigo dela gritava! Como é que não o tinha conseguido ouvir até então? Em poucos segundos, o umbigo já tinha dito que odiava estar fechado em casa, que detestava a forma como a Lara o esfregava no banho, que tinha vontade de rasgar as roupas que ela vestia, que, se pudesse, dar-lhe-ia um pontapé no rabo e mudaria de barriga. O pior é que estas foram apenas algumas das crueldades que conseguiu ouvir no meio daquela gritaria.

A Lara, que sonhava com umbigos musicais, tinha afinal um umbigo mal-educado. Enquanto pensava nisto, o umbigo continuava a despejar asneiras e a dizer que odiava todos os amigos da Lara. Sabia o nome de todos e fazia questão de o dizer um a um. "Odeio a Clara! Odeio a Bruna! Odeio o José e a irmã dele! E o cão dele também!", gritou. A Lara também não gostava muito da irmã do José, mas não era preciso contar uma coisa dessas tão alto. Será que com gritos destes as outras pessoas também iam ouvi-lo? 

Saiu do quarto, de telefone de copo nas mãos, e seguiu pelo corredor até à sala, onde estavam os pais. Sentou-se entre eles, no sofá, bem próxima da barriga de ambos, e ficou atenta. A mãe lia um livro, o pai estava de olhos postos no telemóvel. Silêncio. Esticou um dos copos para a barriga da mãe, à espera de ouvir a tal melodia.  Mas, em vez disso, ouviu mais uma enxurrada de gritos e de palavras que nunca tinha ouvido mas que também só podiam ser palavrões. Da barriga do pai, que ouviu de seguida, também só ouvia um umbigo indignado. Parecia prestes a rebentar. Até era engraçado, porque enquanto os umbigos diziam odiar tudo e todos, os pais sorriam, entretidos a olhar cada um para o seu lado. Como se nem se dessem conta da confusão que lhes ia pela barriga.

Para confirmar, voltou a ouvir o seu umbigo. Lá continuava ele aos berros. Largou o telefone de copos e agarrou-se à barriga, a tentar abafar o som. Enquanto tentava perceber se os gritos do umbigo se ouviam mesmo assim, a Lara lembrou-se que ela também já estava farta de estar em casa e de vestir sempre as mesmas roupas. Às vezes também não gostava da Clara, nem da Bruna, nem do José e muito menos da irmã dele, embora esse sentimento não durasse muito tempo. Mas gostava muito do cão do José. Também pensava nuns palavrões de vez em quando, mas ficavam sempre por dizer.

Talvez isto fosse como a comida, que mastigamos e vai descendo por aí abaixo, até ao estômago e mais além. Mas neste caso, ficava tudo pendurado no umbigo, à espera de alguém que lhe desse atenção. A Lara voltou a pousar o copo na barriga, agora com mais calma. O umbigo continuava indignado. Gritou durante vários minutos, disse coisas que fizeram a Lara corar, até que se cansou e adormeceu. A Lara reconheceu aquela melodia feita de estalidos doces, que já tinha ouvido junto à mãe. Mas, pelo sim, pelo não, ia esfregá-lo com mais força no próximo banho.

Conversas em isolamento #3

Conversa de chacha

Abril 22, 2020

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#1 - Falar para uma parede

#2 - Falar pelos cotovelos

Primeiro, descobrimos as letras e ocupamos os dias a rabiscá-las em cadernos, folhas soltas. Até nas paredes. Depois, as letras desatam a correr e colam-se umas às outras. A partir daí, as palavras já não nos largam. A Lara sabia bem o que isso era. Estava a viver essa correria. Era como se estivesse a aprender a falar pela primeira vez, até porque quando isso lhe aconteceu era demasiado pequena para se lembrar. No entanto, com os dias a passarem tão devagar uns atrás dos outros, descobriu que as palavras também se gastam. De tanto escrever a palavra rua, por exemplo, a rua parecia afastar-se cada vez mais.

Numa destas manhãs, a Lara partilhou com a mãe este problema. Como teve de fazer uma lista para contar as palavras que tinha gasto, acabou por gastá-las ainda mais - mas tinha de ser. Queria mostrar à mãe a folha do caderno onde tinha escrito coisas como rua, janela, sapatos, chuva ou escola. A Lara tinha medo de que as palavras desaparecessem de vez, antes de ela conseguir escrever frases longas onde elas coubessem bem.

Quando entrou na cozinha, a mãe estava a olhar distraída para a janela. Virou-se para ver o caderno e sorriu, mas continuava distraída. A Lara perguntou-lhe se ela alguma vez já tinha gasto palavras. Como ela não lhe respondeu logo, ficou com medo de que ela tivesse ficado mesmo sem palavras. "O tempo hoje está chato", disse-lhe a mãe. A Lara ficou aliviada mas também preocupada. Por um lado, a mãe ainda conseguia falar. Por outro, sabia como a mãe odiava falar do tempo. Normalmente, revirava os olhos quando ouvia comentários sobre o dia de sol que aí vinha ou a chuva que nos ia deixar todos ensopados. E agora ali estava ela, a falar do tempo. "Hoje queria lavar roupa", continuou a mãe, "mas assim não posso."

A Lara acenou com a cabeça. Disse "pois" porque pois era o que mãe costumava responder a conversas aborrecidas como esta. Mas também porque não sabia o que dizer e o pois servia para isso mesmo. Era uma daquelas palavras que nunca se gastam, mesmo que as pessoas as escrevam ou digam a toda a hora. No entanto, não era para falar da chuva ou do sol que ela tinha ido ter com a mãe. 

De que importava a chuva se as palavras lhe queriam fugir? Ainda que a Lara não acreditasse que elas estivessem mesmo a pensar sair de casa. Para onde iriam se não podiam sair pela porta? Já para não falar das escadas... A Lara não via umas escadas há tanto tempo que, se calhar,  nem conseguia passar do primeiro degrau, quanto mais chegar à rua. "Rua", murmurou a Lara... Mas arrependeu-se logo, porque se lembrou das palavras que andava a gastar.

Se pudesse interromper a mãe e desviar a conversa do tempo, da chuva, do sol, da roupa por lavar, a Lara gostava que a mãe lhe falasse do outro tempo. Daquele que passa a correr quando queremos que ele se deite no sofá connosco. Imaginou uma palavra a fugir do terceiro andar pelas escadas, degrau a degrau. Quanto tempo iria demorar a chegar lá abaixo? Talvez dependesse da palavra. A palavra sapatos deve estar mais habituada a andar do que a palavra escola, por exemplo. Mas a palavra chuva podia cair e escorrer pelos degraus com maior rapidez. Na verdade, tudo lhe parecia andar mais depressa do que antes. Pela janela, tinha reparado que lá em baixo as ervas tinham crescido muito por entre as pedras do passeio. Aproveitavam a folga dos sapatos que tinham perdido o jeito de sair à rua. Conseguisse ela descer as escadas, gostava de sentir essas ervas macias por baixo dos sapatos, mas com calma.

Lembrou-se mais uma vez da palavra porta. Já nem a palavra ela conseguia abrir na sua cabeça. E lembrou-se novamente das escadas... A Lara tremia quando pensava no dia em que teria de as voltar a descer. Queria que a mãe lhe garantisse que as coisas iam ficar parecidas. Precisava de confirmar se os sapatos dela continuavam a servir para andar na rua. Exigia saber se podia voltar a arrancar uma flor silvestre a caminho da escola. Não ia conseguir dormir sem ter a certeza de que as escadas continuavam a ter a mesma função que sempre tiveram. Tanto as escadas como as portas, os passeios, os carros, as estradas, as escolas.

Entretanto, começou a chover. Foi assim que percebeu porque é que a mãe lhe falava tão concentrada sobre o tempo. Os pingos iam salpicando a janela. A Lara sentiu-se mais calma. As gotas eram iguais a todas as gotas que tinha visto desde pequena sempre que chovia. Virou-se para a mãe e repetiu uma frase que já tinha ouvido alguém dizer numa destas conversas aborrecidas. "Com este tempo, o meu cabelo fica uma desgraça." "Pois", respondeu-lhe a mãe.

 

Qual a próxima conversa da Lara?

A - Com o umbigo

B- Com a própria sombra

 

Conversas em isolamento #2

Falar pelos cotovelos

Março 31, 2020

(O sentido da votação foi unânime após a primeira conversa desta história. Mais uma vez, no final do texto deixo duas hipóteses de conversas futuras para que possam escolher aquela que preferem continuar a ler.)

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#1 - Falar para uma parede

Ao décimo dia sem sair de casa, a Lara acordou de mau humor. Os cantos da boca estavam presos ao fundo da cara e tinha uma vontade incrível de berrar. Acontece a toda a gente, é verdade, mas com ela era a primeira vez. A Lara fazia questão de acordar sempre bem-disposta. Até em dias fechados como estes. Até depois de passar uma semana inteira a ver o parque ao longe, pela janela do quarto, a inventar escorregas nas pernas dos pais. 

Logo ela que, todas as manhãs, se espantava quando via os olhos dos pais, acabados de acordar e já cansados. Abriam as pálpebras de manhã, pensava a Lara, como se já soubessem como iria ser o dia que tinham pela frente. Embora ela tivesse a certeza de que isso não era possível - à noite, a escuridão não nos deixa ver nada, muito menos o futuro. Ela já sabia o motivo. Os pais acordavam mal dispostos pela mesma razão que todos os adultos se aborrecem por ter de ver um filme de novo. Ou por ter de repetir pela décima vez uma brincadeira qualquer. Acham que já viram tudo.

Ora neste dia, a Lara acordou mal-disposta pela primeira vez na vida. Cruzou-se com a mãe e resmungou. Passou pela cadela e nem lhe disse os bons dias, como habitualmente. Nem agradeceu ao pai as torradas besuntadas de manteiga. A vontade de gritar crescia cada vez mais. Às vezes sentia-a na barriga, outras vezes parecia que subia até à garganta. Só quando a sentiu a rolar pela língua, quase a sair cá para fora, é que percebeu que tinha de fazer alguma coisa.

Muitas vezes diziam-lhe que falava pelos cotovelos. Acontecia normalmente quando chegava da escola e tinha uma longa lista de episódios para contar. As palavras saltavam para as cavalitas umas das outras. "Tem calma, Lara", diziam, "estás a falar pelos cotovelos". Mas os cotovelos dela estavam tapados pelo casaco. Era a boca dela que não conseguia esperar para contar tudo. 

Se afinal os cotovelos conseguem falar sem fazer barulho talvez a pudessem ajudar neste dia. Se eles falassem por ela, a Lara não teria de gritar. Restava descobrir como o fazer. Arregaçou as mangas do pijama e olhou para os cotovelos com uma atenção que nunca lhes tinha dado. Pareciam simpáticos mas de poucas conversas. Talvez um pouco secos. Dobrou e esticou os braços muito depressa e quase conseguiu imaginar uma boca a mexer-se na dobra dos cotovelos. Mas continuava sem escutar qualquer som. Por outro lado, dentro da boca da Lara o tal grito estava prestes a escapar. Não tinha muito tempo.

Pegou numa caneta e desenhou no cotovelo esquerdo dois olhos e um sorriso. Foi complicado mas a Lara sentiu que lhe tinha dado alguma vida. Foi até ao espelho e admirou aquele risco sorridente. Tinha ficado certinho, tal qual os sorrisos com que gostava de acordar. Sorrir bem podia ser outra maneira de falar, menos complicada, imaginou.

Entretanto ela já se tinha esquecido um pouco do mau-humor com que acordou. Já não queria falar pelos cotovelos só para não gritar. Desejava que o cotovelo falasse com ela, por mais impossível que isso fosse. Voltou a pegar na caneta, desta vez para desenhar outra cara sorridente no cotovelo direito mas o desafio de desenhar com a mão esquerda revelou-se bem mais difícil. Os olhos saíram duas bolas irritadas e a boca uma linha torta como uma centopeia. Ao olhar para os cotovelos no espelho, descobriu duas caras completamente diferentes. Um cotovelo sorria, o outro olhava desconfiado. Parecia que se conheciam.  O cotovelo direito não podia estar mais chateado. Se calhar tem razões para isso, pensou a Lara. Não percebia se o sorriso do cotovelo esquerdo era um sorriso igual aos dela ou se estava a fazer troça do outro. 

"Não te cansas de estar sempre a rir?" A Lara quase saltou de surpresa quando ouviu a pergunta. "Eu tive de ficar com esta boca torta e tu ainda sorris?". Mas desta vez a Lara percebeu que a voz grossa vinha do cotovelo direito. O cotovelo esquerdo continuava de boca fechada, sorridente. Ela também não conseguia abrir a dela. "Já sabia que não ias dizer nada. Não admira, tens mesmo cara de quem cheira mal da boca", acusou o cotovelo irritado. "Tu é que cheiras mal da boca", respondeu finalmente o outro cotovelo, embora ainda a sorrir. Era a primeira vez que a Lara assistia a uma conversa de cotovelos. Estava sem pio. "Eu mal consigo abrir a boca, como é que sabes se cheiro mal ou não?", disse um. "Se calhar não a abres porque tens os dentes podres", respondeu o outro. "E tu se calhar nem dentes tens..." Por esta altura, a Lara já tinha percebido que ia ser complicado fugir daquela situação. Para onde quer que fosse, os cotovelos iriam com ela e a discussão também. Ela ia estar no meio daquela troca de insultos.

Sem que eles se apercebessem, ela pegou num casaco e começou a vesti-lo muito devagar. Primeiro a gola, depois as duas mangas de uma vez só, para os cotovelos não darem por isso. Por trás do tecido da camisola, eles ainda continuaram a gritar durante um bom bocado. Ela sentia o algodão a tremer pelos braços acima e abaixo. Até que finalmente eles se acalmaram e ficaram apenas a resmungar, como se estivessem a fazer-lhe umas cócegas muito leves. A Lara saiu do quarto, fechou a porta com calma. Percebeu que a vontade de gritar tinha desaparecido. E então suspirou. "Como é que os adultos acham que já viram tudo?". 

 

Qual a próxima conversa da Lara?

A - Conversa de café

B- Conversa de chacha

 

Conversas em isolamento #1

Falar para uma parede

Março 18, 2020

(Nos últimos dias tenho estado em casa - um privilégio e uma opção. Num terceiro andar onde cabem quatro pessoas e uma cadela, temos visto televisão, pintado cartão, papel e as próprias mãos, respirado fundo de vez em quando. E, claro, temos contado histórias. Daí me ter lembrado de começar a contar esta história curta para adultos, crianças e animais de estimação - que provavelmente vai acabar a ser uma espécie de cadáver esquisito, um repositório de conversas alavancado por este tédio novo. No final deste primeiro texto deixo duas hipóteses de conversas futuras. Nos comentários indiquem qual a vossa favorita. Prometo continuá-la dia sim, dia não.)

falaraparaumapoarede

Estar aborrecido é uma coisa engraçada. Por vezes, é como ter uma grande pedra a bloquear o caminho. Mas também pode transformar-se numa daquelas pedras redondas dos desenhos animados que rolam colina abaixo atrás do herói. Estar aborrecido põe a nossa cabeça a correr mais depressa. Talvez até mais do que quando estamos entretidos. 

Depois de alguns dias sem sair de casa, a Lara lembrou-se que poderia ser divertido falar para uma parede. Quando as pessoas falavam disso tinham um tom de voz impaciente. No entanto, como ela agora tinha todo o tempo do mundo, era a altura ideal para tentar fazê-lo. Começou por percorrer todas as divisões de casa para encontrar a parede perfeita para conversar. O passeio deixou-a desiludida. A maior parte das paredes estava coberta de armários e estantes. Outras cheias de molduras. Ficou preocupada porque se as paredes tinham ouvidos, como lhe tinham dito, não iriam conseguir ouvi-la cobertas de tanta tralha. 

Finalmente, encontrou uma parede mais desocupada, mesmo em frente à casa de banho. Sentou-se à sua frente. Tossiu um bocadinho, como os adultos fazem antes de começar uma conversa importante. Pensou dizer "Olá" mas, quando abriu a boca no segundo a seguir, o que disse foi "Que idade tens?". A parede não lhe respondeu. Aliás, pareceu ter ficado ofendida com a pergunta porque ficou ainda mais branca. A Lara pediu-lhe desculpa. Disse "Olá", desta vez sem se enganar, e apresentou-se como se estivesse na escola: nome, idade, profissão da mãe, profissão do pai, passatempos favoritos. Só não disse onde vivia porque isso a parede já sabia. 

A parede continuava branca, sem lhe responder. A Lara começou a pensar que talvez não tivesse sido boa ideia tentar falar para uma parede. O que tem uma parede para contar a uma rapariga de 6 anos? Que nasceu ao mesmo tempo daquela casa e viu a primeira família a chegar, a crescer, se calhar a crescer tanto que acabou por vê-la a sair? Que ouviu tantas famílias a passar à sua frente e que a da Lara é apenas mais uma? Que já várias vezes lhe tentou dizer olá mas ela nunca lhe respondeu? Que já tem cinco camadas de tinta diferentes e por isso não ouve tão bem quanto ouvia? Que ser uma parede é uma tarefa difícil e que odeia a humidade? 

"Se calhar está a dormir". A Lara levantou-se, encostou a mão à parede branca e disse-lhe até já. Nesse instante, a única moldura que estava pendurada na parede caiu no chão, sem se estragar. Pode ter sido coincidência. A Lara preferiu pensar que a parede afinal tinha alguma coisa para dizer a uma rapariga como ela.

 

Qual a próxima conversa da Lara?

A - Falar para o boneco

B- Falar pelos cotovelos

 

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