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Longitudinal

Escrevo.

Fevereiro 05, 2022

Captura de ecrã 2022-02-05, às 19.32.13 copy.p

(Office in a Small City, Edward Hopper)

 

Escrevo porque não quero falar. Comecei a escrever quando as letras ainda ocupavam um lugar estranho, quando ainda não sabia bem como as casar umas com as outras. Falo de letras, não de palavras. As palavras, as frases vieram depois.


Escrevo porque falar me cansa. Continuei a escrever, mesmo quando as frases, todas seguidas, umas atrás das outras, me pareciam mais barulhentas do que a minha própria fala.


Escrevo como se não conseguisse falar. Uma página num computador parece ainda mais branca porque podemos aumentar a luminosidade do ecrã. Escrevi nessas alturas porque preencher essa brancura era uma forma de me manter calado.


Escrevo porque quero falar cada vez mais baixo. Quando olho para um texto acabado de nascer, congratulo-me por saber que se eu quiser mais ninguém o lerá. Sei que o posso apagar, basta pressionar uma tecla durante o tempo necessário. Posso guardá-lo e ficar a ouvi-lo a ecoar numa pasta de computador.


Mas também escrevo porque, por vezes, gosto que esse eco consiga escapar.

 

Vamos lá ver se consigo explicar isto bem

Outubro 11, 2021

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(The Houses of Parliament, Sunset, Claude Monet) 

Vamos lá ver se consigo explicar isto bem. Das traseiras da minha casa vejo prédios. De vez em quando, umas pessoas à janela, mas sobretudo prédios. Se abrir a janela da cozinha de par em par, vejo à minha esquerda a empena de um prédio que avança uns bons cinco metros para além do meu. É uma parede robusta, que reconhece a sua idade, na qual gostaria de ver desenhada alguma coisa. Se olhar em frente vejo duas filas de telhados, com telhas mais ou menos alaranjadas, mais ou menos enegrecidas, de acordo com a altura em que foram colocadas. Mais a frente, vejo três prédios mais altos, que cortam o horizonte. São eles próprios a linha do horizonte. Um é cor de rosa, o maior. Os outros dois já devem ter sido amarelos há muitos anos. Há outros prédios em frente depois desse mar triangular de telhados. Mas aquilo que me prende o olhar é o topo de um prédio mais alto, a uns bons 300 metros de distância. Dele apenas vejo uma especie de chaminé. Umas telhas pequenas, porque distantes. E ventiladores, daqueles simulacros de bola de espelhos que tornam telhados numa pista de dança vazia enquanto há Sol. No Verão, pelas 20h30, todos os prédios ao redor da minha casa descobrem-se pequenos de mais para se esticarem rumo à luz apaziguadora do final da tarde. Mas o topo desse outro prédio permanece ainda dourado durante uns minutos. Fico a olhá-lo, minuto a minuto, detido nesse eclipse vagaroso até os ventiladores perderem o seu cintilar. Faz-se noite no meu bairro.

 

Os bolsos e as possibilidades falhadas

Agosto 03, 2017

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Em minha casa, quando não sei onde pára um objecto qualquer, há uma expressão costumeira atirada na minha direcção: "procura nos bolsos". Neste caso, nos bolsos dos meus casacos e das minhas calças. É uma piada mas daquelas que se cobrem desavergonhadamente de verdade. Já encontrámos chaves perdidas há vários dias, documentos dados como desaparecidos durante semanas - aquilo que conseguirem imaginar. Não poucas vezes tem o seu quê de surpreendente. E não falo de voltar a encontrar uma nota de cinco euros que recebi como troco num café. Falo de achar possibilidades.

 

Nas últimas semanas voltei a usar um casaco que já não saía do cabide há alguns meses. Enfiei as mãos nos bolsos, começando a esvaziá-los, e encontrei potenciais peças de um potencial museu. O museu dos planos que não cumprimos.

 

Num dos bolsos encontrei um folheto com a programação de uma série de transmissões de peças de Shakespeare num cinema de Lisboa. Em directo, a partir de Londres. Nessa altura, há muitos meses, o bardo inglês faria quatrocentos anos - se se tivesse mantido mais vivo do que aquilo que está. Este ano já faria quatrocentos e um e ninguém festeja esse tipo de aniversários. Reparei que tinha sublinhado duas sessões, em dias e horários que, naquele momento, pareciam possíveis de cumprir. Os planos falharam. Nem me lembro exactamente que outros planos se intrometeram na sua concretização. Reconheço apenas neste folheto o rosto amarrotado de uma possibilidade.

 

*

 

Segunda-feira, onze da noite. Um homem aproxima-se do microfone no palco do bar Templários, em Lisboa. Veste uma t-shirt escura onde se lê "out of place" mas a atitude desmente esse statement. Está obviamente no seu elemento mesmo que a última vez que tenha actuado diante de uma plateia tenha sido há quarenta e dois anos. Tinha dezoito anos.

 

Nessa época tocava, cantava, compunha. Entretanto casou, teve uma filha, teve outra, teve empregos, teve netos, teve abalos sísmicos dos bons e dos maus. O pai da Sara chegou aos sessenta há pouco mais de três semanas. Continua a tocar, a cantar e a compôr. Orgulha-se da sua música, exibe esse orgulho como um acto de resistência. Mesmo no interior da própria família, é difícil encontrar validação quando a vida já deu tantas voltas que acabou por reduzir uma fatia importante da nossa identidade a um mero acessório. Mas o Rui, o pai da Sara, persiste. Mesmo que tenha de ouvir a sua música com auscultadores, para evitar que o resto da família lhe peça para baixar o volume.

 

Quantos planos por cumprir se podem encaixar num período de tempo tão longo? É impossível não conjecturar hipóteses, possibilidades. Como seria se o concerto seguinte não tivesse demorado tanto tempo a acontecer? Se o Rui tivesse tido tempo e oportunidades suficientes para se aborrecer de dar concertos. Há vidas mais curtas do que as décadas que se demoraram entre estes dois momentos de exposição pública. Quantas dessas vidas se manifestam diante de nós enquanto escutamos, música a música, alguém a rebelar-se contra as expectativas?

 

Talvez seja isto aquilo que se sente quando nos cumprimos, quando damos a volta às possibilidades falhadas.

 

 *

 

De cara colada ao vidro, Lisboa ia passando pela ponta do nariz de dois miúdos espanhóis, com quem partilhei o setecentos e vinte e oito. "Olha, um castelo mágico", apontou para o alto. Não era um castelo, era o Panteão a recolher-se atrás dos telhados. "Olha, as matrículas dos carros são códigos secretos." Eram matrículas completamente normais, mesmo de acordo o padrão espanhol. "Olha, o rio está a fazer ondas." Estava, mas era apenas a esteira de um navio. "Olha, estão dois monstros escondidos atrás daquele prédio." E se estivessem mesmo?

 

(lá em cima, uma still do Era uma vez na América, do Sergio Leone) 

Estado Actual #41

Setembro 13, 2016

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Tenho um dispositivo da Via Verde por activar no carro. Sempre me pareceu uma coisa de adulto (tanto quanto ter um filho, mas entretanto também passei a ser pai). Está ainda por activar e por colar no vidro. É o último acto de resistência dos meus vinte anos. Esse e o herpes que me apareceu no lábio esta semana. Esta crosta continua a parecer-me coisa de adolescente, de quem andou a beijar quem não devia. E nem vou alongar-me sobre a t-shirt do Donald. Por enquanto o aparelho da Via Verde vai continuar no porta-luvas. Mantenho o pronto-pagamento e os trinta não me encontram.

 

Estado actual #38

Novembro 17, 2014

Na minha rua as janelas já não estão abertas à noite, quando passeio com a minha cadela.

Se bem me lembro, há umas semanas ainda conseguia espreitar as casas dos rés de chão - intrometer-me de soslaio no equilíbrio da sua vida quotidiana.

Mas isto foi antes de o Verão dar lugar ao Outono. Antes de as noites passarem a ser mais ventiladas.

Foi até antes de, depois de dez anos de viagem, uma sonda ter pousado num cometa, ter feito o seu trabalho e ter caído inanimada com a sensação de dever cumprido.

 

 

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