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Longitudinal

Ficções #3

Outubro 13, 2009

O sujeito gostava de árvores. Gostava mesmo delas. Do tronco, mesmo quando se arranhava ao tocar-lhe. Dos ramos, mesmo quando ficava a sangrar ao subir para os apanhar. Das folhas, mesmo quando, no Outono, escorregava nelas e caía no chão. De tudo. Até das árvores cortadas, quando delas apenas restava uma raíz amputada e elas passavam a ser um singelo banco. O sujeito, mesmo nesses casos, sentava-se em cima daquele «coto». E não havia sinal de tristeza. Ele gostava de árvores. Só isso.

Ficções #2

Setembro 16, 2009

 

Horácio tinha deixado a senhora em casa e ficou um bocado sentado dentro do carro antes de entrar. Aquela matiné não tinha corrido nada bem. Os pés falharam-lhe no tango e doía-lhe só de pensar na sua prestação ridícula na salsa. Custava-lhe perceber como é que aquela senhora tinha aceite que ele a levasse até casa depois de todos aqueles momentos tão embaraçosos.

 

Só lhe vinha à cabeça uma resposta. E foi isso que o fez arrancar um carro, com um sorriso nos beiços. Só podia ser isso. Ele não andava a olhar para os amigos com outros sentidos. Não apreciava, não senhor. Mas ele tinha olhos, isso tinha. Tinha dois olhos ainda resistentes às tristezas dos 75 anos.

 

Entrou em casa e antes de ir até ao quarto foi à casa de banho livrar-se do peso incómodo que sentia na bexiga. Olhou-se de alto a baixo no espelho e voltou a sorrir. Depois de pôr a placa num copo pensou: «Sou bonito». E sorriu de novo, desta vez apenas com as gengivas. «Até que sou um velhote jeitoso».

 

Vestiu o pijama de cetim que comprou um dia depois de ter ficado viúvo. Foi para a cama e acabou o dia a rezar  e a pedir a Deus que o protegesse da calvície, enquanto tirava o capachinho.

 

a partir de uma frase solta escrita em 2006

Ficções #1

Setembro 14, 2009

 

 

Ele chega a casa, tarde, e dá com a ela a dormir no sofá com a televisão ligada e uma revista aberta e caída no chão. Umas vezes pega-a ao colo e leva-a até à cama. Outras deixa-a a dormir enquanto vai à cozinha buscar algo para comer. Outras vezes, ainda, fica sentado ao lado dela a ver a televisão que ainda sobra naquelas horas.
 
Neste dia, precisamente, decidiu levá-la para a cama, aconchegá-la e beijar-lhe os lábios ensonados num misto de desejo e banalidade, que tanto o irritava como o arrepiava. Mas em vez de se deitar ao seu lado como costumava, dirigiu-se para a cozinha, aqueceu leite e foi para o sofá.
 
Desligou a televisão. Ficou a olhar fixamente para o ecrã negro, que o mostrava numa versão escura. Nada daquilo o intrigava a horas tão tardias e por outro lado incomodava-o esta falta de inquietação. Voltou ao quarto para espreitar se ela continuava a dormir, desceu as escadas, vestiu o casaco, subiu as escadas de novo e voltou a sentar-se no sofá da sala à espera.
 
Quando sentiu que era a hora certa, desceu as escadas de novo. Calmamente, saboreando cada degrau com toda a sola dos sapatos. Procurou a pistola que tinha no bolso de dentro do casaco (para usar em caso de emergência) e disparou directamente contra a cabeça.
 
No andar de cima e no outro canto da casa, ela tinha acordado antes do disparo porque a almofada estava a magoá-la. Estranhou a ausência dele e levantou-se, ainda a cambalear, andando todo o corredor em bicos dos pés para não sentir frio. Viu-o a descer a escada e seguiu-o com o olhar, escondida mas não desconfiada, enquanto ele as descia com o tal passo vagaroso, pareceu-lhe.
 
Esteve escondida o tempo todo e assistiu a tudo. Enquanto ele agarrava na pistola e mesmo no momento em que ele disparou de olhos frios. Nada fez para o evitar. Não deixou sair nenhum grito. Só quando todo o sangue acabou de jorrar da cabeça dele se levantou, andou até ao corpo que ainda se parecia agitar, se ajoelhou e beijou a testa do marido, num beijo que tinha tanto de amor como de repugnância. 
 
Fez o caminho de volta a cama de olhos fixos no chão até se deitar sem se aconchegar nos lençóis. Antes de adormecer olhou para o relógio digital na mesa-de-cabeceira e lamentou ter de acordar tão cedo no dia seguinte para ir às finanças.
 
Junho de 2006

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