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Longitudinal

Longitudinal

"Todos os bairros de Lisboa são ordinários"

Panorâmica de Lisboa

Panorâmica de Lisboa [entre 1950 e 1959] / Arquivo Municipal de Lisboa

 

"Todos os bairros de Lisboa são ordinários", frisou, divertido, Afonso. E citou-lhes os nomes: Alfama, Mouria, Bairro Alto, Alcântara... Todos eles bairros ordinários, mas encantadores. Seguiu-se um pequeno discurso sobre a cidade, nada de veramente sensacional, um quotidiano de amoroso, uma síntese  galanteadora, um sentimento de Marialva pela sua Severa endiabrada, tudo muito diluído pela sensação de que nenhum dos presentes podia inteiramente aderir àquele amor pela sua cidade, àquele sentir e ver de coisas muito suas desde sempre, menino bem tratado que viera calcorreando os caminhos tortuosos da Madragoa até descobrir a Avenida, e depois, mais além, a Mouraria prometida à demolição (como já acontecera ao Bairro da Liberdade e decerto aconteceria ao Bairro Alto); mais longe, o Terreiro do Paço, via Algés, ou, da outra banda, à partida de Cacilhas, um outro mundo de encantos, rematado pela Arrábida. Tudo aquilo era Lisboa ou era ainda Lisboa, a capital, a cabeça da Metrópole, o centro das iniciativas, a sede dos Ministérios laboriosos, a colmeia e o enxame, os cabarés provincianos, a irmã-pobre das capitais europeias - mas quanto sol, quanta amenidade! Uns toques, aqui e ali, do mito europeu, tão dispersos que quase inexistentes se tornavam... E a torturada Lisboa fadista, a burguesíssima Lisboa das canções importadas, a pseudo-aristocratíssima Lisboa do Chiado-acima-e-abaixo, a milagrosa sobrevivência da arte maldita nos cafés caricaturais e nos teatros a cair de podres...

 

Conforme as propostas de perguntas apresentadas, falou-se ainda (ou falou Afonso) da Lisboa manuelina, a da arte burguesa enriquecida, e da Lisboa pombalina, passando pelo Aqueduto das Águas Livres, num percurso que vinha de Belém por Campolide, até à Baixa Comercial, populosa como um formigueiro e exacta como os ideais do senhor Marquês. Abordou-se o caso popular de Lisboa, independente das manifestações desportivas - coisa que nenhum dos presentes ainda tinha descoberto. Algo no género dos balõezinhos de Santo António e do Mercado da Ribeira, noites de festa na praça da Figueira e altarinhos em Alfama, tiros no Parque Mayer e cinemas de bairro..."

 

(A Gata e a Fábula, Fernanda Botelho, 1959)

Por quanto tempo pode um prédio continuar a subir?

 

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Hora de almoço e uma mesa corrida à volta da qual se plantam tupperwares e janelas rasgadas para uma rua de segunda ordem onde um prédio começa a subir e as vozes de dentro se misturam com as de fora e os talheres com as picaretas e um plim do microondas comunica que o almoço está pronto pela segunda vez e à nossa volta alguém engole "feijão com arroz como se fosse o máximo" e bebe e soluça "como se fosse máquina" e no dia seguinte o prédio que já foi apenas uma cova na esquina de uma rua de segunda ordem com uma rua de terceira ordem continua na mesma e duas semanas depois, ou foi um dia apenas?, já vemos mais um ou dois pisos e pensamos na rapidez com que eles fazem isto e na velocidade com que afinal o mundo se reveste e em como muitas coisas começam afinal por ser um buraco aberto no meio de uma rua, no mesmo sítio onde nos lembramos de ter visto outro prédio qualquer há uns bons anos, e vai mais uma garfada de empadão e vai mais um naco de carne reaquecido e o ruído das obras não é assim tão diferente do de uma pessoa que se entrega à dádiva da fala como um cão se lança sobre um saco de broas e o prédio continua a subir e  mesmo que tenham passado meses parece que ele segue veloz a trepar quando na verdade se arrasta a conta-gotas rumo às nuvens como uma estalagmite de betão e vigas e mãos e andaimes e dureza e capacetes coloridos e de uma fadiga que roça a abnegação e de outras mãos ainda e de indiferença e berros que desabam do sexto piso até ao passeio e outro plim devolve-nos ao prazer singelo da segunda refeição mais importante do dia e, ao passo que deglutimos, a cidade continua a bolçar das suas entranhas mais um piso de um prédio que parece acariciar os céus mais do que arranhá-los e praticamente ouvimos o seu roçagar nessa penugem nubígena que dos homens primordiais ao Astérix nos assombra de livre vontade e no entremeio do palavreado de circunstância e das garfadas de bacalhau com natas e pescada cozida com todos há mais um patamar rumo à vizinhança entre o solo e os anjinhos e o prédio está ainda mais altaneiro e vem mais um plim e depois

Ficar na vida

 

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"Não morrer. Sobretudo, não morrer. Ficar na vida. Estar face a um médico que profere o diagnóstico com ternura cuidadosa, como um Tirésias no início da tragédia, e confirmar que estávamos certos de todas as vezes que dissemos que as coisas fundamentais da vida são invisíveis. Estávamos certos mesmo quando duvidávamos do que dizíamos porque duvidamos sempre do que dizemos, e sabemos que o silêncio entre cada palavra que proferimos não se chama silêncio, o seu nome é dúvida. Na dúvida, ficar na vida. Perante a ideia da morte, reafirmar a razão pela qual participamos da vida: o mistério do futuro. Saber negar os amáveis convites da morte, que nos indica um lugar onde nos sentarmos esperando que o mundo venha ter connosco, que nos pede que aceitemos o mundo tal como ele é, incondicionalmente, enquanto aguardamos a hora da morte, com a impotência dos vencidos. Recusar a morte e ir ter com o mundo, ser nómada, descobrir o que se esconde para lá da montanha, viajar até ao outro lado da noite. Talvez até transformar uma ínfima parte desse mundo, ou nunca chegar a consegui-lo. Ser vencido, talvez, mas vencido pela vida. E, sobretudo, não morrer. Saber que a ideia da morte está connosco, no espaço exíguo do consultório médico quando Tirésias profetiza o terror, sentir que os cotovelos da morte roçam os nossos cotovelos, e ainda assim ficar na vida porque só quem está na vida pode imaginar as deambulações da morte e traduzi-las numa história que sirva para a vida. Isso: escrever ou ler sobre os nossos inimigos, fazer ou ver teatro sobre as formas de morte que nos assombram, mas nunca engrossar as fileiras do conformismo mortal. E tudo isto poderá parecer uma colecção de grandes ideias, vagamente poéticas, destinadas a tranquilizar a consciência ou animar os espíritos, mas quem escolhe ficar na vida saber que isto é algo de tão concreto como o som das cigarras, num dia de Verão. É, sobretudo, não morrer. Saborear a deliciosa dificuldade de ficar na vida, nos tempos difíceis e também nos outros, mas nunca nos tempos fáceis, porque sabemos bem que os tempos fáceis não existem. E sempre que nos disserem que este é o mundo possível, saber que é a morte quem nos fala, e que nós somos os outros, os que a combatem. Por isso é preciso preservar os lugares públicos e os lugares clandestinos onde podemos ficar na vida. É preciso preservar os momentos em que nos dedicamos aos mistérios, em que nos encontramos e dizemos: aqui estamos, talvez poucos, mas certos de que, perante a perspectiva da morte, escolhemos ficar na vida. E sussurrar em vez de gritar, recusar o ruído do mundo, escutar a respiração que emerge do silêncio e que sempre esteve lá, mesmo quando não a queríamos ouvir. Preservar os lugares onde podemos ouvir o vento, o sopro do pensamento, o espírito do lugar, o momento breve e irrepetível em que nos vemos pela primeira vez. E, sobretudo, não morrer."

 

(Sopro, Tiago Rodrigues)