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Longitudinal

Longitudinal

Pequeno apontamento sobre a história das cores

(Vierge de Xhoris (c. 1030), Museu Grand Curtius, Liège, Bélgica,

provavelmente não é aquela que Pastoureau refere mas é contemporânea )

 

"Ao longo dos séculos, a Virgem passou assim por quase todas as cores, como o demonstra uma surpreendente escultura, esculpida pouco depois do ano 1000 numa bonita madeira de tília e que hoje se conserva no museu de Liège. Como era frequente na época, essa Virgem românica havia primeiro sido pintada de preto. No século XIII, seguindo os cânones da iconografia e da teologia góticas, foi repintada de azul. Depois, no fim do século XVII, a pequena escultura acabou (como tantas outras) por ser «barroquizada», trocando o azul pelo dourado, cor que durante cerca de dois séculos conservou, até ser por fim visitada pelo dogma da Imaculada Conceição, e consequentemente toda pintada de branco (c. 1880). Esta sobreposição de quatro cores sucessivas num milénio de história faz dessa frágil peça um objecto vivo bem como um excepcional documento de história pictórica e simbólica"

(Azul - História de uma Cor, Michel Pastoureau)

 

Steiner e os perigos da ficção

"Toda a minha vida foi dominada pela pergunta: como é que aquilo pôde acontecer na Europa? Como é que por trás da casa de Goethe existe um campo de concentração? Como é que o país mais educado do mundo se tornou nazi? Nunca se esqueça de que a educação na Alemanha era provavelmente a mais avançada, mas não foi suficiente para travar Hitler. Toda a minha vida me interroguei sobre se as humanidades realmente humanizam. Deixe-me colocar a questão desta forma: passo o dia todo com os meus alunos a ler o King Lear e, ao voltar para casa, estou tão possuído interiormente por esse texto que não ouço os gritos de alguém na rua. Alguém grita por ajuda e eu não ouço. Sempre me intrigou até que ponto a ficção - e 'ficção' é a palavra-chave - pode ser mais poderosa do que a realidade. Passei a vida a ensinar as pessoas a ler e a amar o que leem. Mas questiono-me a mim próprio sobre o perigo imenso de nos identificarmos com a ficção."

 

(George Steiner em entrevista a Luciana Leiderfarb numa revista do Expresso de há umas semanas)