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Longitudinal

Monsanto, seis e meia da manhã

Julho 28, 2021

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Aguardava o nascer do Sol. No entanto os pássaros chilreavam há muito e da cidade já se ouviam os seus ruídos habituais, aqueles que nos garantem que ela já acordou - ou melhor, que nunca chegou a adormecer. O comboio a forçar os carris na sua jornada, os motores dos carros aqui e ali. Um silvo metálico cuja origem ficou por identificar. Um avião que cortou a paisagem, precisamente no local para onde os olhos, expectantes, apontavam na esperança de ver uma nesga do nascer do Sol.

Ele aguardava o nascer do Sol. No entanto, os pássaros continuavam a embalá-lo numa espécie de canto que pressagiava qualquer coisa de inicial. Se por aqui galos houvesse, eles ja teriam cantado. É uma afirmação, nao é uma interrogação. No entanto as plantas, as árvores - as pedras também - pareciam dormir ainda. Talvez fossem como a cidade, que nunca dorme. Ou melhor, que dorme quando adormecemos, e partilha connosco noites de insónia, tal como os melhores animais de estimação o fazem.

Naquela manhã de Julho... Já seria manhã? Ou ainda era madrugada? Agora são mesmo interrogações. Naquela manhã nebulosa de Julho, ele aguardava o nascer do Sol. No entanto, a luz já era total. Talvez o Sol tivesse nascido nas suas costas, enquanto tudo o resto acordava.

 

(escrito no Miradouro do Moinho das Três Cruzes, na floresta de Monsanto, durante o encontro Caminhar e Escrever - Ao Nascer do Sol, organizado pela Escrever Escrever)

 

Ganhar consciência é sair do ovo para a cadeira?

Julho 18, 2021

- O que são aquelas tendas?

Atravessávamos todos os dias aquele viaduto sobre os carris que permitem o leva e traz à estação de Santa Apolónia. Continuamos a atravessá-lo todos os dias, mas isto aconteceu há uns anos, quando a Salomé trocou de cadeira no carro e passou a estar menos enterrada no seu lugar. Os olhos dela passaram a inventariar outras coisas para além do céu azul, das nuvens, do céu azul com nuvens, do céu cinzento de nuvens, dos pingos de chuva a baterem no vidro, dos postes de iluminação em fila uns atrás dos outros.

- O que são aquelas tendas, pai?

Atravessámos tantas vezes aquele viaduto. Não havia como escapar-lhe no caminho de casa para a creche e da creche para casa. Aquelas tendas sempre estiveram lá, camufladas entre pilares grossos, uma terra de ninguém sobrelotada, a sombra da sombra da sombra da cidade em marcha. Expliquei-lhe que havia quem dormisse ali, por não ter casa. Aguardei mais perguntas, mas elas surgiram apenas alguns dias mais tarde. Em vez disso, enquanto avançávamos naquele dia, a Salomé fixou o olhar nas tendas verdes a partir do seu recém-estreado miradouro no banco de trás do carro. Na altura pensei: ganhar consciência é sair do ovo para a cadeira.

*

Quando era miúdo e vinha a Lisboa visitar a minha avó aos fins-de-semana, passava sempre por um café de bairro (que obviamente já não existe, porque isto aconteceu num tempo em que qualquer loja de bairro não precisava de ter a palavra bairro escrita à frente do nome para que o identificássemos como tal). Mesmo à porta desse café, alguém tinha colado uma moeda no chão de calçada portuguesa, bem posicionada para que os residentes habituais da esplanada pudessem assistir em primeira mão à emboscada. As pessoas caminhavam distraídas pela Rua D. Estefânia, aquelas que iam de olhos no chão, e estacavam mesmo ali à frente. Baixavam-se como quem não quer a coisa e tentavam apanhar a moeda, às vezes demorando a entender que ela nunca iria sair dali. Muitas vezes, nem reparavam nos risos dos clientes habituais do café, sentados na esplanada como se estivessem na primeira fila de um espectáculo. Quando reparavam, já era demasiado tarde. Tinham sido apanhados e aí o público perdia a vergonha e ria sem pruridos. Também eu fui apanhado. Também acreditei que andar de olhos pregados no chão me iria valer uma moeda de duzentos escudos. Também eu levei calduços na escola por caminhar de cabeça baixa, olhos perdidos no chão - ou talvez fosse de cabeça baixa precisamente por saber que iria apanhá-los e talvez se não os visse a sensação de dor fosse menos evidente. Na altura pensei: olhar para baixo é uma cilada.

*

Há uns meses, a Salomé pediu-nos para ir andar de trotineta "naquele sítio com círculos, rectângulos e quadrados". Tentámos responder ao pedido, lançámos várias hipóteses sem sucesso. Falávamos de parques, mas ela respondia-nos com um sítio de chão rosa e com o dedo desenhava no ar as formas geométricas que lá havia. Após algumas tentativas, desistimos e seguimos para o Campo das Cebolas, porque era amplo e já não íamos lá há algum tempo. Quando chegámos, olhei para o chão. Foi isto que vimos:

2021-03-01-120317395.jpg

Ali estava o chão rosado, com círculos, rectângulos e até semi-círculos de vários tamanhos, que ficou gravado na memória da Salomé embora não na minha. Provavelmente porque comecei a resistir a prender o meu olhar no chão, por estar preso aquele juízo que dá por certo que quem olha para baixo são os tolos, os desalentados, o Charlie Brown. Na altura pensei: olhar para baixo pode ser bom, no fim de contas, para ver onde ponho os pés, por exemplo.

 

As vozes das coisas sem boca

Fevereiro 19, 2021

Há uns meses um portão falou comigo. Foi um sussurro, não o ouvi à primeira. Ninguém está à espera de que um portão lhe diga qualquer coisa, e sobretudo que seja a murmurar. Os portões costumam anunciar-se com estrondo. Reparei nele com alguma demora, depois de passar tantas vezes por aquela rua, a de Santo António dos Capuchos, a caminho do trabalho, descendo em direcção à Avenida da Liberdade, ou suando no regresso a casa, subindo pelo Campo dos Mártires da Pátria. Se passarem por ele provavelmente não darão por ele, mesmo que saiam de casa com esse propósito. Apenas o ouvi depois de não ter mais nada para escutar.

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*

Há um ano, acordámos pouco preparados para o silêncio. Na verdade, estávamos (mais do que) habituados ao ruído. Portanto o alerta chegou assim, à boleia de notícias barulhentas, como se os ecrãs das televisões, dos telemóveis e dos computadores fossem megafones. Durante algum tempo foi o que prevaleceu. Depois disso, por causa disso, apesar disso, ficámos algum tempo em silêncio sem ninguém nos ter mandado calar. Sem que ninguém nos mandasse. É verdade que falámos bastante - também participei em inúmeras videochamadas -, mas nesses primeiros meses consegui distinguir o silêncio como em poucos outros momentos da minha vida. Com espessura, quase palpável. O suficiente para passar a inventariar silêncios inesperados.

Recordo-me de ter saído de casa pela manhã, num desses dias de Março do ano passado, e de ter dado pela falta de uma imagem que já tinha como certa. Todos os dias, excepto naqueles em que a chuva não desse tréguas, a senhora que vive no rés-do-chão do prédio em frente abria as janelas de par em par e ali deixava as almofadas onde repousara durante a noite, debruçadas para a rua. Nunca temeu roubos ou transeuntes atrevidos que se atrevessem a dormitar à sua janela, mas a partir daquela manhã de março, nem as almofadas arejaram, nem as janelas se abriram. Durante longos meses, encarei esse silêncio todas as manhãs a partir da minha janela. Aquele par de almofadas sufocou dentro de um quarto durante meses e aquilo que disseram, estando ausentes, foi mais vigoroso do que os “olás” que me haviam dito quando ainda podiam apanhar ar.

O silêncio desenterrara vozes que já existiam, mas às quais não dedicara qualquer atenção até aquela altura. Umas semanas depois, lembro-me de ser interpelado por uma sucessão de outdoors na beira de uma estrada. O primeiro dizia “Anuncie aqui”. O segundo, uma dezena de metros à frente, já suspirava “Este espaço pode ser seu…”. Até que por fim, outra dezena de metros adiante, uma tela em branco se remetia ao silêncio nos seus dez metros por três. Um painel esbranquiçado como metáfora de um horizonte débil para o qual vamos avançando. Recordo também os murmúrios que se alastram a partir dos parques infantis vedados. Mesmo sendo um pai que aprendeu a odiar estes espaços, é impossível abafar os lamentos dos escorregas e baloiços enfaixados e solitários.

Reconheço que é difícil admitir que escutamos as vozes destas coisas sem boca, logo agora que a saúde mental colectiva se encontra tão periclitante. No entanto não precisa de ser complicado. Um dia destes, sentada na sanita, a minha filha imitou o barulho de água a correr e no final disse-me que “estava a fazer a voz do chichi”. É simples, portanto. Tão simples quanto ter entrado num prédio de um familiar e me ter surpreendido com um tapete de entrada à porta de um dos vizinhos. Dizia “Welcome”, como tantos outros, mas estava virado para dentro, só o podia ler facilmente quem já estivesse dentro de casa.  À sua maneira, o tapete lembrava a quem aí vivia que se teria de contentar em ficar lá dentro.

Foi também no ano passado que me dei conta que o meu telefone também falava. Haverá coisa mais silenciosa e simultaneamente tão absolutamente ruidosa do que um scroll infinito num ecrã de telemóvel? Contudo concluí isso num outro momento de silêncio, ainda que mais breve. Em abril juntei-me a uma iniciativa da Casa Fernando Pessoa chamada Leituras ao Ouvido. Consistia em ligar a desconhecidos (que se tinham inscrito ou que tinham sido inscritos por pessoas próximas) e ler-lhes um poema ou um texto curto. Sentado na minha cama, li um poema de Daniel Faria para um senhor que estava no areal ventoso da Praia da Tocha, tive de gritar “O Portugal Futuro” de Ruy Belo para que uma senhora com a audição comprometida me conseguisse ouvir. “No dia em que não ouço um poema pelo telemóvel fico com pena”, disseram-me. E ainda que soubéssemos que existiam pessoas nas duas pontas desta chamada, não deixávamos de ser desconhecidos e o telefone era afinal o portador daquelas vozes. Havia um poema em particular que instaurava, mais do que os outros, um compasso de silêncio. Começava assim “Estivemos um mês inteiro à janela/com os cotovelos apoiados, a contemplar aquele pedaço de terra/rodeado de sebes. E chegou o Verão”. As palavras ressoariam de outra forma em Abril do ano passado, é certo. “Agora vamos em passeio pelas estradas vazias da aldeia/sem falar e sem olhar um para o outro/como se não fôssemos nós próprios.” Conseguem imaginar ouvir isto na incerteza de Abril? “As estradas, que calafetadas com pedras/novas faziam escorregar/são agora suaves tapetes de ervas sob os nossos passos./Quando anoitece sentamo-nos no chão / e afagamos a erva das fendas, /rara, como os cabelos de uma anciã.” Silêncio. Um silêncio fundo do lado de cá e do de lá. E no entanto, o telefone segredava-me qualquer coisa reconfortante – e tenho a certeza de que o fazia também no outro lado da chamada. Descobri a voz do meu telemóvel a ler um poema de Tonino Guerra, “Canto Vigésimo Quinto”.

*

Os pardais-de-coroa-branca também acordaram para esse silêncio, porém, estavam preparados. Despertaram com um despertador silencioso, que atenuou o ruído infernal da vida urbana - menos motores, menos buzinas, menos tralha, o caos a fazer-se macio. Em Abril e Maio do ano passado, quando o confinamento lhes ofereceu esta acalmia, estes pássaros mudaram o seu canto. Na Baía de São Francisco, nos Estados Unidos, os investigadores já tinham verificado nas suas observações no terreno que o pardal-de-coroa-branca tinha de gritar para ser ouvido neste barulhento ambiente urbano. Por gritar, entenda-se um canto mais estridente. Ora, assim que o ruído se atenuou, os mesmos investigadores perceberam que eles haviam mudado os seus cantos para um registo mais próximo dos seus semelhantes rurais, mais harmonioso. Na notícia que li, comparavam o canto dos pássaros canoros (como este pardal) com o dos gaios, por exemplo: “a complexa beleza de um solista de ópera bem treinado contra o som gutural de um cantor de metal”. O seu canto é fundamental: quanto mais rico, mais atractivos se tornam para as fêmeas da espécie. Um canto mais complexo, mais suave, que alcança outras distâncias e que inclui muito mais informação.

*

Porque é que nos aconteceu o oposto? Porque é que a pandemia nos tornou ainda mais esganiçados? Pensei nisto pouco depois de ler a notícia sobre estes pássaros. Talvez aqueles instantes de silêncio de há um ano, prolongados por semanas e meses, tenham sido demasiado rápidos. A verdade é que não tratámos de enriquecer o discurso, continuámos a cair nas mesmas armadilhas de sempre, irremediavelmente toldados pela sobranceria, por preconceitos e pela ignorância. Amores e ódios em catadupa. Não ficou tudo bem. Enfrentamos o início de um trauma colectivo, entrecortado por polémicas quase diárias e desnecessárias e por umas eleições cuja ferida não vai sarar tão depressa, enquanto abrimos a janela todos os dias e vislumbramos o lusco-fusco que antecede uma noite de duração indeterminada. Resta-nos ser exigentes. Prestar tanta atenção ao silêncio como a quem vocifera atrocidades por dá cá aquela palha. É um exercício que tento cumprir, mas no qual falho constantemente. Procuro ouvir essas vozes dissonantes, perceber de onde vêm e para onde podem ir, mas dou por mim a ouvir portões a sussurrar. 

Conversas em isolamento #2

Falar pelos cotovelos

Março 31, 2020

(O sentido da votação foi unânime após a primeira conversa desta história. Mais uma vez, no final do texto deixo duas hipóteses de conversas futuras para que possam escolher aquela que preferem continuar a ler.)

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#1 - Falar para uma parede

Ao décimo dia sem sair de casa, a Lara acordou de mau humor. Os cantos da boca estavam presos ao fundo da cara e tinha uma vontade incrível de berrar. Acontece a toda a gente, é verdade, mas com ela era a primeira vez. A Lara fazia questão de acordar sempre bem-disposta. Até em dias fechados como estes. Até depois de passar uma semana inteira a ver o parque ao longe, pela janela do quarto, a inventar escorregas nas pernas dos pais. 

Logo ela que, todas as manhãs, se espantava quando via os olhos dos pais, acabados de acordar e já cansados. Abriam as pálpebras de manhã, pensava a Lara, como se já soubessem como iria ser o dia que tinham pela frente. Embora ela tivesse a certeza de que isso não era possível - à noite, a escuridão não nos deixa ver nada, muito menos o futuro. Ela já sabia o motivo. Os pais acordavam mal dispostos pela mesma razão que todos os adultos se aborrecem por ter de ver um filme de novo. Ou por ter de repetir pela décima vez uma brincadeira qualquer. Acham que já viram tudo.

Ora neste dia, a Lara acordou mal-disposta pela primeira vez na vida. Cruzou-se com a mãe e resmungou. Passou pela cadela e nem lhe disse os bons dias, como habitualmente. Nem agradeceu ao pai as torradas besuntadas de manteiga. A vontade de gritar crescia cada vez mais. Às vezes sentia-a na barriga, outras vezes parecia que subia até à garganta. Só quando a sentiu a rolar pela língua, quase a sair cá para fora, é que percebeu que tinha de fazer alguma coisa.

Muitas vezes diziam-lhe que falava pelos cotovelos. Acontecia normalmente quando chegava da escola e tinha uma longa lista de episódios para contar. As palavras saltavam para as cavalitas umas das outras. "Tem calma, Lara", diziam, "estás a falar pelos cotovelos". Mas os cotovelos dela estavam tapados pelo casaco. Era a boca dela que não conseguia esperar para contar tudo. 

Se afinal os cotovelos conseguem falar sem fazer barulho talvez a pudessem ajudar neste dia. Se eles falassem por ela, a Lara não teria de gritar. Restava descobrir como o fazer. Arregaçou as mangas do pijama e olhou para os cotovelos com uma atenção que nunca lhes tinha dado. Pareciam simpáticos mas de poucas conversas. Talvez um pouco secos. Dobrou e esticou os braços muito depressa e quase conseguiu imaginar uma boca a mexer-se na dobra dos cotovelos. Mas continuava sem escutar qualquer som. Por outro lado, dentro da boca da Lara o tal grito estava prestes a escapar. Não tinha muito tempo.

Pegou numa caneta e desenhou no cotovelo esquerdo dois olhos e um sorriso. Foi complicado mas a Lara sentiu que lhe tinha dado alguma vida. Foi até ao espelho e admirou aquele risco sorridente. Tinha ficado certinho, tal qual os sorrisos com que gostava de acordar. Sorrir bem podia ser outra maneira de falar, menos complicada, imaginou.

Entretanto ela já se tinha esquecido um pouco do mau-humor com que acordou. Já não queria falar pelos cotovelos só para não gritar. Desejava que o cotovelo falasse com ela, por mais impossível que isso fosse. Voltou a pegar na caneta, desta vez para desenhar outra cara sorridente no cotovelo direito mas o desafio de desenhar com a mão esquerda revelou-se bem mais difícil. Os olhos saíram duas bolas irritadas e a boca uma linha torta como uma centopeia. Ao olhar para os cotovelos no espelho, descobriu duas caras completamente diferentes. Um cotovelo sorria, o outro olhava desconfiado. Parecia que se conheciam.  O cotovelo direito não podia estar mais chateado. Se calhar tem razões para isso, pensou a Lara. Não percebia se o sorriso do cotovelo esquerdo era um sorriso igual aos dela ou se estava a fazer troça do outro. 

"Não te cansas de estar sempre a rir?" A Lara quase saltou de surpresa quando ouviu a pergunta. "Eu tive de ficar com esta boca torta e tu ainda sorris?". Mas desta vez a Lara percebeu que a voz grossa vinha do cotovelo direito. O cotovelo esquerdo continuava de boca fechada, sorridente. Ela também não conseguia abrir a dela. "Já sabia que não ias dizer nada. Não admira, tens mesmo cara de quem cheira mal da boca", acusou o cotovelo irritado. "Tu é que cheiras mal da boca", respondeu finalmente o outro cotovelo, embora ainda a sorrir. Era a primeira vez que a Lara assistia a uma conversa de cotovelos. Estava sem pio. "Eu mal consigo abrir a boca, como é que sabes se cheiro mal ou não?", disse um. "Se calhar não a abres porque tens os dentes podres", respondeu o outro. "E tu se calhar nem dentes tens..." Por esta altura, a Lara já tinha percebido que ia ser complicado fugir daquela situação. Para onde quer que fosse, os cotovelos iriam com ela e a discussão também. Ela ia estar no meio daquela troca de insultos.

Sem que eles se apercebessem, ela pegou num casaco e começou a vesti-lo muito devagar. Primeiro a gola, depois as duas mangas de uma vez só, para os cotovelos não darem por isso. Por trás do tecido da camisola, eles ainda continuaram a gritar durante um bom bocado. Ela sentia o algodão a tremer pelos braços acima e abaixo. Até que finalmente eles se acalmaram e ficaram apenas a resmungar, como se estivessem a fazer-lhe umas cócegas muito leves. A Lara saiu do quarto, fechou a porta com calma. Percebeu que a vontade de gritar tinha desaparecido. E então suspirou. "Como é que os adultos acham que já viram tudo?". 

 

Qual a próxima conversa da Lara?

A - Conversa de café

B- Conversa de chacha

 

Conversas em isolamento #1

Falar para uma parede

Março 18, 2020

(Nos últimos dias tenho estado em casa - um privilégio e uma opção. Num terceiro andar onde cabem quatro pessoas e uma cadela, temos visto televisão, pintado cartão, papel e as próprias mãos, respirado fundo de vez em quando. E, claro, temos contado histórias. Daí me ter lembrado de começar a contar esta história curta para adultos, crianças e animais de estimação - que provavelmente vai acabar a ser uma espécie de cadáver esquisito, um repositório de conversas alavancado por este tédio novo. No final deste primeiro texto deixo duas hipóteses de conversas futuras. Nos comentários indiquem qual a vossa favorita. Prometo continuá-la dia sim, dia não.)

falaraparaumapoarede

Estar aborrecido é uma coisa engraçada. Por vezes, é como ter uma grande pedra a bloquear o caminho. Mas também pode transformar-se numa daquelas pedras redondas dos desenhos animados que rolam colina abaixo atrás do herói. Estar aborrecido põe a nossa cabeça a correr mais depressa. Talvez até mais do que quando estamos entretidos. 

Depois de alguns dias sem sair de casa, a Lara lembrou-se que poderia ser divertido falar para uma parede. Quando as pessoas falavam disso tinham um tom de voz impaciente. No entanto, como ela agora tinha todo o tempo do mundo, era a altura ideal para tentar fazê-lo. Começou por percorrer todas as divisões de casa para encontrar a parede perfeita para conversar. O passeio deixou-a desiludida. A maior parte das paredes estava coberta de armários e estantes. Outras cheias de molduras. Ficou preocupada porque se as paredes tinham ouvidos, como lhe tinham dito, não iriam conseguir ouvi-la cobertas de tanta tralha. 

Finalmente, encontrou uma parede mais desocupada, mesmo em frente à casa de banho. Sentou-se à sua frente. Tossiu um bocadinho, como os adultos fazem antes de começar uma conversa importante. Pensou dizer "Olá" mas, quando abriu a boca no segundo a seguir, o que disse foi "Que idade tens?". A parede não lhe respondeu. Aliás, pareceu ter ficado ofendida com a pergunta porque ficou ainda mais branca. A Lara pediu-lhe desculpa. Disse "Olá", desta vez sem se enganar, e apresentou-se como se estivesse na escola: nome, idade, profissão da mãe, profissão do pai, passatempos favoritos. Só não disse onde vivia porque isso a parede já sabia. 

A parede continuava branca, sem lhe responder. A Lara começou a pensar que talvez não tivesse sido boa ideia tentar falar para uma parede. O que tem uma parede para contar a uma rapariga de 6 anos? Que nasceu ao mesmo tempo daquela casa e viu a primeira família a chegar, a crescer, se calhar a crescer tanto que acabou por vê-la a sair? Que ouviu tantas famílias a passar à sua frente e que a da Lara é apenas mais uma? Que já várias vezes lhe tentou dizer olá mas ela nunca lhe respondeu? Que já tem cinco camadas de tinta diferentes e por isso não ouve tão bem quanto ouvia? Que ser uma parede é uma tarefa difícil e que odeia a humidade? 

"Se calhar está a dormir". A Lara levantou-se, encostou a mão à parede branca e disse-lhe até já. Nesse instante, a única moldura que estava pendurada na parede caiu no chão, sem se estragar. Pode ter sido coincidência. A Lara preferiu pensar que a parede afinal tinha alguma coisa para dizer a uma rapariga como ela.

 

Qual a próxima conversa da Lara?

A - Falar para o boneco

B- Falar pelos cotovelos

 

Uma casa #2

Janeiro 31, 2020

Vizinhos

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Descobri os vizinhos depois dos trinta. Antes disso eram apenas nomes como fronteiras ou entidades como fantasmas. O terreno do senhor Cesário, acolá atrás do muro, onde aterravam bolas e G.I. Joes de pára-quedas. Aquela nespereira, de tronco fincado no terreno de outra vizinha, que fazia pender generosos ramos sobre o nosso quintal - e eu nunca gostei de nêsperas. Anos mais tarde, um baldio de ervas altas de um lado, a estrada nacional à frente, a residência sazonal de uns primos do outro lado, e uma parede mal caiada para além da qual se adivinhava a presença revezada de uma família humana e de uma vara de porcos. Vivi mais de um ano num prédio em Lisboa sem ter trocado uma só palavra com outra pessoa que lá morasse. Um dia abri a porta de casa distraído e vi um galgo afegão, de pêlo sedosamento sobranceiro, de olhos postos em mim. Não havia qualquer pessoa ao lado, o cão era o seu próprio dono, sem trelas. Fechei a porta num ápice, rendido à superioridade daquele olhar, sobretudo surpreendido por ter um cão como vizinho. A vizinhança que descobri depois dos trinta não é feita de cães, nem de pessoas, nem daquela pitada de sal de que precisamos de vez em quando, nem se sossega com uns bons dias trocados nos degraus das escadas. Pelo menos, não só disso.

Comecei a pensar nesta vizinhança na mesma altura em que, a propósito de um trabalho sobre os 150 anos da Estação de Santa Apolónia, andei às voltas por aquela área. Numa conversa inicial com uma trabalhadora da (então) CP, ouvia-a referir-se àqueles que viviam paredes meias com a estação como "os confinantes". A palavra fez-se ouvir de uma forma especial, desconfiei dela graças à noção de encerramento que o verbo confinar contém. Como desconfio de quem cola autocolantes amarelos na caixa de correio a rejeitar publicidade não endereçada. Mas bastou avançar por uns degraus, sondando outros pisos, tal como devemos proceder com as palavras, para chegar ao significado que essa pessoa lhe atribuía. A estação e as pessoas que vivem, trabalham, dançam à sua volta são vizinhos porque partilham os mesmos limites. As paredes pertencem a quem se esconde no seu interior ou a quem quer passar despercebido lá fora, do outro lado? E qual é mesmo o outro lado? Partilhar limites parece-me meio caminho andado para deixar de os estabelecer - e ainda bem.

Se digo que descobri os vizinhos depois dos trinta, digo também que me descobri como vizinho por essa altura. Lentamente passei a encarar a vizinhança como um corpo único, cuja organicidade se sentia em pequenos rituais. A imagem que reproduzo aqui, no topo do texto, é um exemplo disso. Quando estendia a roupa e, por distração ou aselhice, me escapavam algumas peças de vestuário para o quintal do rés-do-chão, sabia que mais tarde ou mais cedo, elas iriam aparecer à minha porta. O vizinho do primeiro andar fazia questão de as resgatar (como foi o caso daquela meia) e devolver ao puxador da nossa porta, a par das molas igualmente caídas. Outro episódio: há uns anos, pouco depois de ter sido pai pela primeira vez, percorria os corredores do supermercado do bairro quando uma senhora parecida com a minha avó decide interromper o meu alheamento. Perguntou pela mãe da bebé, pela bebé, pelo nome que lhe tínhamos dado e sorriu. "Sabe, é que eu fui acompanhando a gravidez..." Nunca tínhamos falado, não me lembro de até aquele momento a ter olhado tempo suficiente para me recordar da sua cara. No entanto ela lá estava, na janela do rés-do-chão do prédio em frente, e tinha visto uma barriga crescer com o entusiasmo de quem já descobriu o que é isto de ser vizinho há muito tempo. Nessa altura eu ainda estava a descobri-lo.

No último dia de mudanças de uma casa para outra, cruzei-me com uma moradora recente no meu antigo bairro. Tinha decidido abrir um café num espaço que já tinha sido uma padaria. Reuniu durante meses o material necessário, foi compondo peça a peça o seu negócio, vi-a a chegar sozinha tantas vezes, já a noite estava instalada, com caixas, electrodomésticos,  num esforço ruidoso que contrastava com a quietude daquelas ruas. Cruzei-me com ela a meio do segundo dia de portas abertas e anunciou-me que ia desistir. Aquela rua "só tinha velhos que passavam o dia enfiados à janela a olhar cá para baixo".  A descrição correspondia integralmente à realidade. Contudo aquilo que para ela foi um desabafo, que justificava o falhanço da sua empreitada, era para mim a ilustração perfeita dos confinantes daquela rua, dos meus vizinhos, do seu papel naquele organismo. Cada par de olhos a espreitar pelas janela. Este ano mudei-me para outra rua, a um quilómetro em linha recta daquela outra. Os meus vizinhos continuam lá, não os subtraio. Na minha nova rua, às janelas vejo imensos gatos, deitados em tronos com espaldares de sisal, onde afiam as garras enquanto me fitam com o mesmo olhar do tal galgo afegão, que era meu vizinho sem eu saber. Nesta nova casa, os felinos são a minha primeira vizinhança.

 

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