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Longitudinal

Fazemos viver, mas não vivemos

Setembro 05, 2022

 

Mulher-ilha_galleryfull.jpg

(Moira Forjaz)

 

"Nós, mulheres, fazemos existir, mas não existimos. Fazemos viver, mas não vivemos. Fazemos nascer, mas não nascemos. Há dias conheci uma mulher do interior da Zambézia. Tem cinco filhos, já crescidos. O primeiro, um mulato esbelto, é dos portugueses que a violaram durante a guerra colonial. O segundo, um preto, elegante e forte como um guerreiro, é fruto de outra violação, dos guerreiros de libertação da mesma guerra colonial. O terceiro, outro mulato, mimoso como um gato, é dos comandantes dos rodesianos brancos, que arrasaram esta terra para aniquilar as bases dos guerrilheiros do Zimbabwe. O quarto é dos rebeldes que fizeram a guerra civil no interior do país. A primeira e a segunda vez foi violada, mas à terceira e à quarta entregou-se de livre vontade, porque se sentia especializada em violação sexual. O quinto é de um homem com quem se deitou por amor pela primeira vez.

Essa mulher carregou a história de todas as guerras do país num só ventre. Mas ela canta e ri. Conta a sua história a qualquer um que passa, de lágrimas nos olhos e sorriso nos lábios, e declara: os meus quatro filhos sem pai nem apelido são filhos dos deuses do fogo, filhos da história, nascidos pelo poder dos braços armados com metralhadoras. A minha felicidade foi ter gerado só homens, diz ela, nenhum deles conhecerá a dor da violação sexual."

 

(Niketche - Uma História de Poligamia, Paulina Chiziane, 2002)

 

Longa e breve exposição

Agosto 24, 2021

 

Foto de longa exposição

 

vinhas do mar

espuma tíbias séculos

ou o teu corpo acostado ao pino do Verão

na praia da Amoreira, por exemplo

 

água rochedo snapshot

vinhas muito do mar

 

acelero o pensamento até uma noite

de Junho influenciando o passado - altíssimo

bairro a uma segunda-feira

 

                    para depois

dormirmos numa pensão em Coimbra

cigarros à janela

vista para a Cabra

 

partamos para Sul como num slogan

o Sol a marca do biquíni um indício de mar

roubarei de novo o carro aos pais 

para ouvir outra vez o estrépito ameno do 

teu gozo

 

 

Foto de breve exposição

 

repartimos a regueifa de Pardilhó com as formigas de Odeceixe

 

(Estojo, Miguel-Manso, 2020)

Promessa de que o mundo nos espera se formos

Maio 26, 2021

rothko.jpg

No. 6 (Yellow, White, Blue over Yellow on Gray)

 

"Da janela do quarto onde cresci, e onde portanto comecei a ouvir Caetano, eu via o Tejo da altura de um oitavo andar, com os navios passando ao fundo, veleiros, cargueiros, porque ali o rio vai largo, e em muitos dias não se vê outra margem, parece o mar. Então, essa é a minha primeira imagem-ideia de partida, o sonho daqueles barcos no fio do horizonte, promessa de que o mundo nos espera se formos, esse mundo, que nunca acaba de se revelar, tal como o horizonte nunca acabará se por ele avançarmos, sempre rumo aos antípodas. Pela simples razão de que a Terra é redonda, tal como a estupidez é plana."

(Cinco Voltas na Bahia e um Beijo para Caetano Veloso, Alexandra Lucas Coelho, 2019)

 

Quando formos livres

Março 01, 2021

"Ela sempre recusara a ideia de que os filhos pudessem ser um entrave ao seu êxito, à sua liberdade. Como uma âncora que nos puxa para o fundo, que arrasta o rosto afogado pela lama. A princípio, essa tomada de consciência fê-la mergulhar numa profunda tristeza. Achava isso injusto, terrivelmente frustrante. Percebeu que nunca mais poderia viver sem ter a sensação de estar incompleta, de fazer mal as coisas, de sacrificar uma parte da sua vida em prol de outrem. Tinha feito um drama, recusando-se a renunciar ao sonho da maternidade ideal. Teimando em pensar que tudo era possível, que alcançaria os seus objectivos, que não ficaria nem amarga, nem esgotada. Que não faria nem de mártir, nem de Mãe Coragem.

Todos os dias, ou quase, Myriam recebe notificações da sua amiga Emma, que publica nas redes sociais retratos em tom sépia dos seus dois filhos louros. Crianças perfeitas que brincam num parque infantil e que Emma matriculou numa escola que desenvolverá os dons que ela já adivinha neles, em tão tenra idade. Deu-lhes nomes impronunciáveis, provenientes da mitologia nórdica e cujo significao adora explicar. Nessas fotografias, também Emma é uma figura linda. Quanto ao marido, nunca aparece, eternamente confinado ao papel de fotografar uma família ideal à qual só pertence como espectador. E, no entanto, ele esforça-se por encaixar no molde: usa barba, camisolas de lã natural, vai trabalhar de calças justas e desconfortáveis.

Myriam jamais se atreveria a confiar a Emma o pensamento fugaz que a atravessa, a ideia, que não é cruel, mas vergonhosa, que a perpassa ao observar Louise com os seus filhos. Só seremos felizes, diz ela para si própria, quando não precisarmos uns dos outros. Quando pudermos viver uma vida nossa, uma vida que nos pertença, que não diga respeito aos outros. Quando formos livres."

 

(Canção Doce, Leïla Slimani, 2016)

 

Cada passo que não deram ainda

Fevereiro 23, 2021

Os pés

 

Que feios são os pés de toda a gente,

excepto os das minhas filhas. Que lindos

são os pés das meninas. As bochechas

redondas e cor-de-rosa dos anjos

invejam-lhes os calcanhares, e os dedos,

vistos a partir da planta, minúsculos,

têm a suavidade das ervilhas.

Ainda estão por estrear. E comove-me

pensar em cada passo que não deram ainda.

 

(Conta-mo outra vez, Amalia Bautista, 2020)

Caminhar em bicos dos pés sobre minas terrestres

Janeiro 09, 2020

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"Estou a escrever estas palavras, porque não confio no tempo. Eu, Harriet Burden, também apelidada de Harry pelos amigos mais antigos e uns quantos novos amigos seletos, tenho sessenta e dois anos, portanto não sou propriamente um dinossauro, mas estou mais do que a caminho do Fim, e ainda me resta muito a fazer antes que se descubra que, afinal, uma das minhas dores é um tumor, ou que o não me lembrar de uma palavra é um principio de demência, ou antes que um camião desgovernado galgue o passeio e me esborrache contra a parede, deixando-me sem ar para todo o sempre. A vida é caminhar em bicos dos pés sobre minas terrestres. Nunca sabemos o que temos pela frente e, se querem a minha opinião, também não dominamos o que deixámos para trás. Mas uma coisa que sabemos fazer muito bem é contar a versão que melhor nos convém e dar cabo da cabeça a tentar que bata certo."

(O Mundo Ardente, Siri Hustvedt, 2014)
 

Todos os dias observo a cicatriz que tenho na mão.

Maio 08, 2019

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(Repressão policial aos protestos populares na cidade de Gwangju, Coreia do Sul, em Maio de 1980)

 

"Há memórias que nunca saram. Em vez de se esbaterem com a passagem do tempo, essas recordações tornam-se a única coisa que sobra quando tudo o resto se corrói. O mundo escurece, como lâmpadas elétricas, fundindo-se uma a uma. Tenho consciência de que não sou uma pessoa de confiança.

 

Serão os seres humanos fundamentalmente cruéis? Será a experência da crueldade a única coisa que partilhamos enquanto espécie? Não passará a dignidade a que nos agarramos de uma ilusão para disfarçarmos, perante nós mesmos, esta simples verdade: que cada um de nós pode ser reduzido a um inseto, um animal voraz, um pedaço de carne? Que ser aviltado, magoado, esquartejado... é o destino essencial da humanidade, um destino cuja inevitabilidade a História confirmou?

 

Uma vez, na altura da revolta, conheci um tipo que era paraquedista. Contou-me a sua história depois de ouvir a minha. Disse que tinham recebido ordens para esmagar os civis com a máxima violência possível, e os que cometeram atos particularmente brutais receberam prémios de centenas de milhares de won dos superiores. Um dos tipos da sua companhia tinha dito, «Qual é o problema? Se me dão dinheiro e me mandam espancar alguém, porque é que não hei de fazê-lo?»

 

Ouvi outra história de um dos pelotões do exército coreano que combateram no Vietname. Obrigaram as mulheres, as crianças e os velhos de uma aldeia inteira a irem para a casa principal e a seguir deitaram-lhe fogo. Alguns dos que receberam ordens para nos matarem fizeram-no com a memória desses outros tempos, tempos de guerra, quando perpetrar atos desse tipo lhes valera uma bela recompensa. Aconteceu em Gwangju, tal como aconteceu na ilha de Jeju, em kwantung e em Nanjing, na Bósnia e em todo o continente americano quando ainda era conhecido por Novo Mundo, com uma brutalidade tão uniforme que parece estar impressa no nosso código genético.

 

Nunca me esqueço de que cada pessoa que conheço pertence à raça humana. E isso inclui-o a si,  professor, que está a ouvir este testemunho. Tal como me inclui a mim.

 

Todos os dias observo a cicatriz que tenho na mão. Este sítio onde outrora o osso esteve exposto, onde uma secreção esbranquiçada escorria de uma ferida putrefacta. Sempre que vejo uma vulgar esferográfica Monami, fico com a respiração presa na garganta. Espero que o tempo me arraste como água enlameada. Espero que a morte chegue e me limpe, me liberte da memória dessas outras mortes esquálidas que assombram os meus dias e as minhas noites.

 

Luto sozinho, dia após dias. Luto contra o inferno a que sobrevivi. Luto contra a realidade da minha própria humanidade. Luto contra a ideia de que a morte é a única maneira de escapar a essa realidade.

 

Por isto, diga-me, professor, que respostas tem para mim? O senhor, um ser humano como eu."

 

(Atos Humanos, Han Kang, 2014)

 

Pequeno apontamento sobre a história das cores

Fevereiro 04, 2019

(Vierge de Xhoris (c. 1030), Museu Grand Curtius, Liège, Bélgica,

provavelmente não é aquela que Pastoureau refere mas é contemporânea )

 

"Ao longo dos séculos, a Virgem passou assim por quase todas as cores, como o demonstra uma surpreendente escultura, esculpida pouco depois do ano 1000 numa bonita madeira de tília e que hoje se conserva no museu de Liège. Como era frequente na época, essa Virgem românica havia primeiro sido pintada de preto. No século XIII, seguindo os cânones da iconografia e da teologia góticas, foi repintada de azul. Depois, no fim do século XVII, a pequena escultura acabou (como tantas outras) por ser «barroquizada», trocando o azul pelo dourado, cor que durante cerca de dois séculos conservou, até ser por fim visitada pelo dogma da Imaculada Conceição, e consequentemente toda pintada de branco (c. 1880). Esta sobreposição de quatro cores sucessivas num milénio de história faz dessa frágil peça um objecto vivo bem como um excepcional documento de história pictórica e simbólica"

(Azul - História de uma Cor, Michel Pastoureau)

 

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