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Longitudinal

Promessa de que o mundo nos espera se formos

Maio 26, 2021

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No. 6 (Yellow, White, Blue over Yellow on Gray)

 

"Da janela do quarto onde cresci, e onde portanto comecei a ouvir Caetano, eu via o Tejo da altura de um oitavo andar, com os navios passando ao fundo, veleiros, cargueiros, porque ali o rio vai largo, e em muitos dias não se vê outra margem, parece o mar. Então, essa é a minha primeira imagem-ideia de partida, o sonho daqueles barcos no fio do horizonte, promessa de que o mundo nos espera se formos, esse mundo, que nunca acaba de se revelar, tal como o horizonte nunca acabará se por ele avançarmos, sempre rumo aos antípodas. Pela simples razão de que a Terra é redonda, tal como a estupidez é plana."

(Cinco Voltas na Bahia e um Beijo para Caetano Veloso, Alexandra Lucas Coelho, 2019)

 

Quando formos livres

Março 01, 2021

"Ela sempre recusara a ideia de que os filhos pudessem ser um entrave ao seu êxito, à sua liberdade. Como uma âncora que nos puxa para o fundo, que arrasta o rosto afogado pela lama. A princípio, essa tomada de consciência fê-la mergulhar numa profunda tristeza. Achava isso injusto, terrivelmente frustrante. Percebeu que nunca mais poderia viver sem ter a sensação de estar incompleta, de fazer mal as coisas, de sacrificar uma parte da sua vida em prol de outrem. Tinha feito um drama, recusando-se a renunciar ao sonho da maternidade ideal. Teimando em pensar que tudo era possível, que alcançaria os seus objectivos, que não ficaria nem amarga, nem esgotada. Que não faria nem de mártir, nem de Mãe Coragem.

Todos os dias, ou quase, Myriam recebe notificações da sua amiga Emma, que publica nas redes sociais retratos em tom sépia dos seus dois filhos louros. Crianças perfeitas que brincam num parque infantil e que Emma matriculou numa escola que desenvolverá os dons que ela já adivinha neles, em tão tenra idade. Deu-lhes nomes impronunciáveis, provenientes da mitologia nórdica e cujo significao adora explicar. Nessas fotografias, também Emma é uma figura linda. Quanto ao marido, nunca aparece, eternamente confinado ao papel de fotografar uma família ideal à qual só pertence como espectador. E, no entanto, ele esforça-se por encaixar no molde: usa barba, camisolas de lã natural, vai trabalhar de calças justas e desconfortáveis.

Myriam jamais se atreveria a confiar a Emma o pensamento fugaz que a atravessa, a ideia, que não é cruel, mas vergonhosa, que a perpassa ao observar Louise com os seus filhos. Só seremos felizes, diz ela para si própria, quando não precisarmos uns dos outros. Quando pudermos viver uma vida nossa, uma vida que nos pertença, que não diga respeito aos outros. Quando formos livres."

 

(Canção Doce, Leïla Slimani, 2016)

 

Cada passo que não deram ainda

Fevereiro 23, 2021

Os pés

 

Que feios são os pés de toda a gente,

excepto os das minhas filhas. Que lindos

são os pés das meninas. As bochechas

redondas e cor-de-rosa dos anjos

invejam-lhes os calcanhares, e os dedos,

vistos a partir da planta, minúsculos,

têm a suavidade das ervilhas.

Ainda estão por estrear. E comove-me

pensar em cada passo que não deram ainda.

 

(Conta-mo outra vez, Amalia Bautista, 2020)

Caminhar em bicos dos pés sobre minas terrestres

Janeiro 09, 2020

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"Estou a escrever estas palavras, porque não confio no tempo. Eu, Harriet Burden, também apelidada de Harry pelos amigos mais antigos e uns quantos novos amigos seletos, tenho sessenta e dois anos, portanto não sou propriamente um dinossauro, mas estou mais do que a caminho do Fim, e ainda me resta muito a fazer antes que se descubra que, afinal, uma das minhas dores é um tumor, ou que o não me lembrar de uma palavra é um principio de demência, ou antes que um camião desgovernado galgue o passeio e me esborrache contra a parede, deixando-me sem ar para todo o sempre. A vida é caminhar em bicos dos pés sobre minas terrestres. Nunca sabemos o que temos pela frente e, se querem a minha opinião, também não dominamos o que deixámos para trás. Mas uma coisa que sabemos fazer muito bem é contar a versão que melhor nos convém e dar cabo da cabeça a tentar que bata certo."

(O Mundo Ardente, Siri Hustvedt, 2014)
 

Todos os dias observo a cicatriz que tenho na mão.

Maio 08, 2019

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(Repressão policial aos protestos populares na cidade de Gwangju, Coreia do Sul, em Maio de 1980)

 

"Há memórias que nunca saram. Em vez de se esbaterem com a passagem do tempo, essas recordações tornam-se a única coisa que sobra quando tudo o resto se corrói. O mundo escurece, como lâmpadas elétricas, fundindo-se uma a uma. Tenho consciência de que não sou uma pessoa de confiança.

 

Serão os seres humanos fundamentalmente cruéis? Será a experência da crueldade a única coisa que partilhamos enquanto espécie? Não passará a dignidade a que nos agarramos de uma ilusão para disfarçarmos, perante nós mesmos, esta simples verdade: que cada um de nós pode ser reduzido a um inseto, um animal voraz, um pedaço de carne? Que ser aviltado, magoado, esquartejado... é o destino essencial da humanidade, um destino cuja inevitabilidade a História confirmou?

 

Uma vez, na altura da revolta, conheci um tipo que era paraquedista. Contou-me a sua história depois de ouvir a minha. Disse que tinham recebido ordens para esmagar os civis com a máxima violência possível, e os que cometeram atos particularmente brutais receberam prémios de centenas de milhares de won dos superiores. Um dos tipos da sua companhia tinha dito, «Qual é o problema? Se me dão dinheiro e me mandam espancar alguém, porque é que não hei de fazê-lo?»

 

Ouvi outra história de um dos pelotões do exército coreano que combateram no Vietname. Obrigaram as mulheres, as crianças e os velhos de uma aldeia inteira a irem para a casa principal e a seguir deitaram-lhe fogo. Alguns dos que receberam ordens para nos matarem fizeram-no com a memória desses outros tempos, tempos de guerra, quando perpetrar atos desse tipo lhes valera uma bela recompensa. Aconteceu em Gwangju, tal como aconteceu na ilha de Jeju, em kwantung e em Nanjing, na Bósnia e em todo o continente americano quando ainda era conhecido por Novo Mundo, com uma brutalidade tão uniforme que parece estar impressa no nosso código genético.

 

Nunca me esqueço de que cada pessoa que conheço pertence à raça humana. E isso inclui-o a si,  professor, que está a ouvir este testemunho. Tal como me inclui a mim.

 

Todos os dias observo a cicatriz que tenho na mão. Este sítio onde outrora o osso esteve exposto, onde uma secreção esbranquiçada escorria de uma ferida putrefacta. Sempre que vejo uma vulgar esferográfica Monami, fico com a respiração presa na garganta. Espero que o tempo me arraste como água enlameada. Espero que a morte chegue e me limpe, me liberte da memória dessas outras mortes esquálidas que assombram os meus dias e as minhas noites.

 

Luto sozinho, dia após dias. Luto contra o inferno a que sobrevivi. Luto contra a realidade da minha própria humanidade. Luto contra a ideia de que a morte é a única maneira de escapar a essa realidade.

 

Por isto, diga-me, professor, que respostas tem para mim? O senhor, um ser humano como eu."

 

(Atos Humanos, Han Kang, 2014)

 

"Todos os bairros de Lisboa são ordinários"

Janeiro 10, 2019

Panorâmica de Lisboa

Panorâmica de Lisboa [entre 1950 e 1959] / Arquivo Municipal de Lisboa

 

"Todos os bairros de Lisboa são ordinários", frisou, divertido, Afonso. E citou-lhes os nomes: Alfama, Mouria, Bairro Alto, Alcântara... Todos eles bairros ordinários, mas encantadores. Seguiu-se um pequeno discurso sobre a cidade, nada de veramente sensacional, um quotidiano de amoroso, uma síntese  galanteadora, um sentimento de Marialva pela sua Severa endiabrada, tudo muito diluído pela sensação de que nenhum dos presentes podia inteiramente aderir àquele amor pela sua cidade, àquele sentir e ver de coisas muito suas desde sempre, menino bem tratado que viera calcorreando os caminhos tortuosos da Madragoa até descobrir a Avenida, e depois, mais além, a Mouraria prometida à demolição (como já acontecera ao Bairro da Liberdade e decerto aconteceria ao Bairro Alto); mais longe, o Terreiro do Paço, via Algés, ou, da outra banda, à partida de Cacilhas, um outro mundo de encantos, rematado pela Arrábida. Tudo aquilo era Lisboa ou era ainda Lisboa, a capital, a cabeça da Metrópole, o centro das iniciativas, a sede dos Ministérios laboriosos, a colmeia e o enxame, os cabarés provincianos, a irmã-pobre das capitais europeias - mas quanto sol, quanta amenidade! Uns toques, aqui e ali, do mito europeu, tão dispersos que quase inexistentes se tornavam... E a torturada Lisboa fadista, a burguesíssima Lisboa das canções importadas, a pseudo-aristocratíssima Lisboa do Chiado-acima-e-abaixo, a milagrosa sobrevivência da arte maldita nos cafés caricaturais e nos teatros a cair de podres...

 

Conforme as propostas de perguntas apresentadas, falou-se ainda (ou falou Afonso) da Lisboa manuelina, a da arte burguesa enriquecida, e da Lisboa pombalina, passando pelo Aqueduto das Águas Livres, num percurso que vinha de Belém por Campolide, até à Baixa Comercial, populosa como um formigueiro e exacta como os ideais do senhor Marquês. Abordou-se o caso popular de Lisboa, independente das manifestações desportivas - coisa que nenhum dos presentes ainda tinha descoberto. Algo no género dos balõezinhos de Santo António e do Mercado da Ribeira, noites de festa na praça da Figueira e altarinhos em Alfama, tiros no Parque Mayer e cinemas de bairro..."

 

(A Gata e a Fábula, Fernanda Botelho, 1959)

quem pode o amor?

Novembro 15, 2018

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(Alex Gozblau)

 

          "Se atentarmos na estrutura peculiar do acontecimento da vida, isto é, na forma como ela se dá, verificamos que a metáfora mais adequada para a descrever é a do teatro, cada sujeito habitando o palco, fazendo escolhas, improvisando perante a plateia, estruturalmente condenado a produzir uma versão de si a haver capaz de ser o norte magnético pelo qual orienta o futuro, e tudo isto perante uma plateia, uma plateia composta de gradações de importância, aqueles que estão mais perto do sujeito ocupam os lugares da frente, os pais, os amantes, os filhos, todos quantos de um modo pervasivo contribuem para a definição de identidade do sujeito, sendo as filas seguintes ocupadas por sujeitos cuja  importância é inversamente proporcional à distância do palco até uma zona obscura onde se sentam aqueles que não conhecemos, e se aprofundarmos esta análise preliminar, damos conta que a a estrutura da plateia condiciona os lugares ocupados pelos sujeitos e não o inverso, ou seja, é a tensão afectiva do sujeito da peça perante cada um dos espectadores que determina a fila e a cadeira que cada um deles vai ocupar, e esta relação não é bidireccional, isto é, um sujeito sentado na primeira fila não tem necessariamente de retribuir o actor daquela peça com um lugar equivalente na sua plateia, na sua peça, porque cada espectador é, em simultâneo, actor, sem com isso haver qualquer distúrbio de identidade, porque cada sujeito executa-se, em cada momento, numa panóplia de funções à qual preside sempre uma identidade indivisa.

 

          Ora como é fácil imaginar, esta peça tem a duração da vida, pelo que a possibilidade de irem entrando e saindo espectadores durante o espectáculo não só tem de ser contemplada como parece ser uma característica originária e indispensável da estrutura deste acontecimento, há pessoas que morrem, pessoas que nascem, pessoas que de repente aparecem com uma intensidade tal que acabam por sentar-se directamente na primeira fila, ora num lugar vazio ora expulsando alguém que vê a sua gradação de importância subitamente diminuída pela aparição de um sujeito capaz de desapossá-lo do lugar que ocupava na vida do actor, e isto acontece em permanência, este corrupio de entradas, de saídas, de troca de lugares, de promoção ou despromoção, é o sujeito da peça quem decide, em cada momento, a atribuição dos lugares, e estes são limitados, a plateia não é infinita, o sujeito não parece ter a capacidade, inata ou adquirida, de alargar a plateia à sua vontade, o orgão que rege a afectividade tem limites, ainda que difusos e imprecisos, e o sujeito está, de algum modo, condenado a jogar com o que há.

 

          E o que há, lamentavelmente, também é finito, há pessoas insubstituíveis, pensem nos vossos pais, por exemplo, há pessoas cuja perda desencadeia uma debandada geral na plateia, e o sujeito fica de repente obrigado a continuar a representação perante uma assistência diminuta, as filas da frente desocupadas, a identidade do actor

 

          que se funda arquimedicamente sobre o fenómeno de actuar para uma plateia, sendo esta plateia, como já vimos, uma quota-parte estrutural e constitutiva daquilo que ele é, amputada pela ausência, o sentido da vida subitamente coactado pela indefinição, para onde vou, para quê, e, sobretudo, para quem, como popular novamente esta extensão territorial em redor do umbigo a que chamamos comummente esfera afectiva, quem pode brilhar de tal modo intensamente na plateia que faz convergir para si todo o âmbito da actuação, quem pode o amor?"

 

 

(Cair para dentro, Valério Romão)

Amará o seu domador o antigo animal selvagem, hoje animal de circo?

Janeiro 29, 2018

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 (The Lion Queen / Library of Congress)

 

“Amará o seu domador o antigo animal selvagem, hoje animal de circo? Pode ser que sim, mas não é obrigatório. Dependem ambos um do outro, de forma desesperada. Um precisa do outro para se inchar como sapo-rei, ajudado pelas habilidades daquele à luz dos holofotes, e para o Barrabás da música, o outro precisa deste para possuir um ponto de referência no meio do caos generalizado que lhe ofusca o olhar. O animal tem de saber o que fica por cima e o que fica por baixo, senão de repente aparece a fazer o pino. Sem um treinador, o animal estaria condenado a precipitar-se desamparado em queda livre, ou a vagar à deriva no espaço e estralhaçar com dentes, garras e goelas, sem critério, tudo que se lhe cruza no caminho. Porém, assim, há sempre alguma pessoa que lhe diz o que vale a pena fruir. Às vezes, o objecto da fruição é-lhe já servido pré-mastigado ou cortado em bocados. A busca tantas vezes dilacerante de comida é por completo abolida. E com ela a aventura na selva. Porque nesta o leopardo ainda sabe o que é bom para si, e lança-lhe a garra, quer seja antílope ou caçador branco que descurou a guarda. O animal leva agora uma vida de contemplação durante o dia, meditando nas habilidades que tem de executar à noite. Aí, salta através de arcos em chamas, sobe para tamboretes, cerra as mandíbulas com estalido, envolve as gargantas sem as rasgar, executa passos de dança a compasso, com outros animais ou a solo, com animais aos quais se arremeteria à gorja se com eles topasse na estrada aberta da selva, sem trânsito em contrário, ou dos quais fugiria a sete pés se ainda estivesse a tempo. O animal traz uns disfarces amacacados sobre a cabeça ou o dorso. Já outros foram vistos montando cavalos, todos arreados de couro! E o seu amor, o domador, faz estalar o chicote! Ora louva, ora castiga, é o conforme. É conforme o merecimento do animal. Mas nem o domador mais refinado teve algum dia a ideia de enviar para a estrada um leopardo ou uma leoa com uma caixa de violino a tiracolo. Um urso de bicicleta é já o mais extravagante que uma pessoa consegue imaginar.”

 

(A Pianista, Elfriede Jelinek)

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